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Está na hora de transformar a merda em condimento, literalmente

Está na hora de transformar a merda em condimento, literalmente

Aprendemos a dar descarga e olvidar. Enfim, a chuva leva embora e o cheiro desaparece. Mas o que vai embora não deixa de subsistir. O esgoto contamina rios e praias, destrói ecossistemas e está na raiz de muitas doenças. Ao mesmo tempo, não reconhecemos seu valor porquê natividade de material orgânica e nutrientes capazes de temperar solos e restaurar áreas degradadas.

Neste cláusula, proponho olhar para saneamento indispensável e restauração ecológica de forma integrada, conectando dois dos principais desafios ambientais do Brasil: poluição e degradação. Uma vez que sociedade, precisamos repensar a forma porquê tratamos nossos resíduos mais íntimos, reconhecendo neles não unicamente rejeitos, mas recursos. Isso exige uma mudança cultural que não é trivial, mas é urgente.

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Prefácio escatológico

Falar sobre esse tema e usar palavras porquê merda, fezes e cocô é praticamente um tabu na nossa sociedade, exceto para crianças na “tempo escatológica”, por volta dos 3 ou 4 anos, quando a invenção das funções do corpo é secção forçoso do seu desenvolvimento.

Curiosamente, em português, “escatológico” não se refere unicamente a excrementos, mas também à escatologia porquê estudo sobre o termo dos tempos, o rumo da humanidade e o próprio apocalipse.

Em um mundo marcado por guerras, inópia e devastação, essa associação parece fazer sentido. Mas, e se olhássemos a merda de outra forma? Será que poderíamos vislumbrar outro “termo dos tempos”? Ou, quem sabe, novos começos?

Saneamento e ciclos interrompidos

O aproximação ao saneamento indispensável é um recta humano reconhecido pela ONU desde 2010 e que poderá integrar o cláusula 6º da Constituição brasileira, caso a PEC 20/2025 seja aprovada.

Ainda assim, uma parcela significativa da população brasileira vive sem aproximação adequado a esse serviço. Em muitas regiões, e na Amazônia em privado, a maioria do esgoto corre a firmamento descerrado ou é lançado diretamente nos rios, os mesmos rios que alimentam, conectam e sustentam a vida.

Rua alagada no bairro Terreno Firme, em Belém (PA), a capital com a menor rede de esgoto do Brasil; cenário se agrava com falta de coleta de lixo e problemas de drenagem. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Persistimos em tratar o esgoto porquê um pouco a ser descartado, escondido e eliminado. Esquecemos que, na natureza, não existem rejeitos – existem ciclos. Os nutrientes circulam, se transformam e sustentam os ecossistemas. A material orgânica se decompõe e alimenta múltiplas formas de vida. Rompemos essa lógica ao evacuar grandes quantidades de material orgânica e minerais em solos, rios e oceanos, ultrapassando sua capacidade de aspiração e gerando poluição.

A falta de saneamento não é unicamente um problema de infraestrutura, mas de saúde pública, pundonor, desigualdade e de cosmovisão. É também uma questão de vida e morte, principalmente entre crianças menores de cinco anos.

Os impactos vão além das doenças: comprometem as finanças públicas, fragilizam a economia lugar, afetam a segurança fomentar, reduzem o potencial turístico e deterioram o bem-estar social. Ainda assim, no Brasil, o saneamento segue cronicamente subfinanciado e quase invisível nas prioridades políticas.

Esgotamento de nutrientes

Enquanto poluímos e contaminamos ambientes com nossos esgotos, os sistemas agropecuários dominantes também rompem ciclos naturais, esgotando nutrientes e a vida dos solos, acelerando a degradação dos ecossistemas e reduzindo sua capacidade de regeneração.

Para ressarcir, recorremos a grandes volumes de fertilizantes – insumos caros, frequentemente importados, com impactos geopolíticos, socioeconômicos e ambientais catastróficos. A produção de fertilizantes químicos é altamente dependente de combustíveis fósseis e contribui para o aquecimento global. Ao mesmo tempo, as reservas de fósforo estão se tornando cada vez mais escassas. Em contraste, o esgoto representa uma natividade abundoso, e ainda subutilizada, desse e de outros nutrientes essenciais.

Está na hora de reconhecer que poluição e degradação fazem secção da mesma equação. Precisamos repensar o que chamamos de resíduos, não porquê termo, mas porquê meio para restaurar áreas degradadas, sem desperdiçar nutrientes valiosos.

Reabastecimento de nutrientes

Existem diversos sistemas de tratamento de esgotos, com diferentes custos e níveis de complicação, adaptáveis a diferentes escalas, seja em residências, comunidades ou até cidades inteiras, utilizando processos físicos, químicos, biológicos ou combinações entre eles.

Os principais produtos do tratamento de esgotos são os efluentes líquidos (ou águas residuárias), geralmente descartados em corpos d’chuva, e o lodo de esgoto (fração sólida), frequentemente talhado a aterros sanitários. Mesmo em seguida o tratamento, sua fardo de material orgânica e nutrientes permanece significativa e não pode ser negligenciada. Quando devidamente tratados e manejados, esses materiais apresentam cima potencial para regadura, adubação orgânica e fertilização de solos, contribuindo para fechar ciclos hoje interrompidos.

