Os corredores ecológicos que dão esperança à onça-pintada no Tapado
Mambaí é um município localizado no nordeste do estado de Goiás, na região conhecida porquê Vão do Paranã. Trata-se de um território de 858 milénio km² e uma população de aproximadamente 8 milénio pessoas, que abriga o maior contínuo de vegetação nativa de Tapado preservada de todo o estado. Por lá, se qualquer pessoa se referir à “mulher das onças” certamente estará falando de Samantha Rincón, ecóloga colombiana e coordenadora-geral do projeto “Onde a onça bebe chuva”, realizado pela Funatura. Ela e sua pequena equipe (atualmente são 3 pessoas fixas e mais 5 consultores) tem uma missão gigante pela frente: preencher a vazio de informações e traçar rotas reais de sobrevivência para a onça-pintada (Panthera onca) neste pedaço de Tapado.
Historicamente associada às densas matas da Amazônia ou às planícies alagáveis do Pantanal, a espécie trava no bioma uma guerra invisível contra o isolamento populacional, a conversão acelerada do solo em lavouras e a crônica escassez de dados científicos.
“A superfície do nosso projeto contempla três grandes núcleos e foi pensada para mapear a conectividade entre o Parque Vernáculo de Brasília [DF], o Parque Vernáculo da Chapada dos Veadeiros [GO] e o Parque Vernáculo Grande Sertão Veredas [MG]”, explica Samantha ao falar sobre o galeria ecológico modelado com geoprocessamento no início do projeto.

A pesquisadora conta que a existência da onça-pintada nessas áreas era conhecida, porém havia muitas lacunas de dados, principalmente que ajudem a compreender porquê acontece a movimentação do felino entre as unidades de conservação. “Quais são esses corredores ecológicos que ainda estão sendo utilizados por eles?”, questiona.
O projeto coloca em prática o monitoramento científico com utilização de armadilhas fotográficas e rastreamento de sinais naturais de fauna (porquê pegadas, fezes, pêlos, arranhões em árvores e outras marcas deixadas pelos felinos). Em 2025, primeiro ano de monitoramento, foram instaladas 76 armadilhas fotográficas, distribuídas em pontos estratégicos do galeria ecológico modelado. Os resultados preliminares são animadores: 25 localidades com registro da espécie, 52 registros em câmeras-trap e 17 registros por rastreamento. Embora a metodologia do projeto não permita prezar a quantidade de indivíduos ou levantar dados populacionais, foi verosímil identificar o mesmo quidam fazendo uso de localidades diferentes nos registros.
Espécie guarda-chuva
Estima-se que a onça-pintada já tenha perdido quase 50% de sua superfície de distribuição original nas Américas, que vai do sul dos Estados Unidos até a Argentina. Embora permaneça categorizada globalmente porquê “Quase Ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a espécie está em situação muito mais delicada nos biomas porquê Mata Atlântica, Caatinga e Tapado.

No Tapado, segundo maior bioma da América do Sul e o mais pressionado pelo progresso do agronegócio, as populações do felino encontram-se profundamente fragmentadas e ilhadas.
A consultora ambiental Lauana Costa Nogueira, ex-servidora do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Mambaí, destaca a singularidade ecológica da região do Vão do Paranã. “É uma paisagem riquíssima que conecta formações florestais de matas secas sobre afloramentos calcários, cavernas e solos arenosos de veredas. Rios porquê o rio Vermelho e o rio Fluente oferecem exatamente o que a onça precisa para sobreviver: graduação espacial, chuva em exuberância e presas naturais”, descreve.
Lauana enfatiza que a presença do predador de topo de prisão é indispensável para a manutenção do estabilidade biológico lugar, funcionando porquê uma espécie guarda-chuva. “Sem a onça para regular a população de herbívoros, espécies porquê capivaras, catetos, queixadas e o exótico javaporco se multiplicam sem controle, causando prejuízos imensos às próprias lavouras agrícolas da região. A conservação da onça é, na verdade, a garantia de que o ecossistema continue funcionando em estabilidade”, resume.
“Não dá pra guardar sem as comunidades”
Arnaldo Vieira da Costa, de 46 anos, é colono familiar e morador do Assentamento Vale da Esperança, no município de Formosa (GO), distante aproximadamente 100 km de Brasília. Seu lote de 22 hectares foi conquistado depois de dois anos acampado na região e a posse solene da parcela aconteceu em 1998. Arnaldo engajou-se ativamente no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terreno), fez formação na Escola Vernáculo Florestan Fernandes, atuou na “frente de volume” organizando acampamentos e militou até o falecimento de seu pai, em 2011, quando assumiu a propriedade. “Dentro do movimento a gente discutia muito essa questão da agroecologia. A gente tinha vontade de ter, mas não surgia uma oportunidade, [então] não botamos em prática cá. E aí veio a teoria [desse projeto] e aceitamos”.
O projeto ao qual Arnaldo se refere é um dos componentes do “Onde a onça bebe chuva”, que implementou 46 Sistemas Agroflorestais (SAFs) em propriedades de reforma agrária distribuídas pelos municípios de abrangência do projeto. Ao chegar com o SAF e gerar um favor concreto para os moradores, o projeto estabelece uma relação de crédito, além de prometer soberania fomentar. “O colono passa a enxergar que a conservação da fauna e do felino traz melhorias para o seu próprio território”, afirma Samantha.


