Unidades de conservação estocam 33 anos de emissões nacionais
Levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) feito a pedido do Observatório do Clima mostra que, no Brasil, as unidades de conservação terrestres, em todas as categorias, armazenam 19,4 gigatoneladas de carbono. Convertido para CO2, esse estoque equivale a 33 anos de emissões brasileiras de gases de efeito estufa no ritmo atual – 2,145 GtCO2e em 2024, o último oferecido disponível. Os recentes ataques do Congresso às áreas protegidas, no entanto, colocam esse estoque em risco.
“Os projetos em tramitação ameaçam um patrimônio ambiental de todos os brasileiros e o estabilidade climatológico mundial”, diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam, em referência às propostas do Legislativo que visam reduzir, reclassificar ou extinguir unidades de conservação no Brasil. “Os parlamentares que apoiam esses projetos podem transformar o Congresso na principal nascente de emissões de gases de efeito estufa do país”, reforça.
A estudo de Moutinho levou em conta o recente rebaixamento de 40% da extensão da Floresta Vernáculo do Jamanxim, no Pará, para Dimensão de Proteção Ambiental, e outras propostas no Congresso que encolhem, eliminam ou mudam de categoria áreas porquê a APA da Baleia Franca (SC), a Estação Ecológica de Taiamã (MT) e o Parque Vernáculo de Albardão (RS), para referir somente algumas.
A recém-rebaixada Flona do Jamanxim, por exemplo, já está entre as dez unidades de conservação que mais emitiram carbono, segundo a estudo do Ipam. No ano de sua geração, em 2006, o estoque de carbono da unidade era de muro de 184 milhões de toneladas. Em 2025, esse número caiu para muro de 153 milhões de toneladas, uma perda relativa de 16,54%.
Esta redução mostra que o desmatamento continua ocorrendo na unidade, mesmo posteriormente a definição de seus limites, há 20 anos. De veste, uma nota técnica de organizações da rede do OC apontou que 86,6 milénio hectares foram desmatados e ocupados ilegalmente posteriormente a geração da Flona, dos quais mais de 36 milénio foram ao pavimento entre 2018 e 2025.
Os números colocam a unidade na terceira posição entre as UCs federais que mais perderam seus estoques de carbono. No ranking universal de perdas entre todas as áreas protegidas do Sistema Vernáculo de Unidades de Conservação (SNUC), Jamanxim fica na 10ª posição.
Estudos publicados por Moutinho e outros cientistas já mostravam que as principais categorias de áreas protegidas da Amazônia brasileira são escudos contra o desmatamento. Fora delas, a devastação é muito maior. “Desde a geração dessas unidades [avaliadas] até 2022, a perda de vegetação nativa dentro delas ficou em torno de 6,5%, enquanto, fora delas, foi de pelo menos 30%”, lembra ele.
O perito do Ipam também alerta que as alterações impostas pelo Legislativo podem ter efeitos imediatos nas áreas protegidas e no clima. “Qualquer mudança que reduza a proteção resulta, no dia seguinte, em emissões decorrentes de desmatamento e de lume, principalmente em anos de El Niño”, ressaltou.
Diante deste contexto, Moutinho lança um apelo aos candidatos às eleições deste ano e parlamentares em tirocínio: enfraquecer o SNUC produz efeitos que vão muito além das regiões diretamente afetadas. “Não é uma consequência somente lugar ou para alguns grupos. É para o país inteiro e também para além das fronteiras brasileiras”, diz.
“Estamos no meio de uma emergência climática. O que está em discussão não é simplesmente a redução de uma extensão protegida. Os parlamentares precisam olhar não somente para as demandas políticas que recebem, mas também para aquilo que a ciência vem alertando”, complementa.
Nota metodológica – A estudo dos estoques foi feita cruzando o planta de estoque de carbono original da Quarta Informação Vernáculo/MCTI (em tC/ha) com dois dados mais atuais disponíveis: a base de UCs do MMA (inclui UCs criadas até 2026) e o Prodes/INPE (inclui áreas de desmatamento realizados até 2025 no Tapado, Amazônia e Mata Atlântica, e até 2024 na Caatinga, Pampa e Pantanal). O intercepção dos estoque de carbono foi feito considerando três momentos: o carbono original, previamente a qualquer desmatamento; o carbono no momento da geração de cada UC, retirando as áreas desmatadas pelo Prodes até a data de geração; e o carbono mais atual, retirando as áreas desmatadas pelo Prodes até o momento mais recente disponível. Para conversão das perdas de estoque em emissão (tCO2), o carbono totalidade obtido (tC) foi multiplicado pelo fator de 44/12 (IPCC, 2006).