Isso não é novidade. Há mais de 5 milénio anos, civilizações porquê China, Egito e Mesopotâmia já utilizavam esgotos na cultivação, prática que se estendeu à Antiguidade com gregos e romanos. Hoje, avanços tecnológicos e normativos ampliam seu uso na cultivação, silvicultura, reparação de áreas degradadas e regadura de áreas públicas, entre outros.

Ainda assim, mais de 80% das águas residuárias são desperdiçadas. O potencial, porém, é enorme. Alguns países já reutilizam até 86%. Não por casualidade, o Banco Mundial recentemente publicou um estudo reconhecendo o esgoto porquê um recurso valioso, natividade de vontade, nutrientes e chuva reutilizável.

É simples que existem riscos. Mesmo tratados, esses materiais podem moderar contaminantes nocivos à saúde e ao envolvente, porquê patógenos, antibióticos, hormônios, metais pesados, entre outros, exigindo regulamentação rigorosa, monitoramento contínuo e tecnologias adequadas para prometer a segurança do seu uso.

O lodo, quando tratado, pode ser convertido em biossólido, reduzindo riscos e ampliando seu potencial de emprego. Ainda assim, limitações institucionais e de recursos dificultam o monitoramento e a fiscalização, levando, em muitos casos, à restrição ou ao deportação de seu uso.

No Brasil, apesar de avanços normativos para os biossólidos, ainda falta uma política vernáculo integrada e investimentos consistentes. Embora existam pesquisas e iniciativas público-privadas, com participação de universidades, empresas e companhias de saneamento, estima-se que o reuso de esgotos seja subalterno a 1%.

Diante desses desafios, a restauração, a silvicultura e a produção de agrocombustíveis tendem a ser a destinação mais viável. Diferentemente da produção de víveres, esses sistemas permitem proceder com mais segurança e confirmação social, abrindo espaço para soluções em graduação.

Captação da ETA Guandu, que abastece 9,5 milhões de moradores do Grande Rio. Foto: Comitê Guandu.

Soluções integradas

Águas residuárias e biossólidos podem e devem ser utilizados porquê natividade de nutrientes para restaurar áreas degradadas e impulsionar a produção florestal, seja para madeira, carvão ou celulose.

Esse tema me acompanha há mais de duas décadas. Em meus primeiros projetos de pesquisa, avaliei o uso de águas residuárias de esgotos para a produção de mudas de espécies nativas e de eucalipto, além de desenvolver um sistema flutuante inovador para a produção de mudas em águas poluídas por esgoto e resíduos industriais. Os resultados foram muito promissores.

Hoje, mesmo não atuando diretamente na dimensão, sigo acompanhando os avanços. Basta uma procura rápida para encontrar um número crescente de estudos e iniciativas com resultados positivos, porquê a aceleração do incremento de espécies nativas e eucalipto em campo, maior resistência ao estresse hídrico, entre outras. Ainda assim, essas experiências seguem pontuais, em pequena graduação e muito aquém do necessário diante da dimensão do repto.

Nos debates sobre restauração que tenho escoltado mais de perto, esse tema quase não aparece. Falamos cada vez mais em graduação e metas ambiciosas, mas raramente discutimos de onde virão os nutrientes para sustentar a recuperação de solos degradados. Saneamento e restauração ainda seguem porquê agendas desconectadas.

Nosso tempo está se esgotando

Esse debate ganha ainda mais urgência diante das mudanças climáticas. A reutilização de esgoto tratado na regadura tende a se tornar forçoso frente à escassez iminente de chuva gulosice e à pressão sobre os aquíferos.

Integrar saneamento e restauração não é unicamente uma inovação técnica, é uma mudança de paradigma. Significa reduzir a poluição, restaurar áreas degradadas e gerar cadeias produtivas baseadas na circularidade, onde resíduos deixam de ser passivos ambientais e passam a ser ativos.

Grandes iniciativas de restauração e empresas de silvicultura podem liderar esse movimento. Mas isso exige decisão política, investimento, pesquisa, inovação e, sobretudo, tirar o saneamento da invisibilidade

Talvez o maior bloqueio ainda seja cultural, enraizado em uma cosmovisão linear que enxerga o esgoto porquê termo, e não porquê secção de um ciclo oriundo. Transformar esgoto em recurso exige tecnologia e regulação, mas, antes de tudo, uma mudança de mentalidade. E ela é urgente se queremos, de vestuário, trespassar da merda.

Pósfacio

As oportunidades não se limitam ao esgoto. O brasílio descarta, em média, 382 quilos de lixo por ano. Sem entrar no valor do questionável padrão de consumo da sociedade atual, o vestuário é que, em muitas localidades, os resíduos sólidos ainda são destinados de forma irregular, sem separação, compostagem ou reciclagem, tornando-se abrigo para vetores de doenças e natividade de contaminação. Muitos resíduos industriais e agrícolas seguem a mesma lógica de desperdício e destinação inadequada. No entanto, assim porquê o esgoto, esses materiais carregam nutrientes, vontade, material orgânica, que podem ser reutilizados de diversas formas, inclusive para a restauração. Reconhecê-los porquê secção de ciclos, e não porquê termo, é ampliar o horizonte de soluções e transformar passivos ambientais em oportunidades regenerativas.

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