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Profetas do tempo: chuva, sementes e porvir no sertão da exuberância

Profetas do tempo: chuva, sementes e porvir no sertão da exuberância

O Vidente da Chuva Francisco Vieira Sampaio é hidroestesista de profissão. Ele possui um dom estudado nos anos 80 pela Universidade de Munique, na Alemanha, que pode estar relacionado a uma sensibilidade biológica de reagir a campos eletromagnéticos, ajudando a encontrar fendas de chuva no subsolo. Além de identificar o recurso hídrico, os aparelhos de cobre porquê o pêndulo, a forquilha e as antenas em “L” (conhecidas porquê Dual Rods) permitem também deslindar a quantidade e a profundidade onde a chuva vai ser encontrada, marcando o terreno para cavação da cacimba ou poço, conforme ele demonstrou pessoalmente. O rabino Seu Chiquinho, porquê é divulgado, vive na Comunidade Tapera dos Vital, em Pedro II, na dimensão de menor índice pluviomêtrico da região, e por isso a sua profissão é muito valorizada por todos da comunidade, assim porquê as suas profecias certeiras indicando a chegada das chuvas.

Na comunidade Palmeira dos Ferreira, em Pedro II, a cisterna compartilha o quintal com as etapas da farinhada coletiva. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

No mesmo quintal onde acompanhamos o processamento da mandioca na primeira secção desta série de reportagem, labareda a atenção um símbolo da revolução tecnológica no sertão: as cisternas são uma presença marcante, coletando e armazenando a chuva da chuva em meio as atividades do dia a dia. As cisternas de telhado, ou cisternas telhadão, recebem as águas da chuva já filtradas e abastecem as famílias para uso pessoal ao longo do ano, com capacidade de armazenamento de 16 milénio litros. Há também a captação da chuva diretamente no soalho, as cisternas calçadão, que utilizam uma dimensão cimentada no solo para direcionar as chuvas para o sistema de coleta, armazenando 52 milénio litros de chuva destinada aos pequenos animais e plantações. As cisternas também estão presentes em algumas escolas, onde a chuva é utilizada no preparo da merenda escolar e nos sanitários. 

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Núcleo de Formação Mandacaru (CFM) participa de diversos programas de financiamento para construção dessa tecnologia social, porquê o Fundo Ecos, gerido pelo Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN). Com 35 anos de experiência de atuação, o CFM desenvolveu uma metodologia de trabalho que procura envolver toda a comunidade antes mesmo da construção de cada cisterna, com a realização de cursos de gerenciamento de recursos hídricos, e motivando as famílias a trabalhar coletivamente na forma de mutirões. O resultado são quase 14 milénio cisternas construídas em seis dos doze territórios do Piauí, envolvendo mais de 20 municípios.

O comporta da Comunidade Lagoa do Mato, em Milton Brandão, atende as famílias do assentamento e é desobstruído ao público porquê pesque e pague. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

Outra forma de entrada à chuva são os açudes de uso coletivo, fruto de políticas públicas mais antigas. No Assentamento Lagoa do Mato, em Milton Brandão, quando a comunidade se uniu para comprar o terreno já havia dois açudes, e a estratégia foi produzir um projeto de reforma da estrutura da sede da associação comunitária, para organizar pescarias no formato de pesque e pague, gerando renda para a comunidade, além de fornecer peixe para as 26 famílias assentadas. O projeto financiado em secção pelo Fundo Ecos, foi implementado por meio da parceria entre o ISPN, o CFM e o Núcleo Regional de Assessoria e Capacitação (CERAC), o que permitiu também reformar a Mansão de Semente Mana Celina. O espaço preserva um banco de sementes crioulas selecionadas, utilizadas para o plantio no início do período pluvioso e para realizar trocas com outros agricultores. Variedades porquê “sempre verdejante”, “baje”, “tocha”, “pingo de ouro” e “olho de ovelha” garantem o patrimônio genético cultivado pela comunidade há vários anos. O nome do lugar homenageia a missionária que plantou muitas sementes simbólicas na região. Mana Celina é reconhecida por sua incansável dedicação às causas sociais, sempre buscando levar cidadania e vida digna por meio da orientação e formação profissional. Foi ela quem negociou a compra do terreno e estimulou seus jovens alunos da Instalação Santa Ângela a criarem o assentamento, repetindo a experiência de outros assentamentos na região.

A plantação de feijoeiro é irrigada diretamente pelo comporta de uso comunitário. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

A paisagem do Cumeeira Rio Poti, por estar localizada no encontro dos biomas Caatinga, Entupido e a Mata Atlântica de altitude, possui grande variação no volume das chuvas mesmo entre comunidades próximas. Quando estivemos na região, vimos o Sr. Luis Gonzaga de Sousa pescar no comporta com a rede de arrasto, mas esse ano choveu muito pouco nessa dimensão e, porquê dizem na linguagem da Caatinga, o comporta principal não “sangrou”, ou seja, ele não encheu o suficiente para transbordar, e porquê ele está conectado ao outro comporta, as águas dos dois ficaram muito baixas, e a pescaria só será permitida com vara de pescar. As famílias da comunidade também não poderão usar a chuva para consumo próprio e precisarão recorrer ao poço artesiano, que foi perfurado logo que elas se instalaram nessas terras.

