“ANTA – o filme” leva às telas o maior mamífero terrestre da América do Sul
“Anta é preconização”. A frase afirmativa transformada em lema e adesivo pela equipe da Iniciativa Pátrio para Conservação das Antas no Brasil (INCAB-IPÊ) é um teaser da mensagem apresentada em “ANTA – o filme”, dirigido por João Marcos Rosa. Ou melhor, uma das mensagens, importante expor, pois o documentário de 80 minutos nos leva por uma verdadeira expedição por cinco biomas brasileiros no rastro do maior mamífero terrestre da América do Sul, na qual nos deparamos com diferentes contextos e desafios de conservação, acompanhando de perto o trabalho varonil dos pesquisadores em campo, que tentam prometer sua sobrevivência. Na frente desse esforço está a bióloga Patrícia Médici, que há 30 anos lidera a pesquisa e o maior banco de dados sobre anta do mundo.
“Vivemos num país e num mundo que ainda sabe muito pouco sobre esse bicho. Muita gente ainda se confunde, acha que a anta é uma capivara, um tamanduá, um porco. Existe um ignorância. É o maior mamífero terrestre da América do Sul, a jardineira da floresta. As pessoas têm que saber o que é esse bicho antes de a gente poder continuar nessa conversa com eles. (…) qual é a valimento desse bicho para a geração e manutenção de biodiversidade é chave. A gente precisa que as pessoas saibam disso”, destaca Patrícia, coordenadora da INCAB.
O trabalho da bióloga com a anta (Tapirus terrestris) começou em 1996 e resultou na geração da INCAB, iniciativa voltada para pesquisa de longo prazo e conservação do bicho em cinco biomas – Mata Atlântica, Pantanal, Tapado, Amazônia e, mais recentemente, Caatinga, onde a espécie foi redescoberta em 2025 – com o objetivo de prometer sua sobrevivência em todos eles.
O filme, dirigido por João Marcos Rosa e produzido pela NITRO Histórias Visuais, estreou na semana do Meio Envolvente, em junho, e ((o))repercussão acompanhou a pré-estreia no Rio de Janeiro.
Confira a entrevista completa de ((o))repercussão com João Marcos Rosa e Patrícia Médici:
((o))repercussão: O que motivou vocês a fazerem esse filme?
João Marcos Rosa: O filme surgiu de forma super casual, num moca, uma coisa muito espontânea, mas a origem mesmo vem, na minha perspectiva uma vez que diretor e documentarista, de uma assombro muito grande por esse trabalho que é transportado há muitos anos, com muito esforço, dedicação e resiliência. Homenagear essas pessoas, fazer com que essas trajetórias sejam expostas, com elas ainda em ação, é um incitamento para que elas sigam operando na subida, uma vez que a Patrícia faz, uma vez que a equipe dela toda faz, e que também é uma inspiração para quem não está envolvido com o tema ou para quem está envolvido com o tema também. Pra mim, a motivação de relatar essa história, de fazer esse filme, é fazer com que essa força motriz siga rodando, as pessoas se inspirem e que as próprias pessoas que estão sendo retratadas ali no filme também sigam se inspirando com o próprio trabalho. Às vezes é difícil olhar para o seu trabalho e falar, “rostro, o meu trabalho tem qualquer valor”, as pessoas estão ali presas no cotidiano e na burocracia e não conseguem ter essa dimensão. E esse trabalho da Patrícia e da INCAB-IPÊ, tem essa dimensão de graduação micro e macro, que vai desde o pontinho ali onde eles estão, o território do bicho, até uma graduação global.
Patrícia Médici: Só para relatar um pouquinho mais sobre essa conversa informal no cafezinho porque na verdade é bacana esse promanação da história do filme. Eu fui falar com o João no cafezinho do nosso curso de Informação para a Conservação: “João, ano que vem estamos fazendo 30 anos de trabalho e acho que queria fazer uns conteúdos para as redes, uns videozinhos”. Aí o João virou e falou “mas por quê videozinho? Vamos fazer logo um filme”. E eu perdi a chance de transpor correndo naquela hora e aí estamos cá né, o João me falou mais, me ensinou sobre essa potencial passeio e rolou. [risos]

((o))repercussão: E por que um filme, não um “videozinho”? Por que legar com um longa-metragem?
