Situação política e interesses estrangeiros ameaçam o Guaíba, no Rio Grande do Sul
O rio Guaíba ficou divulgado em todo o Brasil durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul (RS) em 2024. O Guaíba foi o receptor das cheias provenientes dos rios de sua bacia hidrográfica, e a elevação de seu nível contribuiu para as inundações de Porto Feliz, causando o caos socioambiental amplamente registrado pela mídia pátrio e internacional.
O Guaíba recebe a chuva de outros importantes rios do RS, porquê o Jacuí, Caí, Gravataí, Taquari-Antas e o dos Sinos. A partir dessa confluência, a chuva segue para a Laguna dos Patos e, posteriormente, deságua no oceano Atlântico. Esse fluxo multíplice faz com que esse corpo hídrico receba poluentes aquáticos, porquê os resíduos de pesticidas, das mais diversas regiões do estado produtoras de monoculturas porquê soja, arroz e tabaco.
Outro importante fator que contribui para a poluição do Guaíba é o descarte de efluentes não tratados provenientes de Porto Feliz, uma capital com população estimada em 1,39 milhão de habitantes e que trata exclusivamente 60% de seu esgoto doméstico. A fábrica CMPC Celulose Riograndense, instalada à beirada do Guaíba, no município de mesmo nome, também libera diariamente 154,4 milhões de litros de efluentes no rio. Além da contaminação por poluentes orgânicos e pesticidas, o Guaíba já apresentou quantidades significativas de metais tóxicos, microplásticos e resíduos de medicamentos.
A poluição do Guaíba é alarmante, contrastando com a bela paisagem que o rio proporciona a Porto Feliz por meio de sua orla amplamente frequentada para atividades turísticas e de recreação, principalmente aos finais de semana. É provável que muitos frequentadores da orla do Guaíba, incluindo pescadores artesanais, pouco saibam sobre a péssima qualidade de sua chuva.

Durante a semana, a orla do Guaíba é amplamente utilizada pela população de Porto Feliz para atividades físicas e de recreação. Durante os finais de semana, o sítio se torna um importante ponto turístico para reparo do pôr do sol, atividades gastronômicas, culturais e passeios de embarcação. É provável que uma parcela significativa dos frequentadores da orla do Guaíba desconheça a seriedade da poluição ambiental que ocorre no sítio.
Também é provável que grande secção da população da região metropolitana de Porto Feliz se surpreenda ao saber que a chuva distribuída para consumo humano é captada no Guaíba, o mesmo corpo d’chuva no qual grande secção do esgoto urbano é descartado sem tratamento. É importante ressaltar que as técnicas de tratamento utilizadas para tornar a chuva segura do ponto de vista físico, químico e biológico não têm capacidade de remover completamente muitos poluentes emergentes, porquê resíduos de medicamentos e pesticidas. Os impactos crônicos das misturas desses resíduos sobre a saúde humana são difíceis de calcular.
A fauna que tem o Guaíba porquê habitat também sofre impactos negativos provenientes da poluição. Um robusto conjunto de evidências científicas indica que poluentes químicos porquê metais e pesticidas causam prejuízos para o comportamento e reprodução de aves, peixes e outros grupos faunísticos. Uma vez que consequência, a poluição desse sistema aquático contribui para a perda da biodiversidade da região. Além da poluição química, o acúmulo de lixo plástico na orla do Guaíba prejudica diferentes espécies, além de comprometer a qualidade estética do sítio, impactando também o turismo e o muito viver.
Pouco tem sido feito pelo poder público para melhorar a qualidade da chuva do Guaíba e reduzir a poluição. A deficiência no tratamento de esgoto em Porto Feliz agrava-se a cada ano e outras fontes poluidoras crescem na medida em que o mercado imobiliário aumenta a quantidade de projetos no entorno do Guaíba. Essa situação já preocupante pode permanecer ainda pior.
