O mundo pós-Trump: a reconstrução da governança ambiental global
Perguntar que mundo existirá depois de Donald Trump não significa somente refletir sobre a política norte-americana em seguida o fecho de seu ciclo de poder. A questão mais profunda é saber o que restará da arquitetura de cooperação internacional que, apesar de suas insuficiências, foi construída durante décadas para enfrentar problemas que nenhum Estado é capaz de resolver isoladamente.
Essa questão torna-se particularmente grave no campo ambiental. A segunda governo Trump não se limitou a modificar políticas ambientais domésticas. Sua orientação atingiu mecanismos centrais da própria governança ambiental internacional.
Em janeiro de 2026, a Vivenda Branca determinou a retirada, a cessação da participação ou do financiamento norte-americano de dezenas de organismos, convenções e estruturas internacionais, alcançando instituições diretamente relacionadas ao clima, biodiversidade, pujança renovável, florestas, oceanos, chuva e produção científica.
Entre elas encontram-se a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o Pintura Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), a Filial Internacional de Vontade Renovável (IRENA) e outras organizações ambientais internacionais.
O próprio governo norte-americano apresentou essas decisões uma vez que segmento de uma política destinada a “restabelecer soberania” e alongar os Estados Unidos de organismos considerados “incompatíveis com seus interesses nacionais”.
Isso permite julgar o quanto interesses domésticos podem estar dissociados de avanços humanitários, no momento em que a crise ambiental planetária exige crescente cooperação internacional.
A governança ambiental global foi construída progressivamente, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, quando a humanidade começou a reconhecer que determinados problemas ambientais ultrapassavam fronteiras nacionais.
A Conferência de Estocolmo de 1972, a geração do Programa das Nações Unidas para o Meio Envolvente, a Conferência do Rio de Janeiro de 1992, as convenções sobre clima e biodiversidade, o Protocolo de Kyoto, o Negócio de Paris, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e inúmeros tratados sobre oceanos, espécies, substâncias químicas e proteção dos ecossistemas constituíram etapas dessa construção.
Por trás desses instrumentos existia um princípio fundamental: a soberania dos Estados não é suficiente para governar processos ecológicos que atravessam fronteiras.
Vivemos em atmosfera compartilhada, oceanos interdependentes, biodiversidade que constitui sistemas ecológicos que não obedecem às divisões políticas, onde grandes florestas interferem na circulação atmosférica e nos regimes de chuva, onde a poluição atravessa territórios e a mudança climática transforma emissões produzidas localmente em impactos distribuídos globalmente.
Quando Trump recolocou “soberania econômica” contra essa interdependência, isso assumiu significância maior do que a política ambiental de um governo. Demonstrou que o interesse momentâneo e preponderante de uma país pode suscitar o desarrimo dos avanços científicos e humanitários construídos por décadas.
Seria equivocado atribuir toda a crise da governança ambiental internacional a Donald Trump. O sistema multilateral ambiental já apresentava limitações importantes. Países desenvolvidos e em desenvolvimento continuam divergindo sobre responsabilidades históricas, financiamento e recta ao desenvolvimento.
A governança climática internacional não constitui um sistema único, concentrado e hierarquicamente organizado. Robert Keohane e David Victor, renomados cientistas políticos e acadêmicos norte-americanos, propuseram compreendê-la uma vez que um “regime multíplice” (regime complex): um conjunto de instituições, tratados, organizações, normas e mecanismos parcialmente sobrepostos, conectados entre si, mas sem uma mando medial capaz de coordená-los integralmente.
Essa formulação ajuda a compreender tanto a força quanto a fragilidade da governança ambiental contemporânea. A literatura sobre governança ambiental global mostra que a fragmentação institucional não constitui somente uma lacuna ocasional do multilateralismo: tornou-se uma de suas características estruturais.
A retirada dos EUA fragiliza instituições, financiamento e capacidade científica, mas não necessariamente paralisa todo o sistema. O problema fundamental passa a ser uma vez que transformar um regime multíplice e fragmentado em uma arquitetura suficientemente articulada.
Em 2023, murado de US$ 7,3 trilhões foram direcionados para atividades consideradas prejudiciais à natureza, enquanto aproximadamente US$ 220 bilhões foram destinados a soluções baseadas na natureza.
Portanto, a governança ambiental global sofre com a enorme intervalo entre compromissos diplomáticos e funcionamento concreto da economia mundial.
Organizações internacionais relacionadas a pujança, florestas, oceanos e recursos naturais permitem apinhar dados, estabelecer padrões e coordenar políticas. Quando essas estruturas são enfraquecidas, não desaparecem somente reuniões diplomáticas. Enfraquece-se a própria capacidade coletiva da humanidade de compreender, antecipar e reger riscos ambientais planetários.
É por isso que a discussão sobre o mundo pós-Trump ultrapassa a política norte-americana. A redução da participação dos EUA cria um vazio, mas não representa necessariamente o término da governança ambiental internacional. Expõe, sobretudo, sua premência de reforma em bases mais sólidas, nas quais União Europeia, China, Brasil, Índia, países africanos, pequenos Estados insulares e outras potências médias possam ocupar espaços maiores.
Uma governança multipolar pode ampliar a participação internacional e tornar o sistema mais resistente à retirada de um de seus integrantes. Mas também pode aprofundar a fragmentação, produzir blocos concorrentes e transformar clima, minerais críticos, pujança, biodiversidade e até chuva e víveres em instrumentos da competição geopolítica.
Neste cenário o Brasil poderá comprar relevância privativo. Não somente porque abriga grande segmento da Amazônia ou porque possui extraordinária biodiversidade. Sua valimento poderá decurso de sua postura e capacidade de tutelar uma teoria política mais abrangente: a reconstrução da governança ambiental global uma vez que exigência de segurança internacional.
A conservação da Amazônia depende do clima, a lavoura brasileira depende dos regimes de chuva e a geração hidrelétrica depende dos ciclos hidrológicos. As cidades dependem de adaptação às ondas de calor, enchentes e eventos extremos. Tutorar a governança ambiental global é, portanto, também tutelar o interesse pátrio brasílico. Mas o Brasil precisará superar uma incoerência para exercitar multilateralismo ambiental no exterior.
A credibilidade internacional brasileira dependerá crescentemente da capacidade de exercitar boa governança ambiental. Isso significa continuar para alguma coisa mais espaçoso que uma política ambiental convencional, mas sim para uma política de governança ecossistêmica, que implica superar a governo fragmentada de clima, biodiversidade, chuva, florestas, oceanos, solo e território, reconhecendo que esses componentes constituem sistemas interdependentes.
Significa também considerar a capacidade de suporte e os limites biofísicos uma vez que condicionantes das decisões econômicas, territoriais e de infraestrutura.
Depois de Trump, reconstruir não será suficiente. O mundo não deverá simplesmente restaurar a governança ambiental existente antes dele, pois ela já era insuficiente. A crise atual demonstrou que instituições excessivamente dependentes da vontade política circunstancial das grandes potências permanecem vulneráveis.
O repto depois de Trump será maior do que reconstruir o multilateralismo ambiental fragilizado. Será transformar um regime internacional fragmentado em uma governança ecossistêmica capaz de integrar economia e atividades humanas aos limites biofísicos planetários.
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