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Uzbequistão: Património, jardins e arte no coração da Ásia

Uzbequistão: Património, jardins e arte no coração da Ásia

Há destinos que se visitam pela curiosidade histórica. Outros pela paisagem. Outros ainda pela gastronomia ou pela arquitetura. O Uzbequistão reúne tudo isso e acrescenta alguma coisa mais vasqueiro: a capacidade de surpreender continuamente.

Durante quase duas semanas, o país revelou-se um território onde a História continua profundamente presente no quotidiano. A antiga Rota da Seda não é cá unicamente uma evocação romântica; permanece visível nas cidades monumentais, nos bazares, nos tecidos, nos gestos dos artesãos e na forma calorosa porquê os viajantes são recebidos. Ao longo desta viagem, atravessámos cidades lendárias — Tashkent, Khiva, Bukhara, Samarcanda, Kokand e o vale de Fergana — e encontrámos um país simultaneamente monumental e quebradiço. Monumental nas praças, madrassas, minaretes e palácios. Quebrável nos jardins cuidados, nas amoreiras plantadas ao longo das ruas, nos bordados suzani, no trabalho minucioso da seda, da cerâmica e do papel artesanal.

O Uzbequistão revelou-se também profundamente sensorial: o perfume das especiarias nos mercados, o pão completado de transpor do forno, as romãs abertas sobre as bancas, o som da chuva nos tanques antigos, o clarão das cúpulas sob o sol intenso da Ásia Médio. E talvez seja precisamente isso que torna esta viagem tão próprio: a sensação regular de galgar um lugar onde a cultura não está encerrada em museus, mas continua viva,

Tashkent, uma capital-jardim entre modernidade e natureza

Tashkent foi uma das grandes surpresas da viagem. Muitos imaginam uma capital austera, marcada unicamente pela legado soviética, mas encontram uma cidade ampla, verdejante, organizada e profundamente arborizada. Há parques, fontes, jardins e longas avenidas sombreadas por árvores maduras que suavizam a monumentalidade urbana e tornam acidez surpreendentemente aprazível de percorrer.

Depois do terramoto devastador de 1966, Tashkent foi amplamente reconstruída pela União Soviética, transformando-se numa espécie de laboratório arquitetónico e urbanístico da Ásia Médio. O resultado é uma cidade um, onde edifícios brutalistas, mosaicos modernistas, grandes espaços públicos e referências ornamentais orientais convivem de forma inesperadamente harmoniosa.

A cidade surpreende também pelas estações de metro, verdadeiras galerias subterrâneas decoradas com mármores, lustres, mosaicos e referências à ciência, à literatura e à identidade uzbeque. Tashkent demonstra porquê a monumentalidade soviética pode coexistir com jardins, sombra e qualidade urbana.

Jardim Botânico de Tashkent

É provavelmente no Jardim Botânico de Tashkent que se percebe melhor esta relação entre cidade, Natureza e adaptação climática. Considerado o maior jardim botânico da Ásia Médio, ocupa muro de 65 hectares e funciona simultaneamente porquê parque urbano, meio científico e coleção viva de espécies vegetais oriundas de diferentes partes do mundo. Fundado nos anos 1920 e desenvolvido na sua localização atual a partir da dez de 1950, tornou-se um importante meio de investigação fitologia e aclimatação de vegetalidade numa região sujeita a verões extremamente quentes e invernos rigorosos.

O espaço impressiona não unicamente pela dimensão mas pela variação paisagística. Ao longo dos caminhos sucedem-se bosques, lagos, clareiras, coleções botânicas organizadas por regiões geográficas e zonas onde a vegetação cria ambientes completamente distintos. Existem espécies provenientes da Ásia Médio, do Extremo Oriente, da Europa e da América do Setentrião, cuidadosamente adaptadas ao clima continental do Uzbequistão.

As árvores desempenham cá um papel forçoso. Choupos, plátanos, bétulas, coníferas, carvalhos, amoreiras e inúmeras espécies ornamentais criam um sensação de frescura rara. Em vários momentos, o jardim faz olvidar completamente a cidade que o rodeia.