O sistema agroflorestal da propriedade de Arnaldo foi implementado há 1 ano e o colono batizou-o de SAF Joaquim Pindoba em homenagem a seu pai. São mais de 40 espécies, dispostas em linhas que intercalam árvores frutíferas e florestais porquê moca, jabuticaba, laranja, pocã, ipê, canela, coco-da-bahia, mamão, banana, mandioca, inhame, batata-doce, feijão-andu, cana e milho. A produção garantiu a soberania fomentar da família e foi além: “pros vizinhos a gente doou, né? Jerimu, melancia, várias coisas. E vendemos também pro PAA [Programa de Aquisição de Alimentos]. Nós vendemos jerimum e batata guloseima”, conta o colono.

O projeto calcula que dos 46 SAFs implantados, 37 já tiveram suas colheitas utilizadas para o consumo e provisão da própria família e entre 3 e 6 conseguiram comercializar secção dos seus excedentes e gerar renda. Mas um problema está fora do controle de pesquisadores e agricultores: a chuva.
Se a experiência de Arnaldo mostra a viabilidade do padrão agroflorestal, o testemunho de Joana D’arc Inácio Severino da Conceição, de 43 anos, expõe os efeitos da emergência climática e da degradação ambiental.
Moradora do Projeto de Assentamento Riachão há 33 anos, Joana lembra dos tempos em que o Rio Riachão, que corta as terras de sua família e dá nome ao assentamento, era um curso d’chuva volumoso e perene, repleto de animais e onde as crianças tomavam banho ao lado de jacarés, emas e antas. Nas últimas duas décadas, o progresso descontrolado do agronegócio de monocultura no entorno drenou as nascentes e desmatou a vegetação protetora. “De vinte anos para cá, fomos vendo a chuva ir embora. Oriente ano foi o pior de todos: o Riachão está há seis meses completamente sedento. Estamos sobrevivendo à base de caminhão-pipa”, desabafa Joana.


Esse testemunho é reforçado pelos dados. Um levantamento da iniciativa DoClima, que reúne informações de oito bases de dados, aponta que o município de Sítio D’Catedral, onde reside Joana, tem apresentado índices de chuva inferior da série histórica. Em 2025, por exemplo, choveu 977 mm, 41% inferior da média e esse mesmo levantamento aponta “segurança fomentar” porquê o segundo maior risco climatológico mais crítico na região. O mesmo cenário se repete em outros municípios da região.
Apesar de todas as adversidades, Joana permanece convicta da eficiência da agrofloresta. “O SAF já deu patente, nós só precisamos de chuva. Colhemos melancia, jerimum, mandioca e feijão-de-porco para condimentar a terreno. Quando a chuva chegar, a terreno refresca e tudo vai decorrer de novo. Nós não queremos ir embora da nossa terreno, precisamos produzir cá”, afirma a agricultora.
“Será que a câmera ainda está lá?”
A reportagem de ((o))repercussão acompanhou a pesquisadora do projeto no recolhimento de uma das câmeras utilizadas para o monitoramento de fauna, dentro da propriedade de Fernando da Costa Prado, no município Sítio d’Catedral (GO), que também é um dos beneficiários do SAF. Em seguida uma marcha de aproximadamente quarenta minutos por dentro do leito de um riacho sedento, nos embrenhando entre galhos e espinhos, alcançamos o lugar estratégico onde a câmera havia sido instalada dois meses antes.