A boa notícia é que o solo ao volta do comporta principal se manteve úmido o suficiente para sustentar a superabundante plantação de feijoeiro diante da Serra das Andorinhas, a mesma prisão de montanhas onde encontramos as pinturas rupestres e as grutas de pedras, que podem ser acessadas por trilhas ecológicas imersivas, secção de outro projeto lugar em torno do turismo de base comunitária.

As sementes armazenadas em garrafas PET podem insistir anos e garantem a soberania fomentar no semiárido. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

E assim, os quintais do sertão da exuberância não guardam exclusivamente chuva das chuvas, eles resgatam os saberes tradicionais de preservação das sementes, aliados aos conhecimentos da agroecologia. Ali, a tecnologia social se faz presente no manejo ecológico de uma grande biodiversidade, da convívio de pequenos animais com canteiros de hortaliças, vegetais medicinais e árvores frutíferas. As plantações baseadas em Sistemas Agroflorestais Agroecológicos (SAFs) simulam a dinâmica de florestas, com o consórcio inteligente de cultivos agrícolas porquê milho, feijoeiro e mandioca, interagindo positivamente com espécies locais, garantindo abrigo para a fauna polinizadora e colheitas contínuas ao longo do ano. 

Focado na sustentabilidade ambiental, o sistema utiliza insumos da própria Caatinga, porquê a bagana de Carnaúba, um subproduto da folha da palmeira, usada para a cobertura do solo, provocando o aumento da material orgânica e resultando em menor premência de fertilizantes e controle da erosão. Dessa forma, os quintais se tornaram espaços de segurança fomentar, atendendo tanto a subsistência porquê a diversificação da renda familiar, o que gera autonomia econômica, restauração do solo e subida resiliência climática.

Mesmo com alguns filhos do Sr. José Portela morando na cidade grande, o êxodo rústico pode estar perdendo força entre as gerações mais novas. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

Na parede da sala de sua moradia na Comunidade Salobro, em Pedro II, José Portela de Sousa aponta para a foto dos filhos que partiram para a cidade grande. Ele próprio já foi embora um dia, viveu anos sozinho em São Paulo e enviava numerário para sustentar a família, porquê tantos casos no sertão. Mas ele voltou. Hoje, ao lado do rebento mais novo, Romério, cultiva um quintal agroecológico que não exclusivamente alimenta, mas também gera renda e honra para a família. Juntos, eles criaram uma utensílio artesanal de canudo PVC e tecido macio para polinizar as flores do maracujá e chegaram a contabilizar mais de quinhentos pés plantados, colaborando com o trabalho dos besouros polinizadores endêmicos da Caatinga. O excedente da produção é vendido para o Programa Pátrio de Sustento Escolar (PNAE), garantindo refeições saudáveis aos alunos da rede pública, e também atende a feira semanal na cidade de Pedro II. Os quintais agroecológicos, nesse sertão que se reinventa, mostram que a terreno ainda pode segurar quem nela vegetal raízes afetivas, culturais e produtivas. 

“Eu paladar de morar na minha cidade mesmo, com a minha cultura familiar. É muito bom trabalhar no meu ramo, mexer com a terreno é muito bom.” Salienta o jovem Romério ao ser perguntado se pensa em morar qualquer dia nas grandes capitais.

Ao amanhecer, os agricultores se preparam para mais um dia de feira agroecológica no bairro Mutirão, em Pedro II. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

O mesmo clima de cooperação e trabalho coletivo presente nas atividades do campo se estende ao momento de oferecer os produtos da cultura familiar para o público. A Feira Agroecológica dos Saberes e Sabores está prestes a completar sete anos na Rossio do Mutirão, em Pedro II. O espaço semanal nasceu para dar vazão à produção dos quintais agroecológicos e promover a venda direta das famílias para o consumidor durante o ano todo, a partir do sucesso da Feira da Saturação, um evento anual na Semana Santa que celebra a rica colheita de legumes entre março e abril, e que se tornou uma tradição no calendário da cidade. Mesmo com o insensível da manhã típico da região serrana, o Sr. Gonzaga e Dona Ana Lúcia, que vimos na farinhada, estão lá toda terça-feira com frutas, verduras e o beiju com coco que conquistou a clientela, enquanto o jovem Romério traz penosa caipira, ovos, hortaliças, melancia e macaxeira. Organizada pelo Núcleo de Formação Mandacaru e com o suporte do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Rádio Matões FM, a feira escoa a produção dos agricultores de várias comunidades e abastece as mesas de quem procura comida saudável e de origem orgânica confiável.

No último incidente da série vamos saber outras formas de atuação das comunidades que garantem a permanência dos jovens no campo, porquê o projeto de “recaatingamento” de áreas devastadas e o artesanato tradicional feito com a palha da carnaúba. O saudação à tradição dos profetas da chuva também conecta a juventude com os ciclos da natureza, em meio aos festejos que celebram as colheitas no final da estação chuvosa.

O jovem cultor Romério Ferreira de Sousa participa da feira agroecológica, fornece comida para a merenda escolar e fortalece a atuação dos jovens no sertão do Piauí. Foto: Paula Cinquetti/ Montão ISPN

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