A chuva surge também porquê elemento estruturante. Pequenos canais, reservatórios e lagos ajudam a fabricar microclimas e reforçam a sensação de tranquilidade. A gestão da chuva, tão forçoso em toda a Ásia Médio, adquire cá uma dimensão paisagística particularmente elegante.

Khiva, a cidade dourada do deserto

Chegar a Khiva é porquê entrar numa pintura antiga. A cidade muralhada de Itchan Kala vigia um conjunto arquitetónico muito íntegro: muralhas, minaretes, madrassas, mesquitas, palácios e ruas estreitas de terreno dourada criam uma atmosfera quase irreal.

Khiva teve grande valimento sobretudo entre os séculos XVIII e XIX, quando se afirmou porquê importante meio político e mercantil da região. Hoje, continua a impressionar pela autenticidade do conjunto urbano.

Sendo também conhecida porquê “a cidade dos poços”, lembrando a valimento vital da chuva numa região marcada pelo clima estéril, em Khiva, a arquitetura foi desenhada para proteger do calor intenso e do indiferente do inverno: paredes espessas, fachadas relativamente fechadas, pátios interiores e ruas estreitas criam zonas de sombra e frescura.

Ao final da tarde, a cidade ganha tonalidades douradas extraordinárias. E, à noite, transforma-se completamente. O jantar num rooftop com vista sobre os minaretes iluminados foi um momento memorável. Vista de cima, Khiva parece um cenário cinematográfico: silenciosa, ocre, iluminada suavemente contra o firmamento escuro do deserto.

Bukhara, transacção, espiritualidade e jardins de sombra

Bukhara possui uma graduação dissemelhante. Mais ampla, mais viva, mais labiríntica, vigia a atmosfera duma antiga cidade mercantil onde durante séculos passaram caravanas vindas da China, da Pérsia, da Índia e do Mediterrâneo. Conhecida porquê “a cidade dos tanques”, Bukhara organizou-se historicamente em torno da chuva. Os antigos reservatórios urbanos eram espaços essenciais de provimento, convívio e frescura. A cidade está repleta de monumentos: madrassas, mesquitas, bazares cobertos, caravançarais e o impressionante minarete Kalon, que durante séculos serviu porquê referência visual para os viajantes da Rota da Seda.

Foi também uma das experiências divertidas da viagem: percorrer Bukharade tuk-tuk à noite, atravessando ruas antigas iluminadas, entre mercados e monumentos históricos. Há alguma coisa de mágico nesta convívio entre tradição e vida contemporânea.

Nos periferia da cidade, a visitante ao Palácio Sitorai Mokhi-Khosa revelou um lado mais aristocrático e paisagístico do Uzbequistão. Residência de verão dos últimos emires de Bukhara, o multíplice integra jardins, pavilhões, espelhos de chuva e interiores ricamente decorados, combinando influências orientais e europeias.

Os jardins surgem cá porquê resposta ao clima: espaços de frescura, contemplação e sombra. Num território de verões intensos, o jardim é um lugar forçoso de conforto e formosura.

Samarcanda: entre o esplendor timúrida e a novidade Silk Road City

Poucas cidades no mundo possuem um nome tão onusto de imaginário porquê Samarcanda. Durante séculos foi um dos mais importantes centros culturais e comerciais da Ásia Médio e atingiu o seu auge no século XIV, durante o poderio de Tamerlão.

A Rossio do Registão permanece uma das mais impressionantes praças monumentais do planeta. As três madrassas que a enquadram criam uma formação arquitetónica de rara simetria, revestida pelos famosos azuis-turquesa e cobalto que parecem refletir o próprio firmamento da Ásia Médio.

Subir as escadas estreitas de um minarete no Registão foi uma experiência inolvidável. Centenas de degraus altos e irregulares obrigavam a subir lentamente, quase em esforço ritual, até entender vistas deslumbrantes sobre a terreiro e a cidade.

À noite, Samarcanda torna-se ainda mais teatral. A iluminação do Registão cria um envolvente quase irreal, onde os padrões geométricos, os mosaicos e as cúpulas parecem suspensos no escuro. Samarcanda revelou também uma face inesperadamente contemporânea. A novidade zona da Silk Road City, construída recentemente junto a um grande meio sintético, mostra a sofreguidão moderna do Uzbequistão e a vontade de transformar Samarcanda num importante meio turístico internacional.

