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Porquê uma árvore da estação colonial se tornou esperança para um papagaio ameaçado

Porquê uma árvore da estação colonial se tornou esperança para um papagaio ameaçado

Ainda me lembro da primeira vez em que ouvi falar do Guanandi. Era por volta de 2009 ou 2010, quando eu ainda cursava os primeiros períodos de Engenharia Florestal na UFRRJ (Universidade Federalista Rústico do Rio de Janeiro). Na estação, uma reportagem que li, com tom bastante sensacionalista, apresentava a espécie porquê a “primeira madeira de lei do Brasil”. A asseveração imediatamente me pareceu estranha.

Resolvi pesquisar e descobri que, porquê suspeitava, não existia uma “primeira” madeira de lei. O que havia era um conjunto de espécies incluídas em uma legislação imperial de 7 de janeiro de 1835, que passou a exigir autorização da Grinalda para sua exploração e exportação, devido ao saliente valor econômico e estratégico dessas árvores.

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Mesmo diante das restrições legais da estação, o Guanandi continuou sendo níveo de exploração seletiva em diferentes regiões do país, principalmente, para uso naval e construção de mastros. A pressão foi tão intensa que a espécie acabou entrando na lista de ameaçadas em diversos estados brasileiros.

Anos depois, tive a oportunidade de ver um réplica adulto pela primeira vez, na Ilhéu de Marambaia, no Rio de Janeiro. Foi ali que compreendi, de roupa, a imponência daquela árvore em seu envolvente proveniente.

Uma árvore com a dimensão do Brasil

O próprio nome científico da espécie já revela sua potente relação com o território brasílico: Calophyllum brasiliense.

O Guanandi possui ampla distribuição geográfica e está presente em praticamente todos os biomas brasileiros, com exceção do Pampa e do Pantanal. Há registros da espécie em 19 estados do país.

Sua capacidade de adaptação impressiona. Ele consegue se desenvolver em condições onde muitas outras espécies encontram dificuldades, ocupando desde áreas pedregosas e com baixa disponibilidade hídrica até regiões alagadas e ambientes potencialmente salinos próximos aos manguezais.

Sua estratégia de dissipação também labareda atenção. As sementes são capazes de flutuar no Oceano Atlântico sem perder viabilidade, o que permitiu registros da espécie inclusive em regiões do continente africano.

O reencontro na Grande Suplente Mata Atlântica

Pouco mais de uma dezena depois daquele primeiro contato, a espécie voltou a cruzar meu caminho por meio do projeto Entre Mangues e Caranguejos, executado pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Ensino Ambiental com financiamento do Banco Pátrio de Desenvolvimento Econômico e Social e da Petrobras, por meio da iniciativa Floresta Viva, com gestão do FUNBIO.

Desta vez, o cenário era a Grande Suplente Mata Atlântica, território de aproximadamente 2,7 milhões de hectares que se estende do sul de São Paulo ao setentrião de Santa Catarina e forma o maior contínuo muito conservado de Mata Atlântica do país.

Na região, coordeno ações de restauração ecológica em microbacias hidrográficas que deságuam nos manguezais da Estação Ecológica de Guaraqueçaba. E é nesse território que vive uma das aves mais raras do Brasil: o papagaio-de-cara-roxa.

Uma das histórias de conservação mais inspiradoras do país

O papagaio-de-cara-roxa protagoniza uma das mais emblemáticas histórias de recuperação de fauna da Mata Atlântica.

Liderado pela bióloga Elenise Sipinski, profissional com quem tenho o privilégio de trabalhar na SPVS, o projeto de conservação da espécie desenvolveu um longo trabalho junto às comunidades locais e tornou-se pioneiro na utilização de caixas-ninho artificiais, simulando os ocos naturais usados pela ave para reprodução.

A iniciativa surgiu justamente para suprir a escassez de árvores maduras capazes de oferecer cavidades adequadas para nidificação.

Posteriormente anos de trabalho contínuo, o projeto alcançou um resultado histórico: a melhora do status de conservação da espécie, que deixou a categoria “Em Transe” e passou para “Vulnerável”.

Ao contrário do Guanandi, do qual nome científico faz referência à ampla distribuição territorial, o papagaio-de-cara-roxa possui ocorrência extremamente restrita. A espécie vive unicamente em uma estreita filete do litoral setentrião do Paraná e sul de São Paulo, tendo na Baía de Paranaguá um de seus principais refúgios.

Uma relação construída ao longo do tempo

O Guanandi e o Papagaio-de-cara-roxa mantêm uma relação ecológica profunda. A árvore é uma das espécies mais importantes tanto para a sustento quanto para a reprodução da ave. É nos ocos naturais formados nas partes mais altas da despensa, geralmente supra de 15 metros de fundura, que o papagaio encontra condições adequadas para depositar seus ovos e proteger os filhotes nos primeiros meses de vida.

Essas cavidades, no entanto, levam décadas para se formar. São necessárias árvores antigas, robustas e inseridas em florestas maduras, capazes de sustentar os processos naturais que tornam verosímil esse ciclo.

No projeto que desenvolvemos atualmente, realizamos o enriquecimento de áreas em regeneração, muitas delas antigas pastagens utilizadas para geração de búfalos. Também atuamos na recuperação de áreas alagáveis ainda ocupadas pelo capim-braquiária, espécie exótica invasora que permanece no território mesmo posteriormente mais de duas décadas do orfandade da atividade de bubalinocultura.

Nesse contexto, o guanandi tornou-se uma espécie-chave. Não unicamente por sua resistência e propagação relativamente rápido, mas pelo papel estratégico que desempenha na construção de um porvir mais seguro para o papagaio-de-cara-roxa.

O espetáculo quotidiano das ilhas

Os papagaios possuem uma dinâmica fascinante associada às ilhas da região, principalmente à Ilhéu Rasa.

Logo nas primeiras horas do dia, os indivíduos deixam as ilhas em direção ao continente em procura de maná. No término da tarde, retornam em pares, cruzando o firmamento em grandes bandos barulhentos.

É um dos espetáculos mais impressionantes da Grande Suplente Mata Atlântica. Centenas de casais em voo simultâneo, repetindo diariamente um ciclo ascendente que acompanha o movimento da Terreno em torno do Sol.

Um novo “status real”

O Guanandi, que durante séculos foi valorizado por seu interesse econômico e explorado intensamente pela Grinalda portuguesa, ganha agora um novo significado.

Na Suplente Proveniente Papagaio-de-Faceta-Roxa da SPVS, a espécie conquista novamente um “status real”. Não mais associado à exploração madeireira ou a decretos imperiais, mas ao seu papel necessário na regeneração da biodiversidade e na construção de porvir para uma das aves mais raras da Mata Atlântica. E isso é lindo de ver!

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))repercussão. Buscamos nestes espaços prometer um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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