Condomínios focam gestão preventiva contra impactos do El Niño
Em uma noite de chuva intensa em 2022, moradores de um condomínio em Itajaí foram surpreendidos pela chuva invadindo o recinto e o estacionamento.

O nível subiu rápido demais para qualquer reação: mais de 100 veículos foram atingidos, gerando prejuízos, acionamento de seguros e uma grande mobilização. O incidente marcou uma viradela na rotina daquele condomínio e mudou para sempre a maneira uma vez que a gestão passou a encarar eventos climáticos extremos.
O caso, no entanto, está longe de ser só. Ele é lembrado uma vez que um divisor de águas na gestão de condomínios em um estado onde eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção para se tornar secção do planejamento permanente.
Com a confirmação do El Niño e a previsão de chuvas supra da média para os próximos meses, o alerta nos condomínios catarinenses foca a velocidade dos eventos climáticos. Para síndicos e administradores, o alerta não está exclusivamente no volume de chuva, mas na velocidade com que ela chega. Em poucas horas, sistemas de drenagem podem saturar, gerando infiltrações, alagamentos e falhas em equipamentos essenciais ao funcionamento dos edifícios.
Essa vulnerabilidade tem explicação geográfica, já que o estado fica em uma zona de transição entre os climas tropical e subtropical, o que gera um embate manente entre diferentes massas de ar e instabilidades frequentes.
“Ao contrário de outras regiões do Brasil, que têm desastres característicos e sazonais, cá temos praticamente todos os tipos de eventos extremos em todos os meses do ano”, explica o coronel Fabiano de Souza, secretário da Proteção e Resguardo Social do Estado, que define a região uma vez que um galeria proveniente para esses fenômenos. Diante da previsão de intensificação do fenômeno nos próximos meses, o governo estadual adotou um conjunto de medidas preventivas inéditas, estabelecendo critérios objetivos para legislar situações de emergência e atribuindo obrigações diretas às prefeituras catarinenses para mitigar os impactos.
No contexto condominial, a resposta tem sido substanciar a prevenção e antecipar vistorias, uma vez que aponta a síndica profissional Joice Honório, vice-presidente da Associação dos Síndicos do Estado (ASDESC). Segundo ela, as prioridades são a limpeza de calhas e ralos, revisão de bombas de recalque, inspeção de coberturas e telhados e checagem de equipamentos essenciais de vigor. “Embora isso represente um investimento suplementar, o dispêndio da prevenção é muito menor do que os prejuízos causados por eventos extremos”, diz Joice.
Na avaliação do síndico profissional Rodrigo Lüttke, a principal prelecção dos últimos anos é que a gestão condominial precisa ser cada vez mais preventiva e menos reativa. Ele reforça que a preparação não envolve exclusivamente a estrutura física, mas também a definição clara de responsabilidades para momentos de crise.
“Não existe gestão eficiente sem planejamento. Danos sempre vão subsistir, mas é provável reduzir os impactos com manutenção preventiva e organização”, afirma.
Prevenção precisa virar rotina
Se antes enchentes e temporais eram vistos uma vez que eventos pontuais e isolados, hoje o risco climatológico integra o planejamento dos condomínios. Segundo Rodrigo, esse movimento ampliou também o escopo de atuação dos síndicos, que passaram a olhar para além da conservação do prédio. Revisão de planos de contingência, estudo de coberturas de seguro e definição de protocolos para situações de emergência entraram de vez na agenda da gestão.

Para Joice, o novo contexto exige uma mudança de postura permanente: “O síndico moderno precisa atuar não exclusivamente na gestão do dia a dia, mas também na gestão de riscos, na prevenção e na preparação para situações emergenciais”.
Em seguida enfrentar o dilúvio de um condomínio em Itajaí, ela passou a adotar um conjunto de medidas preventivas que incluem monitoramento manente das previsões meteorológicas, inspeções antes de eventos severos, acionamento antecipado das equipes de manutenção e informação rápida com moradores e órgãos competentes.