Hotéis contemporâneos, jardins impecavelmente tratados, fontes, passeios arborizados, zonas pedonais e novos edifícios criam uma espécie de novidade Samarcanda voltada para o horizonte. O meio organiza toda a formação urbana e funciona porquê eixo cénico e paisagístico, refletindo edifícios, vegetação e luzes ao final do dia.

Depois das cidades antigas, esta novidade frente urbana mostrou um país em transformação, atilado ao turismo internacional e determinado em valorizar o seu património sem deixar de edificar uma imagem moderna e sofisticada.

As amoreiras, o papel e a seda

Uma das visitas muito interessantes foi a fábrica artesanal de papel junto a Samarcanda. Ali, foi provável escoltar todo o processo tradicional de fabrico do famoso papel de Samarcanda, produzido a partir da casca dos ramos jovens de amoreira.

Os ramos permanecem de molho para facilitar a limpeza manual das fibras. Depois seguem para longas cozeduras, tornando-se progressivamente mais macios. Com a ajuda de moinhos de chuva, a filamento transforma-se em pasta de papel, posteriormente prensada, seca e polida. A amoreira revela cá toda a sua valimento civilizacional. Não serve unicamente de iguaria ao bicho-da-seda; fornece também matéria-prima para o papel, sombra para os pátios e presença regular na paisagem urbana.

A seda foi outro dos momentos marcantes da viagem. Descobrimos porquê a partir dum único casulo se podem obter vários quilómetros de fio extremamente fino. O fio é fervido com chuva, vinagre e misturas tradicionais mantidas em sigilo familiar.

As tintas naturais usadas nos tecidos provêm de romã, noz, cebola, raiz de amoreira, cochonilha e cinzas. O quartzo e o sal ajudam a fixar as cores. A técnica ikat, que consiste em tingir os fios antes da tecelagem, reservando determinadas zonas através de amarrações, resulta em tecidos vibrantes, com padrões fluidos e ligeiramente desfocados, impossíveis de reproduzir industrialmente com a mesma subtileza.

Os bordados suzania crescentam outra estrato artística: grandes composições têxteis onde flores, sóis, frutos e motivos vegetais criam verdadeiros jardins bordados.

Kokand e o vale de Fergana, o Uzbequistão mais verdejante e verdadeiro

Depois da monumentalidade de Samarcanda, Bukhara e Khiva, o vale de Fergana revelou um outro Uzbequistão. Mais verdejante, mais agrícola, mais íntimo e surpreendentemente verdadeiro.

Cá, o ritmo abranda. As cidades deixam de viver unicamente da memória monumental da Rota da Seda e aproximam-se mais da terreno, das montanhas, das árvores, dos mercados locais e da vida quotidiana. Há menos turistas, uma sensação rara de invenção genuína.

Rodeado por cadeias montanhosas e historicamente fértil graças à riqueza relativa de chuva, o vale de Fergana é uma das regiões agrícolas mais importantes da Ásia Médio. A paisagem muda gradualmente: aparecem campos cultivados, vinhas, hortas, pomares, árvores de fruto e longos alinhamentos de amoreiras e romãzeira.

Foi talvez nesta região que se percebeu melhor a profunda relação entre Natureza, artesanato e cultura no Uzbequistão. Durante décadas, o país foi um dos maiores produtores de algodão da região, sobretudo durante o período soviético. O vale de Fergana desempenhou um papel meão nessa produção agrícola. Hoje, apesar das transformações económicas, continua a viver uma poderoso relação ao cultivo, aos tecidos e às tradições artesanais.

Kokand, antiga capital do poderoso Canato de Kokand entre os séculos XVIII e XIX, possui uma atmosfera muito distinta das grandes cidades timúridas. Menos monumental talvez, mas mais humana, mais discreta e profundamente elegante. O Palácio Khudayar Khan continua a ser o símbolo maior da cidade. Construído no século XIX, impressiona pelos mosaicos policromáticos, pelos padrões geométricos, pelos pátios interiores e pela exuberância decorativa das fachadas. O prédio testemunha uma era de prosperidade e refinamento cultural numa região que foi durante séculos ponto estratégico das rotas comerciais da Ásia Médio.

