o que os condomínios ainda precisam aprender sobre saúde mental do trabalhador
Por muito tempo, falar em segurança do trabalho dentro dos condomínios dizia saudação a observar riscos visíveis: produtos químicos de limpeza, fragor de máquinas e uso de equipamentos de proteção. Todavia, quem vive a rotina sabe que existe um outro lado menos visível, mas também presente.
É o porteiro que pede destituição depois de sucessivas abordagens desrespeitosas dos moradores, o zelador que desanima com cobranças constantes, a funcionária que começa a se sentir esgotada diante de ordens desencontradas e pressão diária.
Situações porquê essas, tão comuns na rotina condominial, nem sempre foram tratadas porquê um problema de saúde. Mas, agora, isso começa a mudar.
Com a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), a saúde mental entra de vez na taxa dos condomínios. Agora, a norma passa a exigir que os chamados riscos psicossociais (porquê pressão, conflitos e sobrecarga) sejam mapeados dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A partir de maio de 2026, isso deixa de ser uma recomendação e passa a ser exigência lítico.
“A teoria de que segurança do trabalho se resume a riscos físicos ficou para trás. Hoje se entende que o envolvente de trabalho envolve também fatores emocionais e organizacionais”, explica a advogada Francislaine Dário, rabi em Recta do Trabalho.
Na prática, isso significa ampliar o olhar. Não basta mais evitar acidentes: é preciso observar porquê o trabalho está organizado, porquê as pessoas se relacionam e quais situações podem gerar desgaste emocional. Pressão por resultados, acúmulo de tarefas, conflitos frequentes, falta de reconhecimento e assédio: tudo isso passa a ser considerado risco ocupacional.
“O prolongamento significativo dos afastamentos por doença psíquica evidencia porquê as condições e dinâmicas de trabalho têm impactado diretamente os trabalhadores. Isso não está passando despercebido pela legislação. E as atualizações da NR-1 são um exemplo disso”, explica a psicóloga Marilaine Bittencourt.

Segundo ela, muitos ambientes profissionais ainda são marcados por sobrecarga, cobrança ordenado e pouca valorização, fatores que favorecem o adoecimento. Nos condomínios, esse cenário se intensifica ainda mais por serem espaços em que os profissionais lidam diariamente com demandas múltiplas, de muitas pessoas diferentes – muitas vezes acompanhada de cobrança e pressão.
Na prática, as novidades na norma regulamentadora podem ser um repto para os condomínios, onde a preocupação maior sempre esteve relacionada às questões operacionais, financeiras ou estruturais do condomínio. “A saúde mental dos colaboradores ainda não recebe a atenção que deveria, embora venha ganhando espaço nas discussões mais recentes”, avalia a administradora Fabiane Horst Bocardi.
Um problema cotidiano, mas invisível
Embora muitos condomínios sejam vistos porquê ambientes tranquilos, a rotina dos funcionários revela uma verdade muito dissemelhante. Porteiros, zeladores e equipes de limpeza lidam diariamente com demandas diversas com a relação direta com múltiplos interlocutores – os moradores e os próprios gestores.
Nem sempre essa relação é equilibrada. Na prática, muitos trabalhadores acabam expostos a cobranças diretas, orientações contraditórias e situações de desgaste que fogem da gestão formal do condomínio. O resultado é uma dinâmica confusa, em que a jerarquia se perde. “Muitos colaboradores relatam sentir que têm vários patrões ao mesmo tempo, pois diferentes pessoas tentam dar ordens ou cobrar tarefas”, observa Fabiane.
Segundo ela, é geral que condôminos acreditem que, por contribuírem com a taxa condominial, podem dar ordens diretamente aos funcionários. Para evitar esse tipo de situação, a orientação tem sido reforçada em assembleias e comunicados internos: qualquer demanda deve ser direcionada ao síndico, não à equipe. Sem esse alinhamento, o que deveria ser uma relação de convívio se transforma em um envolvente de pressão ordenado e difícil de sustentar no longo prazo.
Em outros casos, a pressão aparece de forma mais silenciosa, mas também prejudicial: moradores que monitoram funcionários por câmeras e protagonizam episódios de desrespeito direto, com gritos, ofensas ou cobranças agressivas.
Mas o desgaste não vem somente da relação com os moradores. Em alguns condomínios, o próprio envolvente de trabalho também contribui para esse cenário.
A administradora de condomínios Fabiane conta que já encontrou desde mobiliário inadequado até situações em que o profissional se sentia inseguro no sítio. Em um deles, um porteiro chegou a redigir uma epístola ao síndico relatando o pavor ordenado de trabalhar na guarita, que era localizada em uma curva da rua, e ele se preocupava muito com a possibilidade de um caminhão perder o controle e atingir o espaço. “Em alguns condomínios, a portaria ainda é vista somente porquê um espaço físico, e não porquê um posto de trabalho que precisa oferecer condições adequadas”, explica a administradora.

