Retomada: o rompimento da lógica colonial de ser indígena
Ser indígena em retomada é viver em movimento. É passar silêncios, enfrentar negações e reconstruir pertencimentos que foram interrompidos pela história. Cresci em contexto urbano, em Roraima, sabendo que minha mãe era indígena, mas sem saber a história do meu povo, dos meus maiores ou da nossa cultura. Meu pai não é indígena, e essa verdade, geral a muitos brasileiros, acabou se tornando mais um elemento de questionamento sobre quem eu era, inclusive para mim mesmo. Na puerícia, eu não me reconhecia porquê indígena porque não havia sido apresentado à minha própria história. Eu existia, mas sem pertencimento.
Na escola e nos espaços sociais, a incongruência sempre esteve presente. As pessoas percebiam que eu era indígena, que eu era nativo da terreno onde sempre vivi, mas eu não sabia ocupar esse lugar, porque me faltava referência. Sempre morei na cidade. Minha mãe viveu secção da puerícia e da puberdade em comunidade indígena, mas, porquê tantas outras famílias, precisou trespassar em procura de melhores condições de vida. Esse deslocamento não foi escolha individual, mas consequência direta de desigualdades históricas que afastaram muitos indígenas de seus territórios e de suas memórias.
Durante muito tempo, vivi uma vida considerada “branca”, com entrada à ensino, à saúde, à moradia, ao trabalho, à tecnologia. Por isso, passei a ser rotulado porquê “indígena gourmet” ou “indígena playboy”, porquê se o entrada a direitos básicos anulasse minha identidade. Esses rótulos revelam uma visão colonial ainda muito presente: a teoria de que o indígena legítimo é aquele que vive à margem, privado, glacial em uma imagem do pretérito. Quando o indígena rompe essa expectativa, passa a ser questionado.
O meu processo de retomada começou a se tornar consciente quando ingressei no ensino superior. Ao entrar na faculdade, mormente por estar na dimensão da saúde, tive contato direto com debates sobre povos indígenas, políticas públicas e a atuação de profissionais dentro das comunidades. Em Roraima, essa discussão é metódico, porque a verdade indígena atravessa o estado inteiro. Foi nesse espaço que eu comecei, de traje, a escutar aquilo que sempre esteve ao meu volta.
Naquele momento, eu já me reconhecia porquê indígena, mas ainda não conhecia a história do meu povo. A universidade despertou em mim o libido de buscar essa história. Ao estudar a atuação da saúde nas comunidades indígenas, compreendi a dimensão das dificuldades enfrentadas pela população indígena e também pelos profissionais que atuam nesses territórios, muitas vezes em condições extremamente precárias. Se já é difícil para quem chega de fora para trabalhar, imagine para quem vive ali todos os dias.
Foi ali que entendi que saber meu povo não era unicamente uma questão identitária, mas também política. Compreendi que eu poderia lutar pelo meu povo a partir de onde eu estava. Que, infelizmente, muitas decisões que impactam diretamente as comunidades indígenas ainda são tomadas nos espaços urbanos, nas universidades, nas instituições, nos lugares de poder. E ocupar esses espaços também é uma forma legítima de luta.
A retomada, logo, deixou de ser unicamente um processo pessoal e passou a ser um compromisso coletivo. Comecei a pesquisar sobre o povo Makuxi, sobre minha história, sobre meus maiores. Passei a entender quem eu sou para poder lutar com mais consciência pela população indígena de Roraima. Essa luta começou voltada às comunidades, mas hoje também inclui os indígenas em contexto urbano, porque essa é a minha vivência, é de onde eu venho e é onde muitos indígenas estão.
Pesquisas recentes mostram que aquilo que hoje chamamos de “retomada indígena” não é um modismo nem uma invenção contemporânea. A historiadora Adriana Dias Silva, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federalista do Maranhão, explica que esse movimento faz secção de um processo histórico mais espaçoso, sabido porquê etnogênese: o ressurgimento público de povos que foram declarados “extintos”, mas que nunca deixaram de viver.
Os julgamentos, no entanto, permanecem. No contexto urbano, sou visto porquê indígena demais. Em alguns espaços, porquê indígena de menos. Ainda persiste a teoria de que, para ser indígena “de verdade”, é preciso viver exclusivamente dentro da comunidade, seguir um padrão fixo de existência e rejeitar qualquer forma de inserção no mundo contemporâneo. Essa lógica ignora que os povos indígenas são diversos, dinâmicos e atravessados por diferentes realidades. Não deixamos de ser indígenas porque a história tentou nos transferir.
Hoje, não acredito em divisões rígidas entre “indígena de comunidade” e “indígena de contexto urbano”. Somos indígenas. Cada um com suas especificidades, suas dores e seus atravessamentos. Alguns enfrentam mais diretamente a violência territorial; outros, o apagamento identitário. Mas todos somos resultado do mesmo processo histórico de exclusão.
Pesquisas sobre povos indígenas em contexto urbano mostram que viver na cidade não apaga a identidade indígena. Ao contrário, muitos indígenas passam a compreender que trabalhar, estudar, circunvalar e ocupar espaços urbanos não os faz deixar de ser quem são. Eles aprendem a viver nesse “entrelugar”, negociando identidades, sem ceder sua origem. A cidade, nesse sentido, também pode ser território de resistência e asserção.
Por isso, falar sobre indígenas em retomada é fundamental para o movimento indígena hoje. É romper o silêncio, impedir que o apagamento cultural siga operando e furar caminhos para que outras pessoas indígenas reconheçam sua história e iniciem seus próprios processos de reconexão. A retomada não enfraquece a luta indígena, ela a amplia.
Ser indígena em retomada é declarar que a colonização não venceu. Que, apesar das tentativas de apagamento, seguimos existindo, buscando, reconectando e lutando. A identidade indígena não foi perdida, foi interrompida. Porquê lembra a intelectual indígena Avelin Buniacá Kambiwá, os povos indígenas não pertencem ao pretérito. “Estamos em uma ancestralidade contínua e circunvalar, onde somos o seguimento”. Não somos vestígios de um tempo morto, mas presença viva que atravessa gerações, cidades, aldeias e fronteiras.
E tudo aquilo que foi interrompido pode, e deve, ser retomado.
REFERÊNCIAS
SILVA, Adriana Dias. Processos de retomada indígena: identidade, resistência e reconfiguração cultural. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federalista do Maranhão, São Luís, 2024
KAMBIWÁ, Avelin Buniacá. Pequeno guia antirracista indígena. In: KUBEO, Raquel; MÄHLER-NAKASHIMA, Henry (orgs.). Rios de Palavras: Confluências ancestrais – saberes indígenas e ensino. Campo Grande: Ocareté / UNESCO, 2024.
VIEIRA, Carlos Magno Naglis; NAGLIS, Suzana Gonçalves Batista. Povos indígenas em contexto urbano: as tensões e os desafios na procura pela asserção étnica na cidade. Revista NUPEM, Campo Mourão, v. 15, n. 36, p. 257–271, 2023.
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