Proteger a biodiversidade exige conectar territórios
Produzir áreas protegidas é uma das principais formas de resguardar a biodiversidade. Mas os limites desenhados nos mapas não conseguem atender todas as necessidades das espécies. Animais se deslocam em procura de iguaria e parceiros reprodutivos, sementes são dispersas entre ambientes e populações dependem do intercâmbio genético para manter sua heterogeneidade. Com o progressão do aquecimento global, eleva-se a premência de se trasladar para novos territórios em procura de chuva, comida ou temperatura mais seguras. Quando a vegetação nativa fica dividida em fragmentos isolados, esses processos são afetados.
A fragmentação é também, por si só, uma requisito de vulnerabilidade da vegetação nativa. Áreas de bordas de fragmentos de vegetação estão mais expostas aos eventos extremos, porquê saraiva, ventanias, aumento de temperatura e luminosidade, excesso ou falta de chuva. Se perto de áreas produtivas, correm o risco de serem atingidas por agroquímicos. Em caso de lume, são as áreas de borda, menos densas, que favorecem o progressão das chamas.
A dimensão do duelo aparece nos dados recentes do MapBiomas: o Brasil possui 3,41 milhões de fragmentos de vegetação nativa e, em 46% dos municípios, a extensão média desses fragmentos é subordinado a 25 hectares. A fragmentação, associada à transformação dos ambientes naturais por atividades humanas, dificulta o deslocamento das espécies e reduz as possibilidades de manutenção de suas populações.
É por isso que políticas de conservação e restauração precisam englobar critérios de conectividade ecológica. Corredores ecológicos ajudam a estabelecer ligações entre áreas naturais, favorecendo a circulação dos organismos, a dissipação de sementes e o fluxo genético. No caso do Brasil, nosso país já dispõe de instrumentos para agir. A Lei nº 9.985, de 2000, que criou o Sistema Pátrio de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), prevê corredores ecológicos para facilitar o movimento das espécies e a recolonização de áreas degradadas. A legislação oferece uma base para incorporar a conectividade à gestão das áreas protegidas.
No Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, o projeto Corredores de Vida, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), mostra uma emprego desse princípio. Um galeria de 12 quilômetros, com 2,4 milhões de árvores plantadas, conecta o Parque Estadual Morro do Diabo à Estação Ecológica Mico-Leão-Preto. A iniciativa combina restauração florestal e fala com proprietários rurais e comunidades locais.
Experiências porquê essa mostram que a conservação precisa ultrapassar os limites das unidades de conservação. A conectividade depende da proteção de remanescentes, da recuperação de áreas degradadas e de escolhas sobre o uso do território. Também exige critérios técnicos: traçar uma relação no planta não garante que ela seja utilizada pelas espécies. É preciso considerar suas necessidades, as características da paisagem e o monitoramento dos resultados.
O exemplo brasílio pode inspirar o mundo e o tema esteve em debate ao longo deste ano, nas conversas prévias e durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Heterogeneidade Biológica (COP17), em um momento de avaliação dos compromissos internacionais de conservação. Nascente é um tema que deve continuar nas conversas, dada sua crescente valia e a falta de graduação nessa frente.
O Brasil, em nome do Chile, Colômbia, Cuba, Venezuela e México levou a proposta de estabelecer um quinto elemento programático devotado à conectividade a ser incorporado no Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas (PoWPA), da CDB. Isso se deu na reunião do Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico, Técnico e Tecnológico da CDB (SBSTTA-28), realizada em julho e agosto de 2026. A proposta procura oferecer uma estrutura congruente para integrar redes ecológicas e corredores de biodiversidade, áreas de conexão entre habitats, inclusive os chamados stepping stones, incorporar planejamento espacial integrado e restauração ecológica, substanciar atividades de adaptação às mudanças climáticas e conectividade em políticas e planejamentos setoriais. Até a data da publicação desse texto ainda não havia consenso sobre a aprovação da proposta brasileira.
Incorporar a conectividade à geração e à gestão de áreas protegidas e orientar a restauração para locais capazes de restabelecer ligações ecológicas são passos concretos e urgentes. Encomiar as funções ecossistêmicas das áreas de conservação é um dos próximos passos na conservação da natureza, rumo ao mundo que queremos para nós e para as futuras gerações.
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