A pergunta que pairava no ar era: “será que a câmera ainda está lá?”. Isso porque tem sido recorrente o desaparecimento dos equipamentos instalados. No ano pretérito, sete das 76 câmeras do projeto sumiram. A principal tese é que caçadores as encontram e, com pavor de serem identificados, furtaram o equipamento para expelir as provas. O prejuízo para o projeto vai além do orçamentário (cada câmera custa em torno de R$ 2.500,00), pois perdem-se os dados coletados por tanto tempo. “Cada rapinagem significa a perda de 2 a 3 meses de registros contínuos sobre a movimentação dos animais e das onças”, afirma Samantha.
Na propriedade visitada não tivemos problemas: a câmera estava lá, com mais de 500 registros. Retornamos para a morada de Fernando já no anoitecer, ansiosos para revisar as fotos e vídeos coletadas. “Fundamentado nos encontros que eu já tive, deve ter registro de [tamanduá] bandeira, tatu, raposa que é sempre avistada por cá, mas principalmente a onça [pintada], né?”, comentou Fernando, ansioso enquanto as imagens eram baixadas para o computador. “Apesar de alguns relatos, acho que seria a prova definitiva que toda a comunidade gostaria de ver em imagem”.
Ao revisarmos as imagens, ficou simples que a fauna lugar é muito diversa e numeroso. Mão-pelada, jacú, veado-campeiro, tamanduá-bandeira, jaguatirica e até uma família de onça-parda passou em frente à câmera entre 20 de junho e 30 de setembro de 2026. Mas infelizmente, nenhum registro da onça-pintada dessa vez.
No dia seguinte, seguimos para outra propriedade em Damianópolis (GO), do par Marinalva Barreto dos Santos e Damião Veloso de Souza. Mais uma marcha de 30 minutos até as margens do Rio Vermelho, com paragem na ingressão de duas cavernas em procura de pegadas e outros vestígios de felinos, e chegamos ao lugar onde foi instalada a cilada fotográfica. Dessa vez, as piores expectativas se confirmaram: a câmera não estava lá. Ficou a frustração dos pesquisadores e da família. Numa última tentativa, o par de moradores gravou um testemunho em vídeo para espalhar nos grupos de whatsapp da região, solicitando a reembolso da câmera e interesse exclusivamente nos dados (fotos e vídeos) da fauna. Até o momento, não obtiveram sucesso.
Esse é só mais um dos desafios encontrados pela pesquisadora do projeto. Outro ponto frágil é obter as permissões para a instalação das armadilhas fotográficas em propriedades privadas situadas nas rotas dos corredores ecológicos. Em campo, a equipe deparou-se com potente suspeição e preconceito ideológico contra ONGs e movimentos ambientais por secção de alguns proprietários.
Em um dos episódios mais graves, ao buscar autorização para instalar câmeras em uma superfície privada próxima a um assentamento, os pesquisadores ouviram de um quinteiro que ele “preferia tratar com traficantes a tratar com ambientalistas”. Em outro caso, proprietários de um empreendimento de ecoturismo expulsaram abruptamente os pesquisadores mal souberam que se tratava de uma organização não governamental. Houve ainda situações em que equipes devidamente identificadas, uniformizadas e em veículos adesivados foram ameaçadas e recebidas com truculência ao entrar nas sedes de fazendas. “A parceria com o proprietário privado é fundamental e somos muito muito recebidos na maioria das fazendas, agradecemos muito a crédito e receptividade por secção deles, mas há sim alguns casos de negativa”, pondera Samantha.
Corrida contra o tempo
Apesar do cenário reptante, os resultados do projeto começam a riscar um planta inédito de esperança para a onça-pintada do Tapado. A consolidação dos dados coletados subsidiará a publicação de artigos científicos, o refinamento das rotas de conectividade e a teorema de ferramentas formais de ordenamento territorial, porquê o incentivo à geração de Reservas Particulares do Patrimônio Proveniente (RPPN) e mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
“Preservar a onça-pintada é prometer a qualidade da chuva e a vida de todo o ecossistema”, conclui Samantha Rincón. “Trabalhamos todos os dias sob o impacto da crise climática para que, daqui a dez ou vinte anos, as futuras gerações não conheçam a onça-pintada exclusivamente nos livros de história, mas saibam que ela continua solta, caminhando e bebendo chuva nos rios do Tapado”, completa.
Oriente teor faz secção do projeto Tapado em Tarifa, com suporte do CEPF Tapado
O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Dependência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Instalação Franklinia, da Instalação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Envolvente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão, da Instalação Hempel, The Nature Conservancy e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é prometer que a sociedade social esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.
O Instituto Internacional de Ensino do Brasil (IEB) atua porquê a Equipe de Implementação Regional do CEPF. A missão do IEB é fortalecer os atores sociais e o seu protagonismo na construção de uma sociedade justa e sustentável, por meio de formação de pessoas, fortalecimento e fala de instituições e grupos comunitários, e geração e disseminação de conhecimentos