O século XXI começou no subsolo
A Revolução Industrial não começou simplesmente quando James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor. Ela começou quando a humanidade percebeu que a força poderia substituir a força humana em uma graduação inédita. Da mesma forma, o século XX tornou-se o século do petróleo quando o domínio dessa manadeira de força passou a ordenar economias, guerras e relações internacionais. Talvez o século XXI tenha começado no subsolo.
Uma novidade arquitetura tecnológica e geopolítica está sendo construída rapidamente. Seu fundamento não é somente petróleo ou carvão, mas também os chamados minerais críticos, entre eles as terras raras. Eles estão presentes em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, computadores, sensores, satélites, radares, robôs e sistemas de resguardo.
E há um novo consumidor de graduação extraordinária: a perceptibilidade sintético. Por trás dos algoritmos existe uma infraestrutura física gigantesca, formada por centros de dados, servidores, semicondutores, redes e sistemas de armazenamento. A revolução do dedo, portanto, não reduziu nossa obediência da natureza. Ao contrário: quanto mais do dedo se torna o mundo, mais depende de sua base física e geológica e, inevitavelmente, dos ecossistemas que sustentam esses territórios.
Essa questão deixou de ser somente econômica. Tornou-se uma questão de segurança, soberania e poder tecnológico. Possuir recursos naturais não significa controlar seu valor estratégico. Um país pode exportar minério e importar tecnologia; possuir a matéria-prima de uma indústria estratégica e, ainda assim, depender de outros países para processá-la e transformá-la em produtos de supino valor. Quem controla somente o recurso proveniente continua dependente de quem controla o conhecimento. É justamente aí que o Brasil precisa fazer uma escolha.
Nossa história é marcada pela exportação de produtos primários, do ouro e do moca ao minério de ferro, soja, celulose e mesocarpo. Mudaram as mercadorias, mas o padrão permanece em grande medida. Talvez o nióbio seja uma exceção parcial, por ter desenvolvido uma prisão que avançou além da extração, incorporando produtos, aplicações e tecnologias. O exemplo é importante porque mostra que a riqueza mineral pode gerar muito mais do que uma commodity.
As terras raras colocam o Brasil diante de uma oportunidade semelhante. Mas repetir o velho padrão de simplesmente extrair e exportar seria desperdiçá-la. O verdadeiro recurso estratégico não está somente no minério existente no subsolo, mas na capacidade de transformá-lo em conhecimento, tecnologia, indústria e inovação.
Existe, porém, outro patrimônio brasílico que precisa entrar definitivamente nessa equação: a biodiversidade. O Brasil não possui somente uma das maiores reservas minerais do planeta. Possui também uma das maiores diversidades biológicas conhecidas. Cada espécie representa milhões de anos de evolução e carrega informações genéticas e ecológicas que ainda conhecemos somente parcialmente. Microrganismos, vegetais, animais e ecossistemas desenvolveram soluções para sobreviver, reproduzir-se e interagir em condições extremamente diversas. A natureza é, nesse sentido, uma gigantesca livraria de soluções.
Medicamentos, enzimas, novos materiais, tecnologias agrícolas, biotecnologia e biomimética podem nascer desse conhecimento. Guardar biodiversidade, portanto, não é somente proteger um patrimônio ambiental. É também preservar uma infraestrutura estratégica para a ciência e a inovação. Um dos principais pontos de conflito é que as áreas mais ricas em recursos minerais frequentemente se sobrepõem a regiões de elevada biodiversidade. Em vez de ver essa sobreposição somente uma vez que um impasse regulatório ou ambiental, o Brasil pode tratá-la uma vez que uma equação de planejamento integrado: a integridade da biodiversidade e dos recursos hídricos locais é o que garante a viabilidade de longo prazo da própria infraestrutura produtiva do país.
É nesse ponto que mineração e biodiversidade precisam deixar de ser tratadas uma vez que agendas completamente separadas. Saber profundamente a biodiversidade de uma superfície antes da mineração pode permitir identificar espécies e processos mais vulneráveis, reduzir impactos e planejar melhor a recuperação. O conhecimento ecológico também pode gerar novas tecnologias de restauração capazes de restaurar solos, chuva, comunidades biológicas e funções ecológicas, e não somente ocultar áreas degradadas com vegetação.
A restauração ecológica pode se tornar, ela própria, um campo estratégico de ciência, tecnologia e inovação. Isso exige uma mudança de perspectiva. Não basta medir hectares restaurados, toneladas de carbono capturadas, ou se uma superfície pós-mineração se encontra virente. É preciso determinar se a biodiversidade, a conectividade, os solos, a chuva e os processos ecológicos estão sendo efetivamente recuperados.
Essa integração é harmónico com o Quadro Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, que estabelece metas para restaurar ecossistemas degradados, integrar biodiversidade às políticas públicas e aos fluxos financeiros e reduzir os impactos das atividades econômicas sobre a natureza. O conhecimento ecológico e biotecnológico não serve somente para preservar a floresta em pé; ele pode ser diretamente aplicado para revolucionar a mineração. Por exemplo, através da biorremediação de solos degradados, o uso de microrganismos na extração limpa (biomining) e o desenvolvimento de novas tecnologias de restauração que recuperam funções ecológicas reais, e não somente a paisagem visual.
O duelo brasílico, portanto, é maior do que produzir mais minério ou minerais críticos. É erigir uma estratégia na qual minerais críticos, biodiversidade, ciência, tecnologia, indústria e restauração ecológica se reforcem mutuamente.
A pergunta estratégica não deveria ser somente: quanto minério temos? Precisamos perguntar: quanto conhecimento somos capazes de produzir a partir dele? E, diante da nossa biodiversidade: quantas soluções científicas e tecnológicas ainda desconhecemos em nossa própria natureza?
O horizonte não será determinado simplesmente pelos países que possuem mais recursos naturais, mas por aqueles capazes de saber, proteger, transformar e casar valor ao patrimônio que possuem. O Brasil pode continuar exportando natureza e importando tecnologia. Ou pode transformar sua extraordinária riqueza mineral e biológica em ciência, inovação, indústria e soberania.
Mais esta encruzilhada está diante de nós.
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