Morcegos: animais incompreendidos e vilanizados

Morcegos: animais incompreendidos e vilanizados

Os morcegos sempre foram vistos uma vez que vilões, ligados a histórias de terror e temor por serem criaturas da noite. Ou por outra, muitas pessoas  os associam a doenças. Essa imagem dos morcegos ficou muito potente no imaginário popular, tanto que muitos acreditam nela sem questionar se é verdadeira. O problema é que essa teoria não é realista. Os morcegos vivem tanto nas cidades quanto na natureza e fazem coisas muito úteis, que a maioria das pessoas não nota. 

Muitas espécies comem insetos a noite toda, incluindo mosquitos e pragas agrícolas, outras ajudam a polinizar vegetais e a espalhar sementes, o que colabora para o promanação de novas árvores e a recuperação de áreas verdes. É importante lembrar que essas espécies não estão invadindo o nosso espaço. Elas já faziam segmento desses ambientes muito antes das cidades crescerem. Portanto, somos nós que estamos invadindo o espaço delas. 

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Mesmo assim, o temor em relação aos morcegos nem sempre está ligado unicamente à falta de informação, já que muitas pessoas continuam temendo esses animais mesmo conhecendo sua valor ecológica. Isso acontece porque os morcegos carregam fortes associações culturais relacionadas à trevas, doenças e histórias de terror. Tornar essa informação conseguível faz toda a diferença, pois reduz as percepções negativas. Entender o que os morcegos fazem muda a forma uma vez que eles são percebidos e abre caminho para uma convívio mais tranquila. 

Ensino ambiental é uma estratégia eficiente para diminuir o temor e preconceito sobre morcegos. Foto: Pilha Morcegos na Rossio

Muitos morcegos, mas alguns ameaçados

O Brasil abriga murado de 188 espécies de morcegos, distribuídas por diferentes ambientes e divididas em nove famílias e esse número coloca o Brasil entre os países com maior multiplicidade de morcegos do mundo. Em um levantamento da fauna publicado em 2024, o Brasil aparecia em quarto lugar na América do Sul em número de espécies, detrás de Colômbia, Equador e Peru. Mundialmente já são reconhecidas mais de 1.500 espécies de morcegos, com diferentes tamanhos, cores, comportamentos e hábitos alimentares. Há espécies que consomem frutos, néctar e insetos, além das espécies que se alimentam de sangue. Essa riqueza de espécies também ajuda a termos uma teoria dos desafios de conservação, pois atualmente, quatro espécies de morcegos estão classificadas uma vez que ameaçadas de extinção na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção: Natalus macrourus, Furipterus horrens, Lonchophylla dekeyseri e Lonchophylla bokermanni, mas as pesquisas continuam ampliando o conhecimento sobre a distribuição, a taxonomia e o estado de conservação das espécies e mesmo em um país com essa subida multiplicidade de morcegos, ainda há muito a desenredar.

Enfatizados uma vez que transmissores da raiva

A raiva é uma doença viral grave, que leva ao óbito, e que pode afetar qualquer mamífero, incluindo seres humanos. Os morcegos, muito uma vez que outros mamíferos, principalmente cães, gatos e primatas, podem transmitir a raiva. Entretanto,nem  todo morcego está infectado, a parcela de infecção nas populações de morcegos são muito baixas. Ou seja, somente a presença deles não representa risco. A transmissão ocorre principalmente pelo  contato com a seiva de um bicho infectado, uma vez que em mordidas, arranhaduras ou contato da seiva com mucosas ou ferimentos.

Por isso, ao encontrar um morcego tombado, morto, dentro de uma residência ou com um comportamento incomum, a recomendação é não tocar no bicho e manter crianças, animais domésticos afastados, e procurar orientação dos serviços municipais de saúde, vigilância ou controle de zoonoses. Em caso de acidentes uma vez que mordida, arranhão ou outro contato de risco, a pessoa deve lavar o lugar imediatamente com chuva e sabão e procurar o serviço de saúde. A raiva pode ser evitada com o tratamento indicado pelo serviço de saúde. É muito importante que as instruções sejam seguidas.

Quando a ciência vai onde as pessoas estão

Grande segmento do conhecimento sobre morcegos é encontrado facilmente em universidades, livros e artigos científicos e nem sempre esse conhecimento chega a lugares uma vez que a rossio do bairro ou a escola pública. É justamente nesses lugares que o temor e a desinformação sobre os morcegos encontram solo fértil para proliferar. 

Em 2025, o projeto Morcegos na Rossio levou ciência para onde as pessoas já estavam, em diferentes pontos da cidade do Rio de Janeiro. No Parque Madureira, por exemplo, atividades mostraram que nem todos os morcegos se alimentam de sangue. Já na Prainha, crianças descobriram que os morcegos são importantes para ajudar vegetais a nascer. Em turmas no  CAP-UERJ, as crianças que começaram a atividade com temor terminaram querendo tocar em todos os exemplares da coleção do projeto. Isso mostra que o temor não vem da experiência em si, mas sim do ignorância. Quando a informação é apresentada de forma simples, visual e conversada, a percepção pode mudar rapidamente.

Nesses eventos, é generalidade ver crianças e adultos que chegaram temerosos e cheios de preconceito, depois ficarem curiosas e interessadas nos morcegos. Isso não significa que o temor desapareça completamente, porque ele nem sempre é racional. Mesmo conhecendo a valor dos morcegos, algumas pessoas continuam sentindo receio. Ainda assim, entender melhor esses animais pode diminuir as reações negativas e ajudar as pessoas a enxergarem que eles também têm um papel importante na natureza. 

