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Bom siso e planejamento não são opcionais no montanhismo

Bom siso e planejamento não são opcionais no montanhismo

Nos últimos anos, as áreas naturais ganharam um tingido novo com cada vez mais pessoas se aventurando nas atividades de montanhismo e práticas ao ar livre. O que antes era, talvez, mais restrito a grupos com experiência técnica progressiva e entusiastas dedicados a práticas de esportes e atividades de proeza, tornou-se um fenômeno de massas. Impulsionadas pelo libido de desconexão com o estresse urbano, pela procura legítima por saúde, pelo escapismo das metrópoles e pelo apelo das redes sociais que vendem imagens instagramáveis ao alcance de todos, milhares de pessoas têm buscado trilhas e o cume de montanhas icônicas, de forma desenfreada e desinformada. Mas essa democratização do montanhismo trouxe junto um efeito paralelo preocupante: a subestimação do risco e a incompreensão de que a segurança é item necessário para quem escolhe praticar atividades em áreas naturais e remotas.

O recente caso do rapaz que se perdeu no Pico do Paraná – o ponto mais sobranceiro do sul do país – é um lembrete impactante de que a natureza não é um parque temático. Sem experiência prévia, sem equipamento adequado e, basicamente sozinho, já que sua parceira de proeza se mostrou tão inexperiente quanto ele ao desconhecer preceitos éticos básicos de quem está em dimensão remota, ele se tornou protagonista de um resgate multíplice que mobilizou dezenas de profissionais, voluntários e recursos públicos.

Esse incidente não é um caso solitário, mas o sintoma de uma era onde o libido de “chegar ao topo” atropela o saudação pelo caminho. E logo nos deparamos com o debate necessário sobre uma vez que buscar um “estabilidade sustentável” entre o recta à natureza e a responsabilidade social que isso implica.

As atividades em áreas naturais são uma das expressões mais autênticas da liberdade humana: o recta de ir, de vir, de confrontar e de superar limites pessoais em territórios remotos e hostis. O montanhismo conecta autonomia, repto e responsabilidade pessoal uma vez que ações indissociáveis.

Três décadas uma vez que montanhista e algumas vivências inesquecíveis me dão a certeza de que sempre estou em permanente tirocínio! A liberdade nunca está isenta de consequências e quando os riscos inerentes à atividade vêm à tona na forma de acidentes, estruturas públicas altamente especializadas, onerosas e, muitas vezes, escassas são envolvidas e mobilizadas, levantando questões uma vez que a fragilidade da relação do Montanhismo com a gestão de risco, de segurança e da ensino social acerca da prática.

Não se trata de desencorajar os novos praticantes de atividades de montanhismo, tampouco de segregar a serra somente aos experientes. Eu penso que a natureza é realmente para todas as pessoas e o recta de se conectar com ela é legítimo. Mas, uma vez que qualquer prática de atividade, o Montanhismo também exige uma progressão.

A liberdade de explorar nossos Parques vem acompanhada do responsabilidade ético de não sobrecarregar os sistemas de resgate por pura negligência. E a inexperiência nunca pode ser justificativa para erros que não precisam ser cometidos.

Uma pesquisa dos acidentes mais divulgados nos últimos anos revela que a maioria não aconteceu em razão de situações imprevisíveis ou força maior, mas por falhas recorrentes e evitáveis, uma vez que a privação ou precariedade da sinalização, o ignorância do trajectória, a falta de preparo físico necessário à atividade, o pouco ou nenhum planejamento, a desinformação acerca das pessoas com quem você vai partilhar a experiência e o excesso de crédito sobre temas que a pessoa não domina.

Não se trata de mandar que não se faz trilha sozinho. O recta ao risco é inalienável e desde que não coloque outras pessoas em situação de transe, é legítimo. Mas é preciso entender os riscos calculáveis e, principalmente, aqueles sobre os quais não temos qualquer domínio, se desejamos ir para a serra sozinhos. E, sim, é preciso ter a experiência robusta de quem já gastou muito solado de bota.

