Se nós os parimos, por que eles nos matam? 

Se nós os parimos, por que eles nos matam? 

Há perguntas que não nascem exclusivamente da dor, mas da urgência de romper um  silêncio que já dura tempo demais. Quando eu pergunto “se nós os parimos, por que eles nos matam?”, não estou tentando fabricar uma frase de efeito, nem transformar o sofrimento das mulheres em provocação. Estou tentando nomear uma incoerência brutal que a nossa sociedade ainda aceita com espantosa naturalidade: a mesma cultura que reconhece a mulher uma vez que aquela que gera, cuida, sustenta e organiza a vida é a que continua permitindo que ela seja  humilhada, ferida e assassinada. 

Essa não é uma pergunta para as mulheres responderem sozinhas, porque a violência de gênero não pode continuar sendo tratada uma vez que uma tarifa feminina, uma vez que se coubesse exclusivamente a nós suportar, denunciar, sobreviver e reconstruir. Essa  é uma pergunta que precisa ser devolvida aos homens e à sociedade uma vez que um todo, porque o maior coligado no combate à violência contra a mulher precisa ser o pai que  educa, o irmão que se posiciona, o rebento que aprende, o companheiro que não se cala e o vizinho que entende que nenhuma agressão pode ser tratada uma vez que tema privado. 

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Os números são graves, mas, mais do que eles, o que deveria nos escandalizar é a repetição cotidiana dessa violência. Ainda assim, é importante lembrar que o Brasil registrou, em 2024, o maior número de feminicídios da série histórica, segundo o Fórum Brasílico de Segurança Pública, o que revela que não estamos diante de  casos isolados, mas de uma verdade persistente, que continua avançando apesar de tantos debates, leis e campanhas. 

Mas a violência não começa na morte, e talvez esse seja um dos pontos que mais precisamos encarar com honestidade. Ela começa quando a mulher não é levada a sério, quando sua termo é tratada com suspicácia, quando sua dor é minimizada, quando sua capacidade é questionada e quando a violência psicológica vai corroendo, em silêncio, sua segurança, sua autoestima e sua força de reação. O que deixa marcas no corpo choca mais porque é visível, mas o que destrói por dentro também compromete a vida, a saúde e a pundonor.

O enfrentamento dessa verdade exige mais do que punição, embora a punição seja necessária. Exige um processo educativo profundo, porque a violência também é aprendida, tolerada e reproduzida em pequenas permissões diárias. Enquanto os meninos forem educados a confundir masculinidade com domínio, imposição e controle, e enquanto as meninas forem ensinadas a suportar, ceder e silenciar, continuaremos alimentando uma cultura que naturaliza o doesto e transforma a violência em rotina. 

Também precisamos entender que a violência contra a mulher não se resume ao tapa, ao empurrão ou à prenúncio explícita. Ela também aparece quando uma mulher lidera e não é levada a sério, quando ocupa um espaço de decisão e passa a ser tratada uma vez que se estivesse invadindo um lugar que não lhe pertence, quando sua conhecimento é diminuída e quando sua presença incomoda exclusivamente por ela ser mulher. Deslegitimar, desacreditar e tentar silenciar mulheres também é uma forma de violência, e talvez uma das mais naturalizadas. 

Nos territórios amazônicos, essa verdade ganha ainda mais peso, porque a mulher não enfrenta exclusivamente a violência que pode subsistir dentro de vivenda, mas também o desleixo, a sobrecarga e a fragilidade da proteção pública. Mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas e comunitárias sustentam o cotidiano da família e da comunidade, muitas vezes acumulando responsabilidades de zelo, trabalho e liderança, ao mesmo tempo em que vivem em contextos marcados por intervalo, pouquidade do Estado e instabilidade territorial. 

É por isso que, na Amazônia, não dá para falar da violência contra as mulheres sem falar também de território. Quando os direitos territoriais são fragilizados, quando a proteção não chega e quando a vida comunitária passa a ser atravessada por prenúncio, terror e pressão, as mulheres ficam ainda mais expostas.  

Não existe sustentabilidade onde mulheres não estão seguras. Não há floresta em pé de forma justa quando quem sustenta a vida cotidiana do território vive com terror, sobrecarregada ou desacreditada. Não há horizonte verdadeiro quando a  mulher precisa gastar sua pujança tentando sobreviver à violência, em vez de viver plenamente, liderar com liberdade e contribuir com tudo o que sabe, sente e constrói. 

No término, essa pergunta continua necessária porque ainda não fizemos o suficiente para respondê-la com ações concretas. Se nós os parimos, por que eles nos matam? Talvez porque ainda estejamos educando homens sem romper de verdade com a cultura da violência, tolerando comportamentos que deveriam promover repulsa imediata e deixando para as mulheres uma responsabilidade que nunca deveria ser exclusivamente delas. Virar essa página exige coragem coletiva, e essa coragem começa quando os homens deixam de ser espectadores e passam a se reconhecer uma vez que secção indispensável da mudança.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))repercussão. Buscamos nestes espaços prometer um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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