Quando as pessoas descobrem que morcegos controlam insetos, ajudam vegetais e só usam a cidade porque perderam espaço procedente, a forma de enxergar esses animais muda. E ainda que essa mudança nem sempre elimine o temor, é o primeiro passo para a conservação. Desmistificar os morcegos não é um pormenor do nosso trabalho, mas um esforço para prometer que eles continuem existindo.

Equipe do projeto Morcegos na Rossio. Foto: Pilha Morcegos na Rossio

Quando os morcegos ajudam a falar de saúde pública

Em agosto de 2025, o projeto lançou a campanha “Doe uma vez que um vampiro”. A teoria surgiu a partir de uma campanha de doação de sangue relacionada ao dia do vampiro, criado em 13 de agosto de 2002 pela Liz Marins, conhecida uma vez que Liz Vamp, filha do famoso cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O curioso é que os morcegos hematófagos, que se alimentam de sangue, têm um comportamento muito interessante: quando um deles não consegue se nutrir, os outros compartilham seu iguaria com ele. Esse comportamento de compartilhar e cuidar uns dos outros se tornou uma conexão perfeita para falar sobre a valor da doação de sangue. 

A campanha pediu para as pessoas doarem sangue em hemocentros e compartilharem essa ação nas redes sociais uma vez que forma de engajamento. Também foi proposta a geração de fichas de RPG inspiradas na campanha, conectando o universo dos vampiros, RPG e morcegos, na tentativa de fazer o bicho deixar de ser visto uma vez que um tanto relacionado a temor e doença, e se tornar uma figura que pode simbolizar a solidariedade. 

Uma semana para os morcegos

Essa não é a única forma de mudar a percepção sobre os morcegos. Outra iniciativa é a Batweek (Semana do Morcego) que trata-se de uma celebração internacional que acontece todos os anos entre os dias 24 e 31 de outubro (https://batweek.org/). É um momento criado para invocar a atenção das pessoas para a valor dos morcegos e para a premência de proteger esses animais. 

A proposta da campanha é justamente mudar essa visão negativa sobre os morcegos. Ao longo da semana, ocorrem diversas atividades educativas e ações de divulgação científica. A teoria é mostrar, de forma simples, o papel que os morcegos têm na natureza, ou seja, que são animais que ajudam o envolvente a funcionar, mesmo que muita gente não perceba. 

A MurciSemana, é a Bat Week  que acontece em países da América Latina, incluindo o Brasil. Nela, universidades, ONGs e projetos se juntam para falar sobre morcegos e incentivar ações de conservação. O projeto Morcegos na Rossio participa da campanha levando informação para as redes sociais. Durante esse período, são feitas postagens no Instagram, com conteúdos em formato de cards, vídeos e lives com pesquisadores convidados. Esses encontros ajudam a aproximar o público do tema e abrem espaço para perguntas, curiosidades e conversas diretas sobre morcegos e principalmente sua conservação.

Outro bom exemplo é a Escrutinação Anual de Morcegos que acontece todos os anos, geralmente em dezembro, e reúne pessoas de vários países interessadas em estudar e proteger esses animais. A iniciativa existe desde 2012 e procura conectar pesquisadores, estudantes e projetos que trabalham com morcegos, ao mesmo tempo em que aproxima esse conhecimento do público. 

Durante o evento, acontecem tanto atividades científicas quanto educativas. De um lado, equipes realizam capturas e registram as espécies encontradas em diferentes regiões e isso ajuda a entender onde os morcegos estão, quais espécies existem em cada lugar e uma vez que elas vivem. Uma vez que essas atividades acontecem ao mesmo tempo em vários pontos, os dados podem ser comparados e ajudam a formar um quadro mais grande. 

Também são realizadas ações abertas ao público, uma vez que oficinas, exposições e conversas. Nessas atividades, as pessoas podem saber melhor os morcegos, entender suas características e desenredar por que eles são importantes para o meio envolvente. 

O projeto Morcegos na Rossio já participou de algumas edições da descrição. Em diferentes anos, as atividades aconteceram em locais uma vez que Magé, Mangaratiba e o Parque Lage, no Rio de Janeiro. Além do trabalho de campo, também foram feitas ações educativas, incluindo transmissões ao vivo e momentos de troca com estudantes, profissionais e equipes das áreas onde o evento ocorreu. Porém, mesmo com uma grande multiplicidade de espécies, ainda são poucas as iniciativas voltadas para a conservação dos morcegos no Brasil, principalmente quando ligadas à ensino ambiental. 

A rede social uma vez que instrumento de ensino ambiental

Uma grande segmento da sociedade brasileira está presente nas redes sociais, e informações podem chegar a um variado grupo de pessoas que usam redes sociais para buscar informação e aprender coisas novas. Com o @projetomorcegosnapraca não é dissemelhante. O Instagram acabou virando uma extensão do projeto, fora dos eventos presenciais. Por lá, são postadas curiosidades sobre morcegos, informações sobre espécies e comportamentos pouco conhecidos. Esse tipo de teor ajuda as pessoas a enxergarem os morcegos de outra forma, sem tanto preconceito. 

O perfil também responde dúvidas e orienta pessoas que encontram morcegos em mansão ou em outros lugares, muitas vezes, uma simples orientação evita que o bicho seja machucado ou morto. As redes sociais ajudam o projeto a chegar em pessoas que talvez nunca participariam de um evento presencial, com uma rápida circulação de informação que ajuda a disseminar a compreensão de que morcegos não são monstros, mas sim criaturas importantes com as quais é provável conviver.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))repercussão. Buscamos nestes espaços prometer um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.



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