João: A escolha do filme vem muito em contraponto dessa termo que a gente tem hoje, que é o tal do “videozinho”, que é uma instrumento muito dinâmica de notícia, mas ela trabalha na superficialidade. Tanto de teor quanto de plataforma de suporte. Estamos falando de dispositivos digitais, celular, computador, tablet… onde você está geralmente trabalhando e tendo sua atenção dissipada ali com outras milhões de coisas, com conteúdos diversos. Essa atenção hoje está muito dividida. A teoria era levar essa história para as telas, porque a gente queria que as pessoas que fossem testemunhar tivessem essa fardo de informação, de sentimento e da mensagem muito mais potente. Eu vejo pelas pessoas que foram impactadas até agora – já foram mais de 500 pessoas nessas primeiras exibições no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. E o retorno que temos é de pessoas que realmente começaram a se envolver, trouxeram alguma troca, passaram pra frente, já colaboraram de alguma forma. É um nível de impacto muito maior. Eu tinha certeza e continuo tendo de que testemunhar esse filme num auditório, numa sala de cinema, numa sala de lição futuramente, vai fazer com que essas pessoas estejam muito mais atentas e possam sugar essa mensagem de uma forma mais potente. E nós estamos com a premissa de estar presentes nessas exibições, pelo menos nesse primeiro momento, para que possamos ter essa troca também.
E o filme é muito imersivo, a história acontece o tempo todo no campo, sem entrevistas paradas, com muito diálogo. Queria que você explicasse o que levou a essas escolhas de narrativa.
João: Nós tínhamos desde o início uma visão das personagens, já na pesquisa ali, entendendo que tinha uma conexão de várias personagens no processo. A gente trouxe o Gustavo Nolasco, que é quem fez o argumento do filme e ele trouxe a teoria desses diálogos da Patrícia com as pessoas que permeiam esse universo. E a gente viu que funcionou. Eu acho que na primeira grande entrevista que foi com a Rita Jurgielewicz, que é a proprietária da Quinta Baía das Pedras, lá no Pantanal, percebemos que a Patrícia conseguia levar essa dinâmica e que aquilo ajudava as pessoas também a entender um pouco mais dela. Logo esse bate-papo também ajudava. A Patrícia participou de praticamente todas as entrevistas, perguntando também, dialogando. Só teve uma que a gente precisou extraí-la, que foi a do Arnaud [Desbiez], o marido dela, porque realmente tinha uma fardo mais emotiva, e a gente queria que ele tivesse essa liberdade para poder falar dela, e realmente ele conseguiu trazer coisas que talvez ninguém tivesse essa tranquilidade para falar, com tanta domínio do tema paixão.
Patrícia: Revoltante ter que ter saído [risos].
Patrícia você é realmente a espírito do filme, tanto levando o público para seguir a pesquisa em campo, quanto participando das entrevistas. Se você tivesse que somar, quais são as principais coisas que você queria que as pessoas entendessem sobre a Anta e a sua pesquisa com esse filme.
Patrícia: Nós temos uma lista de bullet points, que são as mensagens que a gente já “tatuou na pele” e anda com elas pra cima e pra inferior, isso está molhado em toda a nossa notícia, que é um paisagem muito importante do trabalho. E essas mensagens principais são voltadas a fazer com que as pessoas saibam o que é uma anta, porque vivemos num país e num mundo que sabe muito pouco sobre esse bicho. Muita gente ainda se confunde, acha que a anta é uma capivara, que a anta é um tamanduá, um porco. Existe um ignorância sobre o que é uma anta. É o maior mamífero terrestre da América do Sul, jardineira da floresta. As pessoas têm que saber o que é esse bicho antes de a gente poder continuar nessa conversa com eles. Eu acho que o filme mostra isso bastante muito.