O que mais marca em Kokand e Fergana, no entanto, não é unicamente o património construído. É a atmosfera. As ruas parecem mais tranquilas. Os mercados mais locais. As pessoas aproximam-se com curiosidade genuína e uma simpatia desarmante. Em muitos momentos, havia a sensação de que o turismo internacional ainda passa cá discretamente, permitindo um contacto mais verdadeiro porquê quotidiano uzbeque.

As oficinas artesanais visitadas na região reforçaram essa relação profunda entre território e geração. A seda continua associada às amoreiras cultivadas localmente; os pigmentos naturais utilizados nos tecidos e pinturas provêm de vegetalidade, minerais e frutos; e a própria cerâmica nasce da greda retirada das camadas mais profundas do solo. Em Fergana, percebe-se claramente porquê a paisagem continua a nutrir o artesanato e a identidade cultural da região. Os mercados tornaram-se também uma das imagens mais vivas desta lanço da viagem. Bancas carregadas de frutas maduras, frutos secos, especiarias, pão tradicional e tecidos coloridos criavam cenários de enorme riqueza sensorial. O perfume dos melões, das ervas aromáticas e das romãs misturava-se com o movimento regular das pessoas e coma música que surgia espontaneamente em muitos espaços públicos.

Foi também nesta região que mais se destacou o orgulho nas roupas tradicionais. Mulheres com vestidos ikat coloridos, bordados delicados e tecidos luminosos davam às ruas uma elegância muito própria, quase cinematográfica. O vale de Fergana trouxe assim uma dimensão forçoso à viagem: mostrou que o Uzbequistão não é unicamente feito de cidades monumentais e cúpulas azuis. Existe também um país mais rústico, mais verdejante, mais artesanal e profundamente humano.

Rishton, a arte da cerâmica

Em Rishton, no vale de Fergana, conhecemos uma das mais antigas tradições cerâmicas da Ásia Médio. Os artesãos utilizam greda mais resistente e plástica, extraída sobre dois metros de profundidade. A produção mantém métodos tradicionais: preparação manual da greda, emprego de esmaltes naturais, pigmentos minerais, quartzo, caulino e cinzas vegetais. Particularmente interessante é o uso da vegetal Climacoptera, típica das zonas desérticas e salinas, utilizada na formação de esmaltes tradicionais. As peças passam depois por várias fases de pintura e cozedura, revelando os famosos azuis e verdes que tornaram Rishton conhecida internacionalmente.

Paisagem, vinho e hospitalidade

O Uzbequistão surpreendeu também pela produção vitivinícola. A visitante à vinícola Uzumfermer, perto de Tashkent, mostrou um país em transformação, onde tradição agrícola e turismo se encontram.

Entre vinhas, jardins e montanhas, provámos vinhos brancos, tintos, rosés, espumantes e vinho laranja — produzido a partir de uvas brancas fermentadas comas películas, adquirindo maior estrutura e tonalidade âmbar.

A marcha na serra revelou outra faceta do país: paisagens abertas, horizontes secos, vegetação resistente e um silêncio integral. O mais marcante terá sido sempre o contacto humano. Em cada cidade encontrámos pessoas acolhedoras, orgulhosas da sua cultura, da música, das roupas tradicionais e do património. O Uzbequistão não vive recluso ao pretérito. Vive em diálogo permanente com ele.

Uma viagem que permanece

Ao tornar, fica sobretudo uma sensação de encantamento. O Uzbequistão revelou-se um país seguro, culturalmente riquíssimo e visualmente inolvidável. Das cidades monumentais às paisagens férteis do vale de Fergana, o país revelou uma variação muito maior do que a imagem clássica da Rota da Seda poderia sugerir.

As cúpulas azuis de Samarcanda, os jardins de Tashkent, os mercados de Bukhara, as noites douradas de Khiva, o som dos teares, o cheiro do pão quente, a delicadeza dos artesãos e a hospitalidade regular criaram uma experiência rara. A antiga Rota da Seda continua cá viva— não unicamente nos monumentos, mas nas pessoas, nas árvores, nos tecidos, nos mercados e nos gestos — e talvez seja precisamente isso que torna o Uzbequistão tão próprio: a capacidade de transformar a história numa experiência profundamente humana.

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