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Ultrapassado 1,5°C, cada décimo de proporção importa ainda mais 

Ultrapassado 1,5°C, cada décimo de proporção importa ainda mais 

Há relatórios que atualizam o conhecimento e há aqueles que mudam os termos do debate. O Limiting Overshoot, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Envolvente (Pnuma), pertence à segunda categoria. O documento secção de uma constatação incômoda: nas trajetórias hoje disponíveis, a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento global tornou-se praticamente inevitável. Isso não significa que o Tratado de Paris tenha perdido relevância. Significa que o repto mudou. Já não se trata somente de evitar a ultrapassagem, mas de limitar sua magnitude, permanecer supra de 1,5°C pelo menor tempo provável e fabricar as condições para que a temperatura volte a desabar.  

Com as políticas atualmente implementadas, o aquecimento projetado chega a respeito de 2,6°C em 2100. Mesmo num cenário otimista, em que compromissos climáticos e metas de neutralidade sejam cumpridos, o pico ainda deverá chegar a aproximadamente 1,8°C. O tempo ficou mais custoso, uma vez que manter emissões elevadas aumenta o pico horizonte e torna mais difícil reduzi-lo depois. Para encolher a temperatura em somente 0,1°C, seriam necessárias remoções líquidas de tapume de 220 bilhões de toneladas de CO₂. É mais fácil evitar hoje o próximo décimo de proporção do que tentar recuperá-lo décadas adiante.  

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O mundo precisará chegar a emissões líquidas zero de CO₂ em torno de 2050 para estabilizar o aquecimento; para fazer a temperatura desabar depois disso, será necessário sustentar emissões líquidas negativas. Reflorestamento, restauração de áreas degradadas e tecnologias porquê tomada e armazenamento de carbono (CCS) e bioenergia com tomada e armazenamento de carbono (BECCS) podem ajudar a remover emissões, mas não substituem a urgência de reduzi-las de forma rápida e profunda. Quanto mais basta o pico, maior o volume de carbono a retirar depois, maior o dispêndio e maior a sujeição de soluções cuja implantação em graduação ainda envolve incertezas.  

As consequências vão muito além do termômetro. Cada fração suplementar de aquecimento agrava ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e inundações e pressiona saúde, recursos hídricos e produção de provisões. Os recifes de coral são um exemplo dramático: o IPCC estima perdas de 70% a 90% a 1,5°C e superiores a 99% a 2°C. Espécies endêmicas, florestas nativas e outros ecossistemas ficam progressivamente mais ameaçados.  

Também cresce, quanto maior e mais perene for o aquecimento, o risco de ultrapassarmos pontos críticos do sistema climatológico, capazes de desencadear mudanças potencialmente irreversíveis, porquê a desestabilização dos grandes mantos de gelo, a degradação da Amazônia e alterações na circulação do Atlântico. O clima tem memória: voltar qualquer dia a 1,5°C não significa restaurar maquinalmente aquilo que foi perdido durante o período mais quente. 

Para o Brasil, esse é um alerta econômico tão importante quanto ambiental. Nossa matriz elétrica renovável é uma vantagem competitiva, mas secção da geração depende das condições hidrológicas e meteorológicas. A cultivação, outra força da economia brasileira, está exposta a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuva. Perdas de produtividade e de safra se propagam pela indústria, exportações, inflação e preços dos provisões. Há ainda uma vulnerabilidade social profunda: milhões de brasileiros vivem em favelas, periferias e comunidades expostas, muitas vezes com infraestrutura precária e pouca capacidade de resposta a enchentes, deslizamentos, ondas de calor e outros eventos extremos.  

Nesses territórios, os impactos do clima tendem a ser mais imediatos, mais severos e mais difíceis de superar. A isso se soma a Amazônia, cuja degradação prenúncio o regime de chuvas do qual dependem cultivação, geração hidrelétrica e provimento de chuva. O Brasil não deveria enxergar a contenção do aquecimento porquê licença nas negociações internacionais. Segurança climática é um ativo econômico e social do Brasil. O novo cenário exige preparar infraestrutura, cidades, cultivação e sistemas elétricos para um clima que já mudou e cujos impactos tendem a se intensificar nas próximas décadas. 

Comunidade do Tumbira, localizada na Suplente de Desenvolvimento Sustentável do Rio Preto durante estiagem histórica. Foto: Rodolfo Pongelupe.