Segundo lugar, quais são as problemáticas? O que compromete a sobrevivência desse bicho? O filme também aborda isso lindamente. Esses dias até me falaram, o filme aborda temas complexos e até mesmo tristes, mas não de uma forma melancólica. E eu achei muito bacana essa descrição. A questão da jardineira da floresta, qual é a valimento desse bicho para a geração e manutenção de biodiversidade é chave. A gente precisa que as pessoas saibam disso. E o filme traz imagens incríveis, até do cocô com as sementinhas… o João foi lá em Carajás, alguém achou um cocô e ele saiu correndo porque precisava filmar esse cocô que tinha as mudinhas e mostra isso muito.
De maneira universal todas as mensagens que a gente procura passar foram cobertas pelo filme de uma forma muito alcançável, as pessoas sacam. Tinha muita gente, em todas as exibições, que não são da espaço de conservação e que deram esse retorno de que entenderam a mensagem. O filme fala de verdade com as pessoas, convertidos ou não.
Acho que essas são algumas das mensagens: ciência, anta e conservação. Mas tem também de que a conservação é um estilo de vida. Tem que se entregar, não é uma coisa que dá pra fazer nas horas vagas. Acho que aí estamos falando mais com a galera mais jovem, que está entrando nesse universo, com os profissionais da conservação que estão aí estressados, deprimidos… esse filme também leva essa mensagem de que é sofrido, é sopapo em ponta de faca, uma vez que eu sabor de expor, mas estamos juntos. Vamos fazer o que precisa ser feito. Parece que o filme conseguiu colocar tudo isso ali.

O filme realmente não é melancólico, tem até momentos engraçados, descontraídos, mas é um filme duro. Tem a efemeridade dos 30 anos do projeto, mas e os próximos 30? O filme deixa até uma certa incerteza na perpetuidade da existência da anta. Porquê vocês veem isso dentro do filme?
Patrícia: O filme é de uma rijeza delicada. Ele dá umas agulhadas fortes, a gente fala potente. Nós tivemos essa conversa com o Gustavo Nolasco lá no comecinho, quando estávamos preparando o argumento sobre uma vez que imaginávamos esse filme. E nós decidimos que queríamos que fosse um filme que falasse transparentemente sobre essas questões mais difíceis. Acho que foi na medida certa e muito dosada para que as pessoas tenham esse banho de veras. Sobre pensar no porvir, acho que o filme deixa no ar. O João brinca que vamos fazer “Anta 2 – a revanche”. E acho que está instigando a curiosidade das pessoas, para que elas pintem nas suas próprias cabeças qual vai ser a perpetuidade: “Será que eu cá, posso ser segmento dessa perpetuidade?”. É muito bacana se a gente puder ter também esse tipo de posicionamento.
Lá em Belo Horizonte, uma pessoa que estava na plateia perguntou, “e aí, quem que vai ser a próxima Patrícia?”. E a minha resposta foi que, na veras, não tem muito espaço para a gente permanecer pensando nisso porque o presente é tão intenso. O presente requer tanto de nós que é muito multíplice estar pensando no porvir ou em quem que vai assumir o projeto. Nós temos que estar no presente, estar focados no que a gente tá fazendo e confiar que tem um valor. E sim, treinar pessoas. Ter todos os esforços possíveis e imagináveis para que os nossos projetos sejam centros de treinamento e capacitação para os conservacionistas do porvir, e essa galera vai levar essa responsabilidade. Esperamos que seja um legado, não necessariamente clones dos conservacionistas que estão trabalhando cá agora.
João: Acho que o filme tem uma mensagem sobre essa efemeridade, quando o Zé [José Maria de Aragão, assistente de campo] fala do que ela [Patrícia] é, do que ela representa, e depois, o que as pessoas vão lembrar? Eu quero que elas lembrem agora, que elas pensem agora, para que isso seja uma inspiração. E foi muito interessante na exibição em São Paulo que tinha uma novidade geração de documentaristas, que também estão bebendo dessas fontes e se inspirando, simples. Acho que o filme tem essa coisa de trabalhar em esferas diferentes, que não só dá conservação e ciência.
O papel do Zé traz uma coisa muito importante também desse componente humano, Brasil do interno, do papel desses assistentes de campo, os mateiros. Se os pesquisadores que são os expoentes, já são invisíveis pro mundo uma vez que um todo, os assistentes de campo são totalmente invisíveis. Mostrar esse tripé, porque tem a Patrícia, tem o Zé e vários outros personagens que estão ali numa outra base, formata esse processo, né?

