Enchentes podem espalhar poluentes da mineração de carvão no Rio Grande do Sul
As mudanças climáticas têm aumentado a verosimilhança e a intensidade de determinados eventos extremos. No Rio Grande do Sul, seus efeitos podem se combinar com fenômenos naturais, uma vez que o El Niño, criando condições favoráveis à ocorrência de chuvas intensas e enchentes. A catástrofe que atingiu o estado em 2024 tornou-se o exemplo mais dramático dessa combinação.
Além da perda de vidas humanas e dos danos à infraestrutura, as enchentes podem produzir efeitos ambientais ainda pouco investigados. Um deles é a mobilização, pelas águas, de metais tóxicos e outros poluentes associados à mineração de carvão.
O Rio Grande do Sul insiste na perpetuidade da extração e da queima de carvão, reproduzindo um padrão de “desenvolvimento” ultrapassado, que contradiz a imagem de modernidade à qual o governo estadual procura se vincular. Candiota é um caso emblemático de uma vez que atividades minerárias não necessariamente se traduzem em melhoria da qualidade de vida da população e podem gerar impactos ambientais significativos e riscos à saúde.
A mineração de carvão expõe rochas e rejeitos à chuva e ao oxigênio, favorecendo reações químicas que podem produzir drenagem ácida e liberar elementos potencialmente tóxicos. Entre eles estão chumbo, cádmio e, em concentrações elevadas, manganês. Chuvas intensas e enchentes podem transportar sedimentos e águas contaminadas para rios, planícies de inundação e áreas situadas a jusante das minas. Eventos extremos também podem sobrecarregar sistemas de drenagem e estruturas destinadas à contenção de chuva e rejeitos.
Dois episódios ajudam a ilustrar uma vez que as enchentes podem exacerbar os riscos ambientais associados à mineração de carvão no Rio Grande do Sul. O primeiro envolve uma situação relatada por moradores do município de Arroio dos Ratos. O segundo diz reverência ao projeto Mina Guaíba, cuja superfície prevista foi amplamente atingida pelas enchentes de 2024, segundo estudo do Instituto Internacional Arayara.
O caso de Arroio dos Ratos
A história e a economia de Arroio dos Ratos estão ligadas à mineração de carvão. O município com aproximadamente 14 milénio habitantes abriga, inclusive, o Museu Estadual do Carvão. Atualmente, a exploração do recurso mineral na região é realizada pela Copelmi Mineração.
As minas são exploradas a firmamento destapado, com cavas localizadas próximas à superfície urbana. Uma situação que culpa preocupação é a proximidade entre as áreas mineradas e o arroio que abastece o município. A estrutura de captação de chuva de Arroio dos Ratos, situada junto ao curso d’chuva de mesmo nome, fica nas proximidades de uma rego de mineração.

Durante o workshop “O phase-out do carvão mineral para uma verdadeira transição justa, inclusiva e sustentável”, promovido pelo Instituto Internacional Arayara em Porto Prazenteiro uma vez que segmento da POA Climate Action Week 2026, moradores apresentaram imagens que, segundo eles, mostram a conexão entre diferentes áreas durante episódios de inundação. Segundo os relatos, a construção de diques de contenção e outras atividades da mineradora teriam contribuído para as enchentes.
As imagens indicariam que as águas atingiram simultaneamente cavas de mineração, áreas de disposição de rejeitos, o arroio utilizado para o fornecimento público e trechos da zona urbana. De concórdia com os relatos apresentados no evento, a situação mais grave ocorreu durante a catástrofe climática de 2024, mas episódios semelhantes, em menor graduação, voltaram a ocorrer em 2025 e 2026.


Apesar de não ter comprovação de que a chuva que chega às torneiras da população ou entra nas casas durante as enchentes esteja contaminada por metais tóxicos e outros poluentes provenientes da mineração de carvão, essa situação exige atenção e investigação aprofundada. A possibilidade de que as águas de inundação entrem em contato com cavas e depósitos de rejeitos justifica preocupação e monitoramento independente. Além dos possíveis efeitos sobre a saúde humana, uma eventual contaminação poderia atingir organismos aquáticos e prejudicar outros componentes da biodiversidade.

Os moradores presentes no evento reivindicam que a Copelmi adote medidas para reduzir os riscos, incluindo melhorias nos sistemas de contenção e drenagem. Uma ação social pública instaurada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) apura as inundações no município e uma provável relação com as atividades da mineradora.
O caso da Mina Guaíba
Situação semelhante poderia ter ocorrido na Região Metropolitana de Porto Prazenteiro caso o projeto Mina Guaíba tivesse sido implantado. Segundo uma projeção do Instituto Arayara, apresentada também durante a POA Climate Action Week 2026, as águas das enchentes de 2024 alcançaram quase toda a superfície prevista para o empreendimento. O projeto da Copelmi ocuparia aproximadamente 4,3 milénio hectares entre os municípios de Eldorado do Sul e Charqueadas e pretendia explorar carvão, areia e cascalho. Caso fosse implantado, seria a maior mina de carvão a firmamento destapado do Brasil.
O processo de licenciamento foi anulado pela Justiça Federalista em 2022, principalmente porque não havia sido realizada consulta prévia às comunidades indígenas potencialmente afetadas. O processo também foi arquivado pela Instalação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul. A mobilização de comunidades indígenas, movimentos sociais, pesquisadores, organizações ambientais e outros setores da sociedade teve papel decisivo na oposição ao empreendimento. Em 2025, a empresa anunciou a desistência do projeto.
A projeção apresentada pelo Instituto Arayara indica que a superfície da mina teria sido amplamente inundada em 2024. Caso o empreendimento estivesse em funcionamento, o contato da chuva com a superfície minerada poderia mobilizar sedimentos e contaminantes associados à atividade. A proximidade com o rio Jacuí e com o sistema hídrico do Guaíba, nascente de fornecimento de Porto Prazenteiro, ampliaria o risco de transporte desses poluentes pelas águas das enchentes.

A sobreposição entre a superfície projetada para o empreendimento e a mancha de inundação demonstra que o risco climatológico precisaria ocupar posição mediano em qualquer avaliação ambiental. O arquivamento do projeto Mina Guaíba impediu que esse cenário de poluição minerária disseminada por enchentes se concretizasse na região metropolitana de Porto Prazenteiro, uma das maiores do país.
Não existe mineração de carvão sustentável ou isenta de riscos
A possibilidade de que eventos hídricos extremos espalhem contaminantes soma-se às diversas justificativas socioambientais para o fechamento da mineração e da queima de carvão no Rio Grande do Sul. Não existe mineração de carvão isenta de riscos ambientais ou ambientalmente “sustentável”.
O governo estadual deveria desabitar os incentivos a essa atividade e implementar, com urgência, políticas de transição energética justa, oferecendo alternativas econômicas e proteção social aos municípios e trabalhadores que ainda dependem da calabouço do carvão. Sem essa transição, eventos climáticos extremos poderão ampliar os efeitos prejudiciais da mineração sobre a população e os ecossistemas gaúchos.
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