Esse conjunto de fatores não é somente um desconforto. Ele também pode adoecer. E quando os sinais não são reconhecidos ou acolhidos pela gestão, o problema se intensifica. “O trabalhador passa a sentir que está sozinho. E quando o problema chega ao síndico já é tarde demais. Já vimos situações em que o desgaste foi tão grande que o profissional decidiu não retornar ao condomínio”, relata Fabiane.
Um novo papel para o síndico
Diante desse novo cenário, o papel do síndico se transforma. Mais do que cuidar da secção financeira e operacional do condomínio, ele assume uma função cada vez mais mediano na gestão das pessoas e das relações no envolvente de trabalho.
Com a exigência de mapear e prevenir riscos psicossociais, essa atuação deixa de ser somente administrativa e passa a ser também preventiva. Isso significa escoltar de perto a rotina da equipe, organizar jornadas de forma equilibrada, respeitar períodos de folga e evitar sobrecargas ou escalas excessivamente desgastantes.
“A efetividade do programa depende da atuação cotidiana da gestão do condomínio. Não basta ter o PGR no papel. É preciso prometer que as medidas previstas sejam aplicadas no dia a dia”, explica a advogada Francislaine.

Na prática, isso também envolve observar o envolvente de trabalho de forma mais atenta. Conflitos recorrentes, reclamações frequentes, pressão excessiva por secção de moradores ou situações de desrespeito não podem ser ignorados. Ao identificar esses sinais, o síndico deve agir prontamente, registrando os fatos, dialogando com os envolvidos e adotando medidas corretivas.
Outro ponto de atenção é a relação com os moradores. Embora não sejam empregadores diretos, o comportamento dos condôminos impacta diretamente o envolvente de trabalho e pode gerar responsabilização para o condomínio. Se houver episódios recorrentes de desrespeito, cobranças abusivas ou tratamento inadequado, e a gestão não agir para coibir essas condutas, pode ter responsabilização por preterição.
Por isso, estabelecer regras claras de convívio se torna principal. Uma das medidas recomendadas é formalizar códigos de conduta e substanciar o regimento interno, definindo limites nas relações, padrões de saudação e canais para registro de ocorrências.
Ignorar pode custar custoso
Com a atualização da NR-1, ignorar situações deixa de ser somente uma lacuna de gestão e passa a ser um risco jurídico.
O condomínio, porquê empregador, tem o obrigação de prometer um envolvente de trabalho seguro, inclusive do ponto de vista emocional. “Se a gestão não adotar medidas para coibir situações de desrespeito, pode ter responsabilização por preterição”, alerta a advogada.
Na prática, o descumprimento da NR-1 pode gerar autuações e multas aplicadas por órgãos fiscalizadores, porquê o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho. Outrossim, a situação também pode tarar contra o condomínio em ações judiciais, principalmente se houver casos de afastamentos por transtornos mentais ou alegado de envolvente de trabalho inadequado.
Outro ponto de atenção é o PGR. Não basta ter o documento: ele precisa ser aplicado na rotina. Em muitas fiscalizações, os auditores não analisam só o que está no papel. Eles também costumam conversar diretamente com os funcionários para verificar se as medidas são realmente cumpridas no dia a dia.