“As situações que vivemos reforçaram a valimento da manutenção manente e da geração de protocolos de resposta rápida. Hoje trabalhamos com planejamento preventivo, monitoramento climatológico e ações antecipadas para reduzir riscos e proteger moradores e patrimônio”, afirma a vice-presidente da ASDESC.
A preparação para períodos de chuva intensa também passou a envolver medidas voltadas à orientação dos moradores. Para os meses de El Niño, Joice instalou avisos com telefones de emergência e QR codes em áreas de grande circulação, uma vez que os elevadores, para facilitar o chegada a pedidos de socorro caso os equipamentos parem de funcionar durante alagamentos ou quedas de vigor.
Para realizar esse séquito, os gestores contam com uma das estruturas de monitoramento climatológico mais avançadas do país. Santa Catarina se destaca nacionalmente por ser o único estado capaz de captar imagens meteorológicas diretamente de satélites — por meio do satélite GOES-19 —, sem subordinação de servidores externos ou internet. Coordenada pelo Núcleo Integrado de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cigerd), em Florianópolis, a rede possui quatro radares e 172 estações hidrológicas e meteorológicas. O sistema inclui uma página solene da Resguardo Social com informações, relatórios e orientações de prevenção voltadas ao El Niño, que serve de base para o planejamento dos condomínios.
Informação com moradores vira peça-chave em situações de crise
Em períodos de eventos climáticos extremos, a gestão condominial não depende exclusivamente de manutenção e estrutura física. A forma uma vez que a informação circula dentro do condomínio também passa a ser decisiva para evitar danos, orientar moradores e organizar respostas rápidas em situações de risco.
Em um cenário marcado pelo uso de aplicativos de mensagens e redes sociais, o repto dos síndicos é prometer que orientações corretas cheguem aos moradores com desembaraço, mas sem ruídos ou distorções.
“Um dos maiores desafios é mourejar com ruídos e fake news em grupos paralelos. Isso sempre acaba prejudicando”, pontua Rodrigo Lüttke.
Segundo ele, é fundamental que os moradores saibam previamente uma vez que agir em situações adversas, com informações centralizadas estritamente nos canais oficiais do condomínio.
Em alguns residenciais mais suscetíveis a alagamentos, a informação ganha uma estrato extra de proteção, com sistemas de alerta secundários, uma vez que sirenes acionadas quando há premência de retirar veículos das garagens subterrâneas ou excretar áreas de risco.
Em seguida enfrentar eventos severos nos últimos anos, Joice Honório criou o “SOS Chuvas”, um grupo de informação formado por membros da gestão e moradores voluntários para escoltar, em tempo real, as condições climáticas e o nível dos rios próximos aos empreendimentos.
“Essa rede colaborativa permite que a gestão tome decisões mais rápidas, antecipe alertas e prepare ações preventivas antes que uma situação de risco se agrave. E a proximidade com os moradores fortalece significativamente a capacidade de resposta em momentos de emergência”, diz a síndica profissional.
O risco oculto no “caminho da chuva”
Os riscos técnicos persistem mesmo depois a chuva decrescer. Infiltrações aparentemente pequenas, sistemas de drenagem sobrecarregados e falhas quase imperceptíveis em telhados, fachadas e impermeabilizações podem continuar comprometendo a instituição muito depois do término da tempestade.
Para a engenheira social Débora Farias Vignali, perito em patologia das construções e fundadora da Hepta Engenharia Condominial, em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, os danos deixaram de ser vistos uma vez que ocorrências isoladas e passaram a exigir atenção contínuas à forma uma vez que as edificações se comportam ao longo do tempo.
O ponto de atenção técnica está no trajectória da chuva dentro da instituição, do telhado ao subsolo. Os primeiros sinais aparecem em lajes e tetos, mas rapidamente se espalham pela estrutura: calhas entupidas, subsolos alagados por ralos sobrecarregados, danos em antenas e claraboias, curtos-circuitos em áreas comuns, recalques em pisos e garagens e, do lado extrínseco, queda de árvores sobre muros e veículos.
Segundo a engenheira, os danos são cumulativos e um novo temporal tende a exacerbar as patologias já existentes.

“O problema não está só no evento extremo, mas nas falhas não corrigidas entre uma chuva e outra. Não basta secar, é preciso identificar e reparar o caminho da chuva”, afirma Débora.
Em um cenário de instabilidade climática diferir reparos custa custoso ao caixa do condomínio: intervenções emergenciais chegam a ser cinco vezes mais caras do que as preventivas, com mão de obra e insumos inflacionados em média 40% em relação aos serviços cotados com antecedência.
“Hoje não se trata mais de se os eventos extremos vão ocorrer, mas de quando. E os condomínios precisam estar preparados”, resume a engenheira.
O que síndicos devem verificar antes e depois das chuvas
A prevenção de danos em períodos de chuva intensa exige atenção em diferentes etapas. Saiba o que precisa ser observado:
Antes das chuvas
A inspeção deve seguir o trajectória da chuva dentro da instituição:
• Cobertura e telhado: telhas deslocadas, rufos e calhas com falhas ou corrosão
• Impermeabilizações: lajes, terraços e jardineiras com fissuras, bolhas ou infiltrações anteriores
• Fachadas: trincas, desplacamentos e falhas em juntas de dilatação
• Sistema de drenagem: calhas, condutores, caixas de areia e galerias
• Subsolos: drenos, bombas de recalque e pontos de ingressão de chuva
• Estruturas externas: muros de arrimo e taludes com sinais de erosão ou instabilidade
• Instalações elétricas expostas: quadros e equipamentos sujeitos à umidade
Depois das chuvas
Alguns sistemas merecem atenção imediata depois temporais:
• Telhado: telhas deslocadas, rufos soltos e fixações comprometidas
• Calhas e condutores: entupimentos, falhas de caimento e acúmulo de detritos
• Caixas de areia e ralos: risco de extravasamento e retorno de chuva
• Drenagem do subsolo: funcionamento de bombas e nível de rebate
• Grelhas e ralos de piso: obstruções por sedimentos ou vegetação
• Estruturas expostas: sinais de infiltração, erosão ou deslocamento
O que os moradores podem fazer em períodos de alerta
• Escoltar com atenção os comunicados oficiais do condomínio
• Evitar deixar objetos soltos em sacadas, janelas e áreas externas, que podem ser levados pelo vento
• Manter ralos das unidades desobstruídos para evitar retorno de chuva
• Proteger veículos sempre que houver orientação ou possibilidade de dilúvio
• Informar imediatamente a gestão sobre qualquer sinal de risco ou anormalidade
• Seguir as orientações da equipe do condomínio e dos órgãos de Resguardo Social
Acesse pelo site da Proteção e Resguardo Social e acompanhe a evolução do fenômeno climatológico El Niño, confira o Projecto de Contingência e Projecto Emergencial Familiar para situações de risco: https://www.defesacivil.sc.gov.br/fenomeno-climatico/