Quem destrói mais – agronegócio ou El Niño?
O El Niño é um fenômeno climatológico procedente, mas seus impactos são amplificados pelo aquecimento global. Ou seja, o El Niño sempre existiu, mas a crise climática, causada pela queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e a agropecuária, contribui para aumentar os seus efeitos.
Em 2026, ele pode provocar alterações no regime de chuvas, com secas em algumas regiões e enchentes em outras, afetando a lavoura, o aprovisionamento de chuva e a geração hidrelétrica. Seus efeitos, porém, por mais impactantes que sejam, são temporários e costumam diminuir quando o fenômeno se encerra.
Já a devastação ambiental associada ao progresso do agronegócio sobre áreas naturais, envolvendo desmatamento ilícito, queimadas e degradação de ecossistemas, produz consequências que podem perdurar por décadas.
O impacto do agronegócio no Brasil
Segundo o IBGE, levando em conta somente a lanço de produção, a agropecuária responde por 7,1% do totalidade do PIB solene do Brasil. Segundo o cômputo feito em 27/4/2026 pelo CEPEA/USP, incluindo a lavoura, a pecuária, as indústrias de provisões e os serviços relacionados, o agronegócio representou 25,13% do PIB do país em 2025. E nunca é demais lembrar que 70% dos provisões consumidos pela população são provenientes da lavoura familiar, e que o agronegócio representa mais da metade das exportações totais do Brasil, muro de 50,2% de tudo o que o país vende para o mercado internacional.
Esse padrão (neo)extrativista primário-exportador, fundamentado em venda em tamanho de matérias primas (commodities), gera subordinação externa e degradação ambiental. Com efeito, no caso da produção agropecuária, esse padrão tem causado graves impactos ambientais no Brasil, mormente pela expansão da fronteira agrícola sobre ecossistemas naturais, pelo uso intenso de agrotóxicos e pela degradação dos recursos hídricos e do solo.
O desmatamento é um dos efeitos mais visíveis da expansão agropecuária. A lhaneza de novas áreas para a geração de rebanho e para o cultivo de commodities, porquê soja, milho e algodão, tem provocado a devastação de florestas, principalmente na Amazônia e no Condensado. Diversos estudos apontam que a pecuária bovina é a principal responsável pelo desmatamento amazônico, ocupando a maior secção das áreas desmatadas. No Condensado, considerado a savana mais rica em biodiversidade do planeta, a expansão da soja vem substituindo rapidamente a vegetação nativa.
A perda da cobertura vegetal gera uma série de consequências ambientais. A devastação dos habitats naturais ameaço milhares de espécies animais e vegetais, muitas das quais já se encontram em risco de extinção. Ou por outra, o desmatamento reduz a capacidade de sucção de carbono pela vegetação, contribuindo para o agravamento das mudanças climáticas. As queimadas frequentemente associadas à lhaneza de novas áreas agrícolas liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa e afetam a qualidade do ar, causando problemas de saúde à população.
Outro impacto importante é o uso intenso de agrotóxicos. O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais desses produtos químicos. Embora sejam utilizados para controlar pragas e aumentar a produtividade, muitos agrotóxicos contaminam o solo, os rios, os lençóis freáticos e os provisões consumidos pela população.
Pesquisas têm identificado resíduos de pesticidas em cursos d’chuva, provisões e até mesmo na chuva destinada ao aprovisionamento humano. Além dos riscos ambientais, há preocupações relacionadas aos efeitos desses produtos sobre a saúde dos trabalhadores rurais e das comunidades próximas às áreas de cultivo.
Os recursos hídricos também sofrem poderoso pressão. A lavoura irrigada consome grandes volumes de chuva, enquanto o desmatamento altera o regime de chuvas e compromete a recarga dos aquíferos. A remoção da vegetação nativa reduz a infiltração da chuva no solo e aumenta o risco de erosão, assoreamento de rios e enchentes. Na Amazônia, por exemplo, a floresta desempenha papel fundamental na formação dos chamados “rios voadores”, correntes de umidade que influenciam as chuvas em diversas regiões do Brasil. A ininterrupção do desmatamento pode comprometer esse sistema climatológico procedente.
Segundo o climatologista Carlos Superior, a Amazônia se aproxima de um “ponto de não retorno”: se o desmatamento atingir entre 20 e 25% do bioma, combinado a um aquecimento global de 1,5 a 2º C a floresta perde sua capacidade de se regenerar, de gerar chuva, e se transforma em savana seca, liberando bilhões de toneladas de carbono, alterando o regime de chuvas e acelerando ainda mais o aquecimento do planeta.
A degradação do solo é outro problema relevante. O uso intenso de máquinas pesadas, a monocultura em larga graduação e o manejo inadequado favorecem a compactação e a erosão dos solos. Com o tempo, a fertilidade procedente diminui, exigindo quantidades crescentes de fertilizantes químicos. Esse processo gera um ciclo de subordinação de insumos externos e aumenta os impactos ambientais da produção agrícola.