Para os experientes, a solidão da serra pode ser um tirocínio de liberdade e contemplação. Para iniciantes, pode ser uma embuste! Em áreas remotas ou a 2 milénio metros de altitude, por exemplo, uma torção no tornozelo ou uma neblina que chega bruscamente pode transformar uma proeza em situação de sobrevivência. Quando estamos sozinhos nestes momentos, a nossa margem de erro tem que estar próxima ao zero e, se somos inexperientes, essa margem tem que ser zero.

O que o caso no Parque Estadual Pico do Paraná no traz fortemente é a premência cada vez maior de falarmos sobre responsabilidade. Para que o montanhismo evolua de forma segura no Brasil, precisamos discuti-la de forma clara e sem filtros e quando me pergunto de quem é a responsabilidade, penso nela compartilhada entre o tipo e o Estado.

A Responsabilidade Individual

A pessoa que escolhe praticar uma atividade de montanhismo precisa entender que é a principal responsável pela sua segurança. A cultura do “senda”, muito geral hoje, faz a pessoa querer o cume do Pico do Paraná ou da Agulha do Diabo antes mesmo de aprender a arrumar uma mochila de ataque (aquela que leva unicamente o vital para uma irrupção rápida). A responsabilidade individual exige a humildade de (re)saber as próprias limitações, o seu condicionamento físico e a experiência pessoal.

É preciso planejar, saber e se informar sobre o trajeto, o lugar, o clima, as regras, a topografia. Planejamento não é burocracia, é garantia de sobrevivência.

O montanhismo é uma atividade de progressão permanente, a serra é um envolvente de risco inerente e é necessário compreender que a falta de experiência não pode ser suprida pela coragem. E a gestão dos riscos inerentes à atividade vai além do planejamento logístico: ela prepara a pessoa psicologicamente melhor para tomar a decisão mais difícil do montanhismo: a hora de desistir e voltar.

O Roberto, o rapaz do Pico do Paraná, aliás, se tivesse se informado um pouco mais sobre o que fazer ao notar que saiu da trilha e estava perdido, teria parado de se locomover, facilitando o seu resgate pelas equipes locais. Uma desinformação simples que trouxe a ele cinco dias muito difíceis e de riscos muito altos.

O papel das Unidades de Conservação (UCs)

Não devemos eximir o poder público de sua responsabilidade nessas ocorrências. Há uma discussão necessária sobre o papel dos gestores das unidades de conservação e áreas naturais. É imperativo que as UCs mantenham as trilhas principais minimamente manejadas e, sobretudo, sinalizadas de consonância com padrões nacionais e a classificação de trilhas (uma vez que o manejo dos traçados por proporção de dificuldade). Uma sinalização eficiente não “domestica” a serra, tampouco remove o seu caráter remoto, mas canaliza o fluxo de pessoas, protege a biodiversidade lugar e oferece balizas de segurança para quem se perde.

O praticante deve entender que sua negligência tem um dispêndio social. Cada operação de procura e salvamento coloca em risco a vida dos resgatistas – muitos deles voluntários que deixam suas famílias para emendar o erro de um estranho. E que acidentes evitáveis geram uma pressão negativa sobre os órgãos ambientais, que muitas vezes respondem com o fechamento de parques e restrições de entrada, punindo toda a comunidade por justificação da imprudência de poucos.

O cume é opcional, voltar é inegociável

A serra é um dos últimos redutos de liberdade genuína no mundo moderno. Mas essa liberdade só é plena quando acompanhada da autonomia técnica. A conscientização deve vir antes da expedição. A segurança no montanhismo depende de um estabilidade entre o esforço do poder público em manter os parques estruturados e o compromisso dos praticantes de entender a valia da gestão dos riscos da atividade, de ser o principal responsável por sua segurança e de compreender as próprias limitações. O entrada às montanhas é um recta, mas a segurança de quem está nelas é uma construção individual que exige conscientização e tempo de tirocínio.

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