Duas cartas e uma conta que não fecha
O estudo de contribuições econômicas do turismo em unidades de conservação federais mostra que o turismo em UCs movimentou R$ 40,7 bilhões na economia brasileira em 2025. Foram R$ 20,3 bilhões de taxa direta ao PIB, R$ 9,8 bilhões em renda para famílias, mais de 332,5 milénio postos de trabalho gerados. E o número que deveria estar em toda apresentação de orçamento público do setor: para cada R$ 1 aplicado no ICMBio, o retorno é de R$ 16 em valor confederado ao PIB e R$ 2,30 em arrecadação tributária. A atividade turística nas UCs gerou quase R$ 3 bilhões em impostos, mais que o duplo do orçamento totalidade do órgão que administra essas áreas (ICMBio).
O estudo publicado na Cambridge University Press entitulado Chronic underfunding of protected areas in a megadiverse country: spatial, temporal and socioeconomic patterns from Brazil dá à primeira estatística seu real peso político: um levantamento de 300 UCs federais entre 2014 e 2023 encontrou um déficit financeiro reunido de US$ 958 milhões. Em 2023, mais de dois terços das unidades federais (72%) operaram aquém do mínimo necessário para gestão adequada, mesmo depois um aumento de 30% nos investimentos na última dezena. O pior ano foi 2021, com déficit de 92%, mas o problema não foi pontual, o déficit ficou supra de 83% durante quase toda a dezena analisada.
Juntos, os estudos mostram que o sistema de UCs brasílico gera retorno econômico real e comprovado, mas segue subfinanciado de forma crônica e estrutural. Não por falta de evidência de que vale a pena investir, mas por falta de prioridade orçamentária.
Ao mesmo tempo em que esses estudos eram lançados, o setor de conservação encontrava-se em dois grandes fóruns, que mais se complementam do que divergem. O XII SAPIS (Seminário Brasílico sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social) e VII ELAPIS (Encontro Latino-Americano sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social), um debate sobre áreas naturais protegidas e a inclusão social de comunidades locais e povos tradicionais, que ocorreu em Brasília em maio, e a UCBIO (Conferência Vernáculo de Unidades de Conservação para Biodiversidade), voltada à proteção do meio envolvente e de áreas resguardadas por lei, que ocorreu em junho em Curitiba.
Os fóruns compartilham diagnóstico e têm sobreposição de pessoas e temas. Mas a fragmentação entre eles pode ser uma fraqueza diante de um Legislativo que ataca UCs e territórios indistintamente.
A Epístola de Curitiba pede que os Poderes Executivo e Legislativo assegurem suficiente orçamento para a gestão efetiva das Unidades de Conservação, aceitando recursos privados porquê complemento, não porquê substituição. A Epístola de Brasília pede a mesma coisa quase com as mesmas palavras: “orçamentos governamentais regulares e acessíveis”, com a mesma salvaguarda de que parcerias não podem reduzir o papel do Estado.
Duas correntes da conservação que apresentam suas discordâncias, mas concordam, ponto por ponto, sobre o que menos aparece nas manchetes: o Brasil não investe o suficiente no próprio sistema de conservação, e isso tem dispêndio mensurável.
O oferecido da desigualdade regional do estudo de déficit reforça o argumento. A Amazônia teve, em 2023, déficit médio de 79,2%, de 122 UCs analisadas na região, só duas tiveram financiamento suficiente. É também onde o turismo em UCs tem menor presença relativa, concentrado hoje em poucos destinos (5 UCs concentram 65% das 28,6 milhões de visitas em 2025, nenhuma delas na Amazônia; 5 Parques Nacionais concentram 68% das visitas em 2025, nenhum deles na Amazônia), segundo dados do ICMBio.
2026 é ano de eleição. É também o ano em que dois estudos independentes colocaram, lado a lado, o retorno e o déficit do mesmo sistema. Os US$ 1,15 bilhão por ano que o estudo de financiamento estima porquê necessários para gerir adequadamente as UCs analisadas deixam de parecer um pedido de mais gasto público quando lidos ao lado do retorno de R$ 16 para cada R$ 1 investido, e passam a parecer o que são: um investimento com um dos melhores retornos já medidos na política ambiental brasileira. As duas cartas já disseram isso, cada uma à sua maneira.

Se tivermos alguns pedidos a fazer aos parlamentares que estão em campanha e logo mais nos representarão, dois podem ser destacados:
1) O aumento do orçamento de órgãos ambientais porquê o ICMBio; que é de R$ 1,45 bilhão em 2026, ou ¼ do déficit anual é de R$ 5,94 bilhão, considerando R$ 5,17 por US$ 1,00. Ou seja, o orçamento precisa quadruplicar.
2) A priorização de recursos para a implementação da Política Vernáculo de Incentivo à Visitação a Unidades de Conservação, em risco com o Manifesto assinado por dezenas de instituições levante ano.
Investir em Unidades de Conservação é um ótimo negócio para o país, não somente de forma econômica, mas para o meio envolvente e para a geração de muito estar, o que traz benefícios presentes e futuros, sem falar no orgulho de viver no país com a maior biodiversidade do mundo e saber que estamos tratando a biodiversidade com a prioridade que ela merece e precisa.
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