Árvores resilientes nos jardins de Lisboa

Árvores resilientes nos jardins de Lisboa

As árvores de hoje estarão preparadas para o clima de amanhã?

Entre oliveiras centenárias, pinheiros-mansos, jacarandás em flor ou palmeiras oriundas de diferentes continentes, os jardins e parques históricos de Lisboa contam-nos histórias feitas de viagens, experimentação fitologia e fascínio pelas vegetalidade. A localização um da cidade, entre o Tejo e o Atlântico, associada ao clima mediterrânico, favoreceu o desenvolvimento duma notável variedade fitologia, ainda visível nos seus espaços verdes. Mas será que estas árvores serão resilientes para enfrentar as alterações climáticas?

No século XX, a novidade disciplina da Arquitetura Paisagista introduziu em Portugal uma abordagem mais ecológica ao escorço dos jardins. Valorizou o uso de espécies autóctones, mais muito adaptadas às condições locais e menos exigentes em manutenção e consumo de chuva. Esta visão ajudou a definir muitos dos espaços verdes que ainda hoje marcam a identidade da cidade, uma vez que o jardim da Capela de S. Jerónimo ou da Torre de Belém.

Que horizonte espera as árvores de Lisboa?

Para responder a esta questão, recorremos ao Climate Assessment Tool (CAT), desenvolvido pelo Botanic Gardens Conservation International (BGCI). Esta instrumento permite julgar a adaptação das espécies a diferentes cenários climáticos. Com base no clima atual e nas projeções para 2050 e 2090, estudámos murado de 20 milénio árvores, pertencentes a 318 espécies, distribuídas por 63 jardins e parques históricos de Lisboa, incluindo os três jardins botânicos. O objetivo foi perceber quais as espécies de árvores mais resilientes e as mais vulneráveis às alterações climáticas. Importa frisar que estes resultados se baseiam em cenários climáticos futuros e em projeções sobre a verosímil resposta das espécies. Embora o horizonte possa revelar-se menos severo do que os cenários sugerem, estas análises constituem uma instrumento fundamental para antecipar desafios e estribar a gestão do arvoredo urbano.

As espécies mais vulneráveis

Os resultados revelam uma mudança profunda. Atualmente, mais de metade das espécies da região Paleártica, onde se incluem muitas espécies mediterrânicas e nativas de Portugal, já apresentam elevada vulnerabilidade climática. Inclusive, esse valor pode atingir os 77% de convénio com os cenários climáticos projetados para 2090. Espécies muito comuns em Lisboa, uma vez que o lódão-bastardo, o pinheiro-manso, a oliveira, ou o freixo surgem entre as mais vulneráveis.

As espécies mais resilientes

Por outro lado, algumas espécies tropicais e subtropicais parecem estar mais muito preparadas para o clima horizonte da cidade. O já emblemático jacarandá, que pinta de lilás a primavera lisboeta, destaca-se uma vez que uma das árvores mais resilientes. Junto a ele surgem outras espécies uma vez que a tipuana, a magnólia ou algumas palmeiras.

Apropriar os jardins históricos

O estudo alerta para a premência dum estabilidade quebradiço. Neste contexto de alterações climáticas, embora o arvoredo urbano se encontre cada vez mais vulnerável, continua a desempenhar um papel precípuo no reforço da resiliência das cidades. Além de fazer secção da identidade dos nossos jardins históricos, contribui para a redução dos efeitos do calor extremo, melhora o conforto climatológico e ajuda a preservar a biodiversidade urbana. Apropriar estes espaços exigirá, por isso, escolhas cuidadosas. Nomeadamente, seguir o estado do arvoredo, variar espécies e introduzir, de forma gradual e criteriosa, soluções mais resilientes. Sempre sem comprometer o legado histórico e paisagístico destes espaços.

Cada despensa que resiste ao calor, cada floração fora de era ou cada sombra procurada num jardim em pleno verão revelam-nos uma paisagem em transformação. Talvez seja tempo de reaprendermos a olhar para os jardins não unicamente uma vez que lugares de contemplação e sota, mas uma vez que espaços vivos que ajudam a cuidar e a preparar o horizonte das cidades.

Levante cláusula baseia-se na investigação desenvolvida no contexto do doutoramento da autora Ana Raquel Cunha, em Arquitetura Paisagista e Ecologia Urbana, no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa.

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