O desapego radical que deu lugar a um novo lar
Last Updated on: 1st julho 2026, 04:26 pm
Você teria coragem de vender a sua mansão com tudo dentro? Móveis, livros, discos, quadros e memórias… Essa decisão pode parecer um duelo de desapego, mas foi exatamente isso o que o diretor de produtos Ademir Bueno e o arquiteto André Araújo Bueno fizeram com seu vetusto apartamento. O espaço tinha sido planejado pelo par para comemorar os 10 anos de consórcio, e de vestimenta o resultado ficou do jeito que sonharam. A estrear pela localização: no sétimo marchar do prédio modernista Helena Arluzia, construído em 1965 no bairro Higienópolis, com projeto de Américo Rodrigues Campello.
Com tudo pronto, os dois passaram 3 anos vivendo ali, até que surgiu uma proposta irrecusável de compra com a ‘porteira fechada’ — o que nesse caso englobava literalmente todos os itens visíveis do apê: “Só levamos o que estava dentro dos armários”, eles lembram. Para muitos, deixar para trás partes de sua história poderia ser um processo multíplice, mas o par encarou a situação uma vez que uma oportunidade de fabricar alguma coisa novo, feito uma tela em branco pronta para ser preenchida.
O que eles ainda não imaginavam é que essa novidade ‘tela’ estaria a exclusivamente alguns andares de intervalo. Na quadra da venda, uma vizinha do quinto marchar entrou em contato oferecendo seu imóvel, e uma vez que Ademir e André já gostavam muito do prédio e de sua rotina pela vizinhança, eles não pensaram duas vezes e toparam a missão de realizar uma segunda reforma no mesmo endereço, porém tendo o desvelo de não repetir as escolhas estéticas do projeto anterior. “Nós queríamos um apartamento que não lembrasse em zero o outro. Por ser arquiteto, eu me cobrava o tempo todo para não reproduzir”, explica André.






Um pouco que contribuiu para que o novo apartamento tivesse uma identidade única foi a própria base estrutural, já que o imóvel ainda mantinha a feição original do período da construção. O piso, por exemplo, estava todo forrado de carpete virente musgo, o que acabou preservando os tacos de madeira ao longo das décadas. Uma vez que o projecto do par era edificar um lar espaçoso, sem tantas barreiras visuais e perfeito para festejar e receber muitos amigos, André eliminou a maioria das paredes internas, aproveitando o quebra-quebra para primar uma poste redonda de 1m de diâmetro na sala e deixar à mostra a laje de concreto.
Talvez uma das partes mais divertidas de desapegar de tudo o que tinham anteriormente tenha sido justamente o tirocínio de fabricar novas histórias do zero, recolhendo memórias em cada experiência vivida. “Foi um processo muito oriundo, deixamos intercorrer. Somos bastante práticos nesse sentido, e nosso grande trunfo é saber juntar as coisas. Se eu te dissesse que iríamos usar no mesmo envolvente 3 cadeiras de um estádio, algumas caixas de uma loja de construção de Santarém, uma mesa gigante e uma ofídio de 6 metros de madeira, talvez não fizesse o menor sentido na teoria, mas a gente faz de um jeito que parece que foi tudo pensado”, eles contam.






É evidente que o repertório de vida e a própria personalidade do par aprimoraram esse olhar e talento na curadoria de peças. Os dois têm facilidade de se envolver com pessoas e lugares, logo boa secção dos objetos carrega curiosidades. É o caso do banquinho de madeira comprado em um bar no Recôncavo Baiano, de um outro banco feito pelo avô de André quando ele era petiz, da miniatura do padre “Ciço” que recebe quem entra, e da placa do multiartista Ramsés Marçal que diz “Só quem pode com a cachaça é a garrafa!’.
Com itens do imaginário popular e obras de arte renomadas convivendo lado a lado, Ademir e André traduzem seu modo de enxergar a cultura brasileira, fugindo de um patriotismo forçado ou da teoria de ‘Brasil profundo’. “A gente gosta dos utensílios vernaculares, da arte que emociona, dos cheiros… logo é tudo muito intuitivo. Eu sempre prezo por isso nos meus projetos, dar liberdade para o preenchimento do espaço com as verdades do cliente, que nesse caso somos nós que dividimos esse mesmo interesse”, André diz.





Para além da reforma que trouxe a integração totalidade da superfície social, outro pormenor determinante no layout foi a obra do artista baiano Mano Penalva: a cadeira ‘A benção’. “Ela ajudou a nortear a disposição das salas e também o caminho da nossa coleção, que, com exceção das criações de Mira Schendel e Emanoel Araújo, é em sua maioria composta por jovens artistas”, explica o par. Pensando no uso cotidiano dos ambientes e também nos momentos de sarau, a sala ampla permite diferentes configurações: o telão transforma a mansão em cinema, os almoços de termo de semana terminam com todos relaxados no sofá, e os dias de trabalho no home office ganham a companhia dos discos de vinil.
Outros dois pontos de extrema preço para os moradores são a cozinha e o banheiro principal. Uma vez que André é enamorado por culinária, desde o início sua intenção era ter um lugar onde os convidados pudessem permanecer ao volta durante o preparo das refeições, compartilhando fofocas e drinques enquanto experimentam os pratos antes de sentarem à mesa. O hobby é levado tão a sério que o primeiro equipamento da mansão novidade foi o forno, comprado por recomendação de uma amiga chef.
Já o banheiro foi idealizado para um momento oposto: o de introspecção e autocuidado. “Para nós o banho é sagrado, aquela hora que você deixa a chuva levar tudo. Por isso, eu sempre penso em um lugar que precisa transmitir silêncio e leveza, que seja o primeiro estágio do sota antes de chegar ao quarto”, André define. As vegetalidade, a luz oriundo e os acabamentos brancos reforçam essa sensação tanto no espaço do par quanto no banheiro de visitas.



Depois do tirocínio de redesenhar o morar e lapidar cada escolha, pormenor por pormenor, resta uma última incerteza. Se alguém propusesse comprar nascente apartamento com tudo dentro novamente, eles aceitariam? A resposta vem fácil: “Sem pensar 2 vezes!”, brincam. Finalmente, o que faz nascente lar é quem vive ali. São os próprios moradores, com as semelhanças e diferenças que os unem há 20 anos, que preenchem os cantos desta mansão — e certamente das próximas.
Texto e Coordenação de tarifa por Bruna Lourenço | Fotos por Leila Viegas