Durante a pré-estreia no Rio de Janeiro você comentou que seu pai te reconhecia uma vez que um fotógrafo de natureza, mas que você passou a se entender uma vez que um documentarista de gente. Conta um pouco sobre essa mudança de perspectiva.
João: Eu vou um pouco além, eu acho que, de uns anos pra cá, há uma tendência de valorizar as pessoas que estão por trás dessas batalhas da ciência e conservação. Mas ainda temos, principalmente na notícia, milhões e milhões a mais de libras esterlinas, uma vez que eu sabor de falar, porque esse numerário vem principalmente da Inglaterra, investidos nessas histórias naturais que fazem “traquitanas” para documentar a aura do golfinho, por exemplo, e não tem tratado as histórias humanas de quem tá nessa guerra da mesma forma. São essas pessoas que estão morrendo junto com esses bichos. E somos nós que estamos morrendo junto com esses bichos.
Não é uma sátira exatamente, mas um direcionamento de esforço. Eu percebia que pra fazer uma coisa de bicho, o consumo do meu tempo, da minha robustez, da minha grana, de equipamento e de tudo mais, era uma coisa que sempre pulava ali os zeros, muito mais do que uma coisa de eu estar convivendo com uma pessoa. Se a gente fosse fazer um filme de história oriundo sobre anta, a gente teria gasto muito mais e com muito mais gente em campo, pra relatar essa história. E será que essa mensagem chegaria da mesma forma? Será que essa mensagem seria absorvida da mesma forma? Isso eu tenho refletido há qualquer tempo, de tentar conectar.
Com o “Mulheres na Conservação” [projeto multimídia e documentário de 2023] teve muito disso, de você colocar uma espécie, uma pessoa e uma desculpa. A conexão é maior do que simplesmente alguém encontrar que você está ali fotografando aquela harpia ou aquela anta e você está no meio do mato sozinho e não tem ninguém por trás disso, de que você não bebeu de nenhuma informação para conseguir realizar aquilo.
Tudo que eu fiz até hoje foi graças ao espeque de pesquisadoras uma vez que a Patrícia ou todas as outras que me colocaram na rostro do gol. Pra mim hoje faz mais sentido também essa homenagem. É meio que uma retribuição a tudo que eu pude ver, a tudo que eu pude fotografar, graças a essas pessoas. É uma forma de retribuir. E pra mim é um prazer ver essas pessoas, vê-las em campo, trabalhando com tanta maestria, é um negócio muito bonito. É mais do que só um trabalho, é uma retribuição que eu faço a tudo que eu recebi até hoje.
O filme se refere várias vezes ao Pantanal uma vez que o paraíso das antas. Mas a gente sabe que a crise climática, as secas, incêndios… tudo isso ameaço o Pantanal que conhecemos hoje. O filme acaba não abordando muito isso, mas eu queria ouvir de você, uma vez que você vê esse paraíso? Esse Éden está ameaçado?
Patrícia: Com certeza. Talvez esse seja o tópico principal de Anta, o filme 2. A gente iniciou na Mata Atlântica num contexto de espaço protegida, que é um grande migalho de Mata Atlântica do interno, o Parque Estadual do Morro do Diabo, na região do Pontal do Paranapanema. Ali era o nosso objeto de estudo, uma população de antas dentro de um parque estadual protegido. Tínhamos um contexto de nem paraíso nem inferno. Quando a gente chegou no Pantanal, 18 anos detrás, foi que eu tive essa sensação [de paraíso]: são 170 milénio quilômetros quadrados de espaço contínua, da iniciativa privada, enormemente comprometida – vamos usar comprometida com leveza –, com a conservação, porque tem as recompensas de você manter o método tradicional pantaneiro de pecuária, porque isso sim aumenta a sua produtividade. E de prometer que a bicharada tá lá, porque agora estão trabalhando com o turismo, quer que os seus hóspedes vejam uma onça, uma anta, uma ariranha. O Pantanal não é adequado para lavoura e isso gerou um contexto nessa planície alagável que favoreceu a manutenção do Pantanal por 200 anos de colonização, basicamente uma vez que ele era, com a inserção da pecuária em larga graduação, métodos tradicionais pantaneiros. Se você muda isso, aí danou-se. A gente tinha essa sensação, de verdade, de paraíso. A quinta onde a gente trabalha tá no coração da Nhecolândia, que é uma das sub-regiões melhor conservadas do Pantanal, ali no meio do zero, seis, sete horas de viagem sacolejando pelo meio de quinta, com proprietários pioneiros da ocupação do Pantanal, uma das famílias mais tradicionais da região, e que usa, mantém e aplica ali os preceitos da pecuária tradicional e turismo.