Um novo projeto da empresa chilena CMPC (Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões), a mesma responsável pela Celulose Riograndense, já em operação, tem o potencial de piorar significativamente a poluição do Guaíba. Em resumo, esse corpo hídrico já recebe pressões simultâneas da cultivação, do saneamento precário e da atividade industrial, situação que poderá se aumentar com novos empreendimentos.
Ironia e conivência: o Projeto Natureza e o alinhamento dos políticos gaúchos aos interesses do capital estrangeiro
Na avaliação de diversos grupos ambientalistas, uma das maiores ameaças para a qualidade da chuva do Guaíba atende ironicamente pelo nome de “Projeto Natureza”, da CMPC, que pretende expandir suas operações no RS com a instalação de uma novidade fábrica no município de Barra do Ribeiro. O investimento nesta fábrica está estimado em R$ 27 bilhões e prevê o descarte quotidiano de 242 milhões de litros de rejeitos no Guaíba, que representa uma quantidade de efluentes supra daquela despejada no mesmo corpo d’chuva por toda a população de Porto Feliz.
Se o empreendimento se concretizar, o Guaíba receberá diariamente cargas adicionais de fósforo, nitrogênio amoniacal e outros compostos químicos associados à produção de celulose, ampliando a pressão sobre um sistema aquático que já sofre com múltiplas fontes de poluição. Mais do que aumentar a poluição do rio, a expansão da produção de celulose no estado poderá aumentar os “desertos verdes” formados pela silvicultura que toma cada vez mais espaço do bioma Pampa.
Os possíveis impactos do projeto também têm repercussões no debate político gaúcho. Além de ser amplamente criticado por parcelas da sociedade social, comunidades tradicionais e Indígenas, acadêmicos e organizações ambientalistas do RS, o licenciamento ambiental do Projeto Natureza está sendo questionado pelo Ministério Público Federalista.
Na direção oposta, conforme recentemente documentado pelo jornal Sul21, o atual governador do RS, Eduardo Leite (PSD), e os principais pré-candidatos ao governo do Estado, Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB), Marcelo Maranata (PSDB) e Juliana Brizola (PDT), apoiada por PT, PSOL e outros partidos do campo progressista, manifestaram posicionamentos favoráveis ao empreendimento. Rejane Oliveira, do PSTU, é contra o projeto. Na esfera municipal, o prefeito de Barra do Ribeiro também apontou suporte ao projeto.
O exposição do “desenvolvimento econômico associado à sustentabilidade” é novamente usado pelos pré-candidatos favoráveis ao projeto porquê desculpa para colocar o capital primeiro da preservação ambiental e da qualidade de vida atrelada a uma existência em um envolvente equilibrado. Esse exposição minimiza evidências científicas sobre os impactos ambientais da expansão da produção de celulose. No RS, assim porquê na esfera federalista, o poder público coloca-se cada vez mais submisso aos interesses dos grandes empresários e das mega indústrias.
Até quando o Guaíba aguenta o atual padrão de desenvolvimento?
A atual conivência do poder público e pré-candidatos ao governo do RS com o Projeto Natureza indica um potente alinhamento a um padrão de desenvolvimento ultrapassado e numulário, que não respeita os limites ecológicos do envolvente sítio e planetário. Aliás, a concepção de que o Guaíba suporta receber uma trouxa crescente de poluentes está errada.
A preocupação com prejuízos cada vez maiores para os animais que vivem no Guaíba e com a qualidade da chuva distribuída para a população da região metropolitana de Porto Feliz deve se sobrepor aos interesses estrangeiros de empresas porquê a CMPC. A saúde humana, bicho e ambiental deve ser o maior interesse da população gaúcha e é responsabilidade do Estado prometer que esse recta seja atendido de forma soberana por meio da geração de empregos e oportunidades que não degradem o meio envolvente.
A população do RS deve pressionar os políticos para que a proteção do Guaíba e a preservação da qualidade da chuva se tornem prioridades efetivas. A atual crise ecológica evidencia os limites do capitalismo porquê padrão de organização social e reforça a urgência de buscar alternativas mais compatíveis com a preservação ambiental.
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