Limiting Overshoot é um trabalho científico de enorme qualidade. Ainda assim, há uma assimetria. Embora a ciência descreva com precisão o que precisa sobrevir, somos muito menos capazes de responder porquê fazê-lo politicamente na velocidade necessária. Sergio Margulis, em debate promovido pelo Instituto Clima e Sociedade e repercutido pelo Estadão Teor, deu a dimensão financeira. O mundo investe tapume de US$ 2 trilhões por ano em descarbonização, quando seria necessário chegar a US$ 5 trilhões anuais. Thelma Krug, no mesmo debate, ressaltou que a ultrapassagem de 1,5°C tornou-se inevitável, mas que limitar sua magnitude e duração continua em nossas mãos. Bill Hare, da Climate Analytics, criticou a pouca atenção do relatório à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. A próxima fronteira da agenda climática talvez seja edificar coalizões políticas, mobilizar capital e fazer da transição uma nascente de tarefa, renda e oportunidades.  

A questão de porquê transmitir a ultrapassagem de 1,5°C já vinha sendo debatida há alguns anos. Ao longo de quase uma dez, participei porquê responsável e revisor de diferentes edições do Emissions Gap Report, publicação anual do Pnuma que acompanha a intervalo entre os compromissos dos países e as reduções necessárias para executar o Tratado de Paris. Nos últimos anos, uma questão aparecia com frequência os autores: porquê transmitir o momento em que a ultrapassagem de 1,5°C se tornasse inevitável sem transmitir a falsa teoria de que a guerra climática estava perdida? Havia o receio de que reconhecer esse fracasso parcial alimentasse desânimo, paralisia ou servisse de argumento para reduzir a desejo. O novo relatório torna essa conversa impossível de prorrogar. Sim, um marco importante está sendo ultrapassado. Mas isso não significa que o que acontece daqui para a frente deixou de importar. 

Para limitar o tamanho e a duração dessa ultrapassagem, os países precisam seguir juntos, sobretudo os grandes emissores. Porquê a mudança do clima é um fenômeno global, os efeitos de esforços isolados de um único país são necessariamente limitados. Para mudar de forma relevante a trajetória do aquecimento, é preciso que os principais emissores avancem conjuntamente. E justamente quando mais precisamos de cooperação, o cenário internacional parece caminhar na direção oposta. Guerras, disputas comerciais, tensões geopolíticas e o extenuação do multilateralismo corroem a crédito necessária para compromissos de longo prazo. Em janeiro de 2026, tornou-se efetiva a novidade saída dos Estados Unidos do Tratado de Paris. Isso torna o repto mais multíplice, sobretudo em um contexto de cooperação internacional enfraquecida. Mas a inação de alguns não pode servir de pretexto para a inação dos demais. No clima, o dispêndio do demorado é compartilhado por todos. 

Mais do que nunca, cada décimo de proporção importa ainda mais. Cada fração de aquecimento evitada significa menos pessoas expostas a calor extremo, enchentes, secas e instabilidade fomentar; menos mortes e deslocamentos; menos perdas econômicas e danos à infraestrutura; mais florestas preservadas, mais espécies sobrevivendo e maiores chances de sobrevivência para ecossistemas altamente vulneráveis, porquê os recifes de coral. Ultrapassar 1,5°C torna cada tonelada de carbono evitada ainda mais valiosa. E já não podemos escolher entre reduzir emissões e nos preparar para os impactos, mas sim fazer as duas coisas, e rapidamente. 

Para o Brasil, isso significa proteger florestas, aligeirar a redução de emissões, tornar o agro mais resiliente e preparar cidades e territórios para um clima mais quente e com eventos extremos mais frequentes e intensos. Enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e crises hídricas tendem a se tornar mais severos e custosos nas próximas décadas, com efeitos sobre a saúde, a produção de provisões, a geração de robustez e as contas públicas. Harmonizar-se exigirá mais prevenção, planejamento e investimentos em resiliência, com atenção privativo às populações mais vulneráveis, que têm menor capacidade de aspirar e se restaurar dessas perdas. 

Ao mesmo tempo, a resposta brasileira precisa ser secção de uma estratégia de desenvolvimento, e não se limitar à gestão de risco. Descarbonizar a economia deve valer modernizar a indústria, ampliar investimentos, engrandecer produtividade, estimular inovação, fortalecer a competitividade e fabricar novas oportunidades de tarefa e renda. Em um país profundamente desigual, a transição só será sustentável se combinar redução de emissões, capacidade de adaptação, e propagação econômico com geração de oportunidades e inclusão. E, em um momento de extenuação da cooperação internacional, o Brasil tem também a oportunidade de treinar uma liderança responsável e construtiva justamente quando ela mais faz falta. 

O marco de 1,5°C está sendo ultrapassado. O que não podemos ultrapassar é o ponto em que a sisudez do problema se transforma em desculpa para desistir de enfrentá-lo. O horizonte ainda não está deliberado. Precisamos lutar para evitar cada fração suplementar de aquecimento porque, no término, não estamos lutando por números abstratos. Estamos lutando por pessoas, por seus meios de vida, pela biodiversidade e pelo horizonte que queremos deixar para nossos filhos e netos.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))repercussão. Buscamos nestes espaços prometer um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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