A produção de provisões pode ser realizada de forma mais sustentável. Diversas experiências demonstram a viabilidade de práticas porquê a agroecologia, os sistemas agroflorestais, a integração lavoura-pecuária-floresta, a recuperação de áreas degradadas e a intensificação sustentável da produção em áreas já abertas. Essas alternativas permitem aumentar a produtividade sem ampliar a devastação dos ecossistemas naturais.
O grande repto para o Brasil é conciliar produção econômica e conservação ambiental. Isso exige o fortalecimento da fiscalização ambiental, o combate ao desmatamento ilícito, a proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, a redução do uso de agrotóxicos e o incentivo a modelos de produção sustentáveis.
A preservação da Amazônia, do Condensado e dos demais biomas brasileiros não é somente uma questão ecológica, mas também econômica e social, pois a própria lavoura depende da manutenção dos recursos naturais e da firmeza climática. Mas o Congresso Pátrio abriu guerra contra a legislação ambiental, e aprovou diversos projetos de lei suprimindo a proteção ambiental.
Em síntese, o padrão agropecuário preponderante no Brasil tem contribuído significativamente para o desmatamento, a perda de biodiversidade, a contaminação ambiental, o agravamento das mudanças climáticas e a redução da capacidade da floresta amazônica de reciclar umidade e nutrir os chamados “rios voadores”, que levam chuva ao Meio-Oeste, Sudeste e Sul. As principais consequências, portanto, são a perda de biodiversidade, o aumento das emissões de gases de efeito estufa, a degradação do solo e dos recursos hídricos, e a maior vulnerabilidade do país a eventos climáticos extremos.
O El Niño vem aí!
Os principais centros de pesquisa e monitoramento do clima consideram que há mais de 80% de possibilidade de o fenômeno El Niño chegar ao Brasil no segundo semestre de 2026. Os principais impactos esperados são os seguintes:
No Sul do Brasil, o padrão mais típico do El Niño é o aumento das chuvas, com tempestades mais frequentes. Isso provoca enchentes e inundações urbanas, deslizamentos de encostas, prejuízos à infraestrutura e à lavoura. No Setentrião (Amazônia), a tendência é de redução das chuvas e temperaturas mais elevadas, favorecendo secas mais severas, queda no nível dos rios, dificuldades para transporte fluvial, aumento do risco de queimadas e incêndios florestais.
No Nordeste, teremos redução das chuvas em secção do semiárido nordestino, aumentando a escassez hídrica e provocando perdas agrícolas e pressão sobre reservatórios de chuva. No Meio-Oeste, os efeitos são mais variáveis, mas podem incluir temperaturas supra da média, períodos secos prolongados e maior risco de incêndios no Pantanal e no Condensado. E, no Sudeste, os impactos costumam ser menos previsíveis, mas incluem ondas de calor mais frequentes, alterações no regime de chuvas e possíveis períodos de estiagem em algumas áreas.
Pesquisadores do INPE destacam que El Niño atua sobre um planeta já aquecido pela mudança climática. Isso significa que seus efeitos podem ser amplificados, produzindo ondas de calor mais intensas, secas mais severas e eventos extremos de chuva mais destrutivos do que os observados em décadas passadas. Apesar das altas probabilidades de formação do fenômeno, há um perceptível proporção de incerteza, pois ainda não há consenso sobre sua intensidade.
Em resumo, se El Niño se solidificar em 2026, o cenário mais provável para o Brasil é: mais chuva e risco de enchentes no Sul, mais calor e seca na Amazônia e em partes do Nordeste, além de aumento dos eventos climáticos extremos em várias regiões do país
Uma confederação maligna
Vale ressaltar que o desmatamento causado pelo agronegócio e El Niño não são dois fatores independentes. O desmatamento pode intensificar os efeitos do El Niño. Quando há menos floresta, a atmosfera recebe menos umidade por evapotranspiração. Se, ao mesmo tempo, o El Niño reduz as chuvas, as secas tornam-se mais severas, aumentando o risco de incêndios florestais e perdas agrícolas.
Portanto, não se trata somente de confrontar dois problemas. Em muitos casos, eles atuam em conjunto: um fenômeno climatológico procedente encontra um envolvente já fragilizado pela ação humana.
Se a pergunta for qual representa o maior risco estrutural para o Brasil em 2026, a devastação ambiental ligada ao desmatamento e à conversão de vegetação nativa tende a ser mais preocupante, porque seus efeitos são cumulativos e de longa duração, e também porque ela intensifica os impactos de eventos porquê o El Niño. Assim, a devastação ambiental provocada pela expansão desordenada do agronegócio tende a ter efeitos mais graves e duradouros do que o El Niño.
O desmatamento e as queimadas estão associados à expansão irregular da fronteira agrícola e da pecuária. A sisudez do problema está justamente nessa parcela da atividade que promove a conversão de ecossistemas naturais e compromete serviços ambientais essenciais para toda a economia brasileira. A adoção de práticas mais sustentáveis é fundamental para prometer a produção agrícola de longo prazo e a preservação do patrimônio procedente do país.
*Publicado originalmente em ‘A Terreno é redonda‘
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