Na Amazônia, zonas eleitorais com mais evangélicos e brancos tendem a votar em candidatos contra o clima
Nas zonas eleitorais da Amazônia Permitido com maior proporção de pessoas brancas ou evangélicas, o voto tende a se concentrar mais em candidatos que se posicionam contra a taxa climática. É o que mostra a estudo exclusiva da InfoAmazonia que cruza dados eleitorais de 2022 com informações demográficas do Instituto Brasiliano de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado aprofunda uma tendência identificada no primeiro incidente da série Eleições em Mapas: entre 2010 e 2022, o votante da Amazônia passou a votar cada vez mais em candidatos de partidos menos favoráveis às pautas climáticas. Agora, ampliamos a estudo dos dados para identificar — além da influência do valor da produção agrícola no voto da região, já identificado anteriormente — quais outros fatores também poderiam estar associados a esse movimento.
A formação religiosa das zonas eleitorais foi um dos fatores que mais se destacou na estudo. “O pentecostalismo é uma novidade forma de identidade urbana produzida para os pobres das cidades. Tem muito a ver com o duelo de viver na modernidade, onde é necessário lucrar quantia para sobreviver”, disse Bruno Paes Manso ao ser apresentado aos resultados do levantamento da InfoAmazonia. O jornalista e pesquisador investiga o progressão dos evangélicos no Brasil há anos e é responsável do livro A Fé e o Fuzil, que mergulha na relação entre o desenvolvimento das igrejas evangélicas e o violação organizado.
O peso dos brancos e evangélicos
Na Amazônia Permitido, segundo o IBGE, as pessoas pardas representam 65% da população; as pretas, 9,9%. Já os brancos, 22,3%. Ao conectar as zonas eleitorais com menos eleitores pró-clima ao critério de raça, a InfoAmazonia descobriu que a proporção de pessoas brancas tem um impacto na nota do lugar em relação ao tema.
Zonas com notas majoritariamente positivas, ou seja, mais em prol do clima, tendem a ter maior proporção de pessoas pretas e pardas; já as zonas com a maior secção das notas negativas tendem a ter maior proporção de pessoas brancas.
Nas cinco piores zonas eleitorais em relação a pautas climáticas, a população branca é sempre supra de 22%; nas cinco melhores, esse percentual é, no supremo, de 10%.
A estudo também mostra que a relação entre alinhamento à taxa climática e proporção de evangélicos se repete em todos os estados da Amazônia. Há algumas variações – leia a metodologia cá –, mas a tendência é a mesma em toda a região: quanto maior o percentual de eleitores evangélicos, menor a chance de uma zona eleitoral apresentar um resultado pró-clima.

O que explica a conexão entre religião e meio envolvente? Manso não separa, durante a entrevista, “boi, projéctil e bíblia”. Para o pesquisador, a cultura do agronegócio, o bolsonarismo e as igrejas evangélicas se articulam em torno de uma mesma visão de mundo. “Qual é esse projeto de mundo dessa extrema-direita que junta boi, projéctil, bíblia, bets, mercado financeiro e tudo isso?”, pergunta.
E ele mesmo responde. “É o seguinte: o Estado, uma vez que o PT e o PSDB acreditavam, não vai salvar a gente. Ele não é a solução, não é a salvação. Ele atrapalha a gente a lucrar quantia. Ele cria obstáculos, impede a gente de fazer grilagem, de fazer mina, de vender boi em terras indígenas e de produzir rebanho em terras indígenas. Eles só atrapalham quem quer lucrar quantia”. Essa, segundo ele, é a visão de mundo e o ponto em geral entre as bancadas da projéctil, do agro e a evangélica.
Em A Fé e o Fuzil, Manso apresenta outro levantamento, fundamentado em dados da Receita Federalista, que mostra a expansão das igrejas evangélicas pelo país. Entre os casos mais emblemáticos está Rondônia. Em 1970, o estado ocupava a antepenúltima posição no ranking do número de igrejas entre os 27 estados. A partir de 2000, passou a figurar entre os cinco primeiros e permaneceu nesse grupo desde portanto.
Segundo os dados analisados pela InfoAmazonia, Rondônia e Acre são os estados com a maior proporção de evangélicos. E os dois têm três das cinco zonas com a menor nota de alinhamento à taxa climática em toda a região: duas em Ji-Paraná e uma em Rio Branco.
Para Ivan Silva, consultor científico para o Eleições em Mapas, professor de Ciência Política da Universidade Federalista do Amapá (Unifap) e vice-coordenador-geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Permitido (LEGAL), três fatores ajudam a explicar a queda contínua nas notas de aderência climática do eleitorado amazônico: a guinada à direita no padrão de voto, impulsionada pelo conservadorismo e pelo peso eleitoral dos evangélicos; o progressão econômico do agronegócio, associado à atuação de pequenos partidos e ao financiamento de campanhas por acionistas do setor; e uma disputa cultural que ajuda a difundir os valores e o padrão de progresso associados ao agronegócio, por meio de manifestações uma vez que o sertanejo universitário e eventos regionais. “Você tem uma disputa cultural e ideológica pesadíssima. Isso é um problema”, afirma.
Essa disputa não surgiu de repente. Paes Manso descreve “duas visões de mundo que estão ficando mais claras”. Uma delas emerge com a redemocratização, o Partido dos Trabalhadores, Lula e os movimentos sociais dos anos 70 e 80, baseada na teoria de trabalho coletivo. Seus símbolos estão ligados à Igreja Católica, que participou da formação do PT e dos sindicatos, a partir da seguinte lógica: a democracia está chegando, é preciso conscientizar os pobres para fazer qualquer tipo de trabalho coletivo, escolher representantes e formular políticas públicas voltadas para a construção de uma sociedade mais justa. Essa era a lógica da política nos anos 80, com a chegada da redemocratização.
Mas o tempo passou e, segundo o responsável, surgiu um “descrédito na política”. Apesar da redução da pobreza e da desigualdade, muitas pessoas – e isso é observado em diferentes regiões da Amazônia – passaram a entender que o coletivo não é o suficiente. Para resolver a própria vida, é necessário empreender e lucrar quantia para sobreviver nas cidades.
“A floresta [representa] o oposto disso. Para eles [a direita da bíblia, boi e bala], a floresta é o interesse coletivo de comunistas, de globalistas, dos europeus, dos indígenas que são associados aos europeus. É uma teoria de projeto coletivo democrático do pós-guerra que está ficando cada vez mais em descrédito. É uma disputa entre essa proposta de projeto coletivo de sociedade e esse individualismo de sobrevivência das cidades, da prosperidade, de cada um lucrar quantia”, explica.
É aí que, segundo Manso, a igreja evangélica ganha espaço. “São pessoas que, para conseguir sobreviver neste mercado e mundo, precisam também de uma crença. Precisam de um propósito para a sobrevivência”, diz. “É um tipo de teologia e de programação mental que os pentecostais produzem e oferecem às pessoas que conseguem crer nisso. Um instrumento mental de sobrevivência, de capacidade de empreender e de querer lucrar quantia, que ajuda essas pessoas a sobreviverem nas cidades”.
Esta geonotícia foi produzida na Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com pedestal do Instituto Serrapilheira.
Estudo de dados: Renata Hirota
Consultoria científica: Ivan Silva
Visualização de dados: Carolina Passos
Reportagem e coordenação: Carolina Dantas
Direção editorial: Juliana Mori