Profetas do tempo: sabedoria, sinais e horizonte no sertão da opulência
Na beirada da Caatinga, no extremo setentrião do Nordeste brasílico, o pretérito se faz presente em pinturas rupestres milenares e na sabedoria passada de pai para rebento, de observar os ciclos da natureza para anunciar a chegada das chuvas. Desde os sinais deixados nas pedras pelos primeiros habitantes da América Latina, às previsões certeiras dos Profetas da Chuva, as comunidades do interno do Piauí escrevem seu próprio tempo, e hoje mesclam conhecimento ancião e tecnologias sociais para prosperar no semiárido. Esta é a história de um Brasil profundo que, em vez de somente esperar pela chuva, aprendeu a plantar o seu amanhã.

A paisagem do Cocuruto Rio Poti faz secção de uma região única, onde o tempo é ditado pelas águas. As chuvas iniciam em meados de janeiro e duram de três a quatro meses, e oriente ano se estenderam mormente até maio. A biodiversidade ocorre em meio a grandes formações rochosas, baixadas sazonalmente úmidas e a transição com a Zona dos Cocais, com a rica presença das palmeiras carnaúba e babaçu. O rio Poti rompe a barreira oriundo da Serra da Ibiapaba para chegar na região, num trecho marcado por litígio territorial entre o Ceará e o Piauí, revelando uma intersecção da Caatinga com o Fechado e fragmentos de Mata Atlântica, os chamados brejos de altitude.
O Vidente da Chuva José Inácio da Silva vive na Comunidade Catadupa Grande, na cidade de Poranga, no Ceará, e cruza a lema para visitar os profetas da Comunidade Tapera dos Vital, em Pedro II, no Piauí. Juntos, eles elaboram previsões climáticas pela reparo minuciosa do ecossistema, porquê o comportamento dos pássaros, sapos, formigas, preás, e outros animais, além dos mais singelos sinais da natureza presentes na rota dos ventos, nas estrelas e fases da lua, criando uma cosmografia geográfica rica em simbologias.
Nesta terreno de ciclos de vida extremos, a série de reportagem Profetas do Tempo nasce de uma submersão documental encomendada pelo Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN) com esteio do Fundo Global para Meio Envolvente (GEF), para geração de um banco de imagens sobre a Caatinga. Mas as histórias fotografadas mostram muito mais do que o bioma exclusivamente brasílico, mostram uma veras viva e palpável, percebida na repleção tecida por sua gente e uma relação profunda com a terreno, um testemunho de adaptação e da reincidência cultural de práticas que sustentam a própria vida.

Entre elas, a cultura da mandioca se destaca porquê um saber transmitido há gerações. Ao amanhecer, na comunidade Palmeira dos Ferreira, em Pedro II, esse conhecimento se torna concreto pelas mãos de Gonzaga Ferreira e seu sobrinho Lázaro, que colabora em tarefas leves durante a colheita, limpando a terreno das raízes arrancadas do solo. É o início do grande dia da farinhada: um ritual coletivo que se desenrola em várias etapas até o anoitecer, transformando a mandioca brava em farinha e goma de tapioca (fécula), e envolvendo diversas famílias da comunidade.
Neste dia o trabalho envolveu murado de vinte pessoas distribuídas nas atividades de arranquio, transporte, descascamento, trituração, lavagem da volume, prensagem, torragem, peneiração e armazenamento. Em um único dia foram produzidos 350kg de farinha e 200 kg de goma, para consumo do ano todo! Um dia de celebração de um modo de vida organizado em torno do trabalho comunitário e da transmissão de uma identidade sertaneja.

Dona Ana Lúcia, esposa do Sr. Gonzaga, conta que secção da produção é distribuída aos trabalhadores da farinhada porquê forma de pagamento pelo serviço, outra secção é enviada para os filhos em São Paulo e o restante é armazenado em sacos muito costurados.
“Comecei a trabalhar em farinhada eu tinha 11 anos, em farinhada das outras pessoas. Me casei novidade e todo ano meu marido tinha farinhada duas vezes por ano, no verão e no inverno. Uma farinhada é a coisa mais sagrada que você pode ter numa moradia. Em tudo que você vai manducar tem farinha, a gente pode fazer uma puba, dar mingau à uma muchacho, a um velhinho que está acamado, não tem iguaria melhor do que a puba. E também tem a ração pros bichos, a casca, a madeira, a capoeira. Uma roça de mandioca é uma riqueza pra nós. Eu não sei nem descrever o tanto que uma farinhada beneficia o ser humano do campo.”

O ISPN, com o intermédio do Núcleo de Formação Mandacaru (CFM), que atua há 35 anos na região promovendo o aproximação à terreno e à chuva, técnicas sustentáveis na lavradio familiar, segurança cevar, ensino contextualizada e espiritualidade popular, apoia diretamente a construção de Casas de Farinha coletivas muito equipadas. O espaço também pode ser utilizado porquê cozinha comunitária, para fazer bolos e biscoitos para comercialização. A comunidade vai inaugurar a novidade Moradia de Farinha na próxima temporada de farinhada, entre agosto e setembro deste ano. “Todo morador ou vizinho que plantar mandioca vai poder usar, vai ser o mês todo de farinhada, se Deus quiser!”, frisou Dona Ana.
Nos próximos episódios desta série de reportagem vamos saber as tecnologias sociais que estão revolucionando a vida no sertão do Piauí a partir da descentralização das estruturas de provimento de chuva, a permanência dos jovens no campo e sua conexão com a sabedoria dos Profetas da Chuva, além da relação dos ciclos da natureza com oriente trecho peculiar da Caatinga, onde a espiritualidade fortalece a identidade sertaneja e a convívio com a região.