Só que com o passar dos anos, esse é um processo de duas décadas, essas coisas estão mudando, muita gente está tendo dificuldades econômicas e estão vendendo suas terras. Essa é a grande mudança, porque o tradicional pantaneiro vende a quinta para uma pessoa de São Paulo que chega e a primeira coisa que faz é trinchar a floresta, que o pantaneiro raiz não vai trinchar porque quer sombra para o mancheia e sabe que aquilo é importante para a produtividade. Plantam braquiária, um pouco que o pantaneiro não faz, porque ele sabe que manter a pastagem nativa porque é mais nutritiva… e isso muda tudo.
E aí aquilo deixa de ser um Pantanal. É isso que está acontecendo, pouco a pouco. Somado aos impactos das mudanças climáticas, que são imprevisíveis, mas já estão acontecendo. É um bioma que está secando, que tem muito menos disponibilidade de chuva e um bioma que está queimando todo ano.
O roupa é que o Pantanal vai deixar de ser o paraíso das antas em breve e a gente já está sentindo isso há qualquer tempo. Eu acho que ainda dá, estamos no último suspiro desse paraíso. Por ora, o paraíso ainda está lá.

Para além do Pantanal, o filme navega por outros biomas, Amazônia, Tapado, Mata Atlântica e brevemente a Caatinga, onde vocês também atuam, com pesquisa e conservação. Porquê é organizado esse trabalho e esse acúmulo de dados da anta por todo país?
Patrícia: Nós começamos uma vez que um projetinho pequeno e acabou abrindo as asas e hoje em dia a gente se autointitulou Iniciativa Pátrio para a Conservação da Anta Brasileira [INCAB]. Evoluímos nesse sentido mesmo e foi orgânico, foi um processo de ir se dando conta de que éramos necessário cá e ali, em diferentes momentos, e fomos abrindo as asas mesmo. Foi muito planejado, foi muito zeloso, inclusive financeiramente.
Eu prometi para muita gente, falei publicamente que a Amazônia ia ser o último bioma. Hoje em dia eu pago por isso, porque aí veio a Caatinga na nossa vida [risos]. A gente trabalha com uma equipe pequena e atarefada. São oito pessoas em tempo integral, eu e o Zé inclusos, com veterinária, geneticista… Temos um ecólogo especializado em gestão e estudo de dados, o Yuri Souza, que é quem toma conta desse “acúmulo”, que é o maior banco de dados sobre a espécie no mundo, que fomos acumulando ao longo desses 30 anos em cada uma dessas áreas: da ecologia, da saúde, da genética, as ameaças que estão operando, quais são os impactos numéricos, quantitativos dessas ameaças, enfim, tudo que é gerado de dados. Esse bolo de dados que estamos trabalhando para organizar, gerir e sugar as informações. Publicamos três artigos levante ano graças ao trabalho do Yuri. É todo um esforço para injetar esses dados em tudo que fazemos, em outros projetos e para outras pessoas que precisam dessas informações.
Nós nos organizamos com expedições. Cada ano tem um foco. Esse ano estamos lidando com a agenda e demandas do filme, mas estamos dando um foco maior na Caatinga. Estamos com várias frentes em campo nesse momento, pessoas que contratamos temporariamente para fazer pequenas coisas e assim a gente vai. Logo no início do ano pensamos qual é a prioridade, quais são os principais focos, organizamos as expedições, montamos nosso cronograma anual e vemos toda a operação logística.
E todo mundo faz tudo na equipe. Quando chega uma pessoa na equipe, normalmente essa é a primeira coisa que eu falo, você é veterinário, mas você não vai ser só veterinário cá. Vamos precisar que você se envolva com logística, com captação de recursos, com divulgação, com notícia, você vai ter que dar entrevista, você vai ter que redigir post… Por isso que todo mundo é sobrecarregado, mas está todo mundo feliz.
