onde até as imperfeições têm sua formosura

onde até as imperfeições têm sua formosura

Last Updated on: 17th agosto 2026, 09:11 am

Quem acompanha o Histórias de Lar talvez sinta que já conhece o Derek Mangabeira. Fotógrafo carioca e um verdadeiro enamorado por garimpos vintage, ele já abriu as portas de suas antigas moradas para nós.

No final do ano pretérito, depois de um tempo vivendo em São Paulo, ele sentiu que precisava voltar ao Rio de Janeiro em procura de espaços de pausa e da proximidade com o mar. Seu novo refúgio, na subida de Santa Teresa, marca uma período de maduração e, uma vez que ele mesmo faz questão de ressaltar, é um lar construído a muitas mãos, que contou com a ajuda preciosa de amigos e artistas fantásticos para lucrar vida.

Justamente por ser um lugar tão pessoal, guiado pela memória e pelos afetos, decidimos que esta material merecia ser um pouco dissemelhante. Desta vez, saímos de cena e passamos a vocábulo para o próprio morador. Agora, é o Derek quem assume a narrativa e nos conta, em primeira pessoa, a história de seu novo lar:

Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro

Morei em São Paulo por alguns anos e tenho muito carinho pela cidade, mas chegou um momento em que a vida lá começou a permanecer meio sufocante pra mim. Tudo parecia exigir vontade demais, deslocamento demais, burocracia demais. Sentia muita falta de espaços de pausa. Do mar, do Aterro, da possibilidade de simplesmente caminhar sem pressa. Também sentia falta da minha família. E uma coisa que pesou foi perceber o quanto eu sentia falta de passear com o Garu em lugares onde ele parecesse realmente feliz. Voltar pro Rio e poder caminhar na areia, na grama, vendo ele decorrer e resfolgar na sombra; isso me dá uma sensação muito poderoso de completude.

Oriente apartamento acabou me conquistando pela localização. Ele fica na subida de Santa Teresa, do lado da Rossio Paris, super perto do Aterro, da Praia do Flamengo, da Rua do Russel e a poucos minutos do metrô da Glória. É uma rua tranquila, mas enxurro de história e bastante viva, principalmente no carnaval, quando muita gente passa por ali subindo pros blocos de Santa. Fico horas bem na varanda vendo os foliões fantasiados.

O apartamento também tem muita luz procedente, ventilação cruzada e duas varandas. É uma vegetal ampla, que me permitiu fabricar uma segunda sala que eventualmente pode virar quarto de hóspedes, além de ter um quarto de serviço enorme que no horizonte se tornará meu escritório/oficina. Mas o que realmente me conquistou foram três detalhes muito específicos: a guizo antiga em forma de leão, a sanca do teto e a janela do quarto que abre pra varanda da sala. Achei tudo isso muito peculiar e encantador.

Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro

Acho engraçado pensar que vocês acompanharam minhas últimas casas. É uma vez que se o Histórias de Lar estivesse contando capítulos diferentes da minha vida. E, olhando agora, sinto que essa novidade mansão talvez seja uma espécie de maduração de algumas coisas que já existiam nas outras, mas que hoje aparecem de um jeito mais procedente e vivido, menos ansioso ou “montado”.

Ela continua tendo várias das obsessões que vocês já conhecem: madeira antiga, objetos gastos, coisas meio tortas, peças vernaculares misturadas com outras mais sofisticadas, muita textura, memória e itens garimpados. Mas acho que hoje existe menos vontade de provar alguma coisa através do espaço. A mansão ficou mais calma. Mais honesta.

Tem alguma coisa bastante importante nela, que é o veste de que quase zero entrou cá só por ser bonito. Existe um zelo estético poderoso, óbvio (eu sou virginiano, risos), mas acho que o principal é que os objetos carregam alguma história, uma sensação específica, qualquer tempo reunido. Eu queria que eles fossem mais interessantes do que necessariamente belos, sabe? Sabor dessa teoria de que a mansão vai sendo construída mais por convívio do que por consumo.

Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro
Apartamento com decoração vintage do Derek Mangabeira no Rio de Janeiro

Nas minhas outras casas, acho que eu ainda estava tentando encontrar uma linguagem. Hoje sinto que entendo melhor o que me impacta na teoria de morar: a imperfeição, a materialidade, as marcas de uso, a história, a mistura de referências. Coisas que parecem humanas de verdade. Tenho cada vez menos interesse por espaços excessivamente polidos ou muito “corretos”.

Ao mesmo tempo, eu não queria uma mansão solene. Acho forçoso que ela continue parecendo uma mansão onde as pessoas vivem, comem, conversam, fotografam, trabalham, dormem no sofá, derrubam coisas. Tem uma dimensão afetiva e usada (no sentido literal da vocábulo) muito importante nisso tudo.

No fundo, acho que essa mansão acabou virando um revérbero muito direto da forma uma vez que vejo formosura hoje. Alguma coisa menos ligado à teoria de sublimidade e mais ligado à presença, ao tempo e à identidade das coisas.

Testemunho de Derek Mangabeira | Fotos por Leila Viegas



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