E uma vez que foi amarrar toda a amplitude desse trabalho na narrativa de um filme de 80 minutos? Qual o maior repto em transcrever essa história e toda essa pesquisa para as telas?
João: O maior repto era fazer jus a essas histórias que nos foram contadas. Eu acho que não tinha repto maior que esse. A gente ficou ouvindo essas pessoas durante tanto tempo e tínhamos que fazer jus a essa trajetória tão poderosa e tão importante. O dia que eu fiquei mais nervoso foi o dia que eu mostrei o incisão pra Patrícia. Porque era a história dela. Pra mim era o maior repto, que ela se sentisse representada e que isso fizesse qualquer sentido. Eu acho que fez, mas aí é uma pergunta a ser feita pra ela [risos].
E houve um desvelo de todos nós, tanto da Patrícia quanto nós na ilhota de edição, para relatar esse trabalho de forma prática e didática. “Ó, nós estamos fazendo isso cá, para isso cá”. É uma pesquisa aplicada à conservação. Esses são os dados, de forma muito clara, sem ofender ninguém e chamando pro diálogo.
Um repto mais técnico e também de escuta, era ouvir todas as entrevistas e conseguir conectar essas histórias, juntar a fala de um com o outro, às vezes feitas em momentos diferentes também.
A questão das viagens por um Brasil imenso e com seus desafios, com suas paisagens incríveis e totalmente diferentes também foi um ponto. Dos seis biomas terrestres, visitamos cinco. E a história dos biomas ajudou bastante a costurar o filme tanto numa questão geográfica, quanto numa viagem temporal também, que não é linear, mas nos ajuda ter um primícias ali no Pantanal e finalizar com o primícias do projeto, na Mata Atlântica, no Morro do Diabo. Tem uma inversão, mas que ela acaba ajudando no roda dramático do filme.

Qual foi o período de gravação das imagens pro filme?
João: Nós usamos imagens do ror da INCAB, que são imagens mais antigas, de 1998. Gravamos a primeira entrevista que eu e a Paulina [Chamorro] fizemos com a Patrícia em setembro de 2019, na Baía das Pedras, para o Mulheres na Conservação. Depois voltei pro Pantanal em dezembro para gravar outra entrevista e mais imagens pro documentário do Mulheres. Logo houve esses dois tempos de entrevista, no final de 2019, e ao longo de 2025 e primícias de 2026, já na produção do filme da Anta.
Quem testemunhar esse filme vai estrear a usar a termo “anta” uma vez que preconização?
Patrícia: Eu vou responder que sim e um sim firme, porque eu acredito que o filme passa as mensagens de uma maneira muito clara. Esse “sim” vem do retorno que temos recebido nas exibições. A forma uma vez que as pessoas têm nos abordado, tanto pesquisadores, comunicadores, acadêmicos… quanto um monte de gente que está vindo acompanhando os “convertidos” e que também têm trazido esse retorno positivo. Eu sinto que as pessoas estão saindo do filme infinitamente melhor informadas sobre várias coisas e eu creio que mais inspiradas para contribuir com a desculpa.
João: Fora que elas são obrigadas, para conseguir o ingresso, a grudar um adesivo de “Anta é preconização” detrás do celular [risos].
Quais serão os próximos passos do filme? Haverá novas exibições locais? O que vocês planejam?
João: Já temos exibições marcadas em Campo Grande (MS), no dia 28 de julho de 2026, e em Teodoro Sampaio (SP), em 1º de agosto [acompanhe o calendário de exibições na página da INCAB]. Estão surgindo oportunidades de levar o filme para Manaus (AM), Fortaleza (CE), Paraty (RJ). O filme está descerrado para convites e queremos que essa mensagem seja compartilhada, desde eventos ligados ao meio envolvente a festivais de cinema. E, futuramente, trabalhar ele dentro da escola, entender com qual fita etária de estudante ele pode conversar melhor. Em qualquer momento, ele vai pra essa esfera do dedo de streamings ou qualquer tipo de plataforma.