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A esperada queda da SELIC e o maior ativo do século XXI

A esperada queda da SELIC e o maior ativo do século XXI

Seguir as notícias nos primeiros meses de 2026 têm exigido qualquer esforço, oferecido o volume, a velocidade e a sisudez dos acontecimentos. É notável uma certa aceleração do tempo e uma sensação de que a qualquer momento, outro país será bombardeado e o dólar vai liquidificar ou disparar. Assim uma vez que o noticiário sobre geopolítica e sobre economia, os eventos climáticos seguem esta serra russa, confirmando a certeza do Secretário Universal da ONU, em um dos seus discursos sobre o tema, proferido em junho de 2023, de que  “a era do aquecimento global acabou; a era da ‘ebulição global’ chegou”, sentença que tem se atualizado quase que diariamente, não somente pela ocorrência de eventos climáticos extremos, cada vez mais intensos e frequentes, mas também pelas movimentações na ensejo político-econômica, tanto pátrio quanto internacionalmente.

O exposição de Guterres, naquele junho de 2023, fazia menção direta aos dados científicos sobre mudanças climáticas, apontando, uma vez mais, para a veras dos alertas da comunidade de cientistas  em relação à essa crise, materializados nos dados dos relatórios sobre o clima no planeta. Todavia, a utilização do termo ebulição tem feito muito sentido ainda na geopolítica mundial e nas análises das múltiplas crises do capitalismo, que tornam-se mais agudas na segunda metade do século XX e estendem-se ao século XXI. Exemplo disso é a circulação de estudos e pesquisas que apontam para determinados momentos históricos uma vez que sendo de “ebulição global”[1]

E, no caldeirão de acontecimentos do início de 2026, no caso brasiliano, estão pequenos, médios e grandes investidores e, em alguma medida, não investidores também, na espera pela queda da SELIC, que é a taxa básica de juros no Brasil, taxa discutida em uma reunião de “cavaleiros da távola redonda” que decidem quanto você vai remunerar na prestação da sua geladeira. O Comitê de Política  Monetária, que apesar do nome, pretende ser um órgão independente do governo e do jogo de interesses político-partidários, mas vinculado ao Banco Médio que é, por sua vez, a palato do mercado, um órgão independente e autônomo no país desde 24 fevereiro de 2021.

É neste contexto que nos tornamos espectadores, através dos portais de notícias e das plataformas de mídias sociais, do alvoroço da bolsa de valores na expectativa de queda da SELIC. Expectativa que, aliada ao cenário geopolítico internacional dos meses iniciais de 2026, foi alimentada por um aumento significativo do fluxo de investimentos internacionais no mercado brasiliano, além de recordes na bolsa e também no preço do ouro, configurando uma novidade corrida do ouro uma vez que não vista nos últimos tempos.

Apesar da circulação diária de informações sobre a bolsa de valores nos noticiários, poucos sabem que a participação de investidores estrangeiros no volume financeiro negociado na B3 (a Bolsa de Valores do Brasil) tem sido dominante. No primeiro semestre de 2025, o capital estrangeiro respondeu por tapume de 58,7% do volume negociado, um dos maiores percentuais desde o início da série histórica em 2019. Cenário que se repete com as negociações em torno do ouro e outros metais, que aumentaram vertiginosamente, emulando outros momentos, em que há uma “corrida para ouro” de investidores, certeiras uma vez que “balas de prata” que disparam para matar lobisomens em alguns mundos da ficção.

Para além das planilhas de lucros dos empresários e rentistas, é importante refletir sobre os sentidos e os efeitos da circulação entre nós desse sobranceiro índice de capital estrangeiro. Não nos deteremos cá nas implicações das teorias econômicas sobre fluxos de capital, mas destacamos a delírio entre os detentores desse capital internacional e o cotidiano da população brasileira. Qual a preocupação deste investidor no nível de contaminação de mercúrio em um longínquo e idílico igarapé amazônico? Qual a contabilidade dos rendimentos e dividendos desse investidor na derrubada de um naco de compacto para expandir a fronteira agrícola de um Fundo de Investimento Agro? Pare para pensar e chore sozinho num cantinho da bolsa on-line.

Essa delírio estrutural de quem especula no país reforça a perspectiva de que as decisões em torno dos investimentos e, em universal, o exposição dos “influencers” e consultores dos aportes e retiradas de capital, pautam-se no lucro individual e não em parâmetros minimamente éticos ou solidários. Exemplos são os tutoriais e cursos de uma vez que fazer o primeiro milhão, espalhados pelas plataformas de mídias sociais. Nesse mercado de oferta de auxílio financeiro online, juntos, os 10 maiores influencers de finanças têm mais de 30 milhões de pessoas inscritas, sendo que existem somente pouco mais de 5 milhões que investem na bolsa. Não importa se o investimento da vez é em uma empresa que comete crimes ambientais que levam ao naufrágio de vários bairros em uma cidade ou ao rompimento de barragens de minérios que levam a devastação de biomas inteiros, o que vale – nesse vale tudo – é o retorno financeiro, o lucro ao final do dia. E tudo isso se labareda hoje de “ instrução financeira”. Uma sutil e útil confusão conceitual entre aprender a cuidar de suas suadas economias e servir de tamanho de volume financeiro para atrair bons negócios em subida graduação da Faria Lima.

Nos territórios, onde as veias seguem abertas e pulsam o sangue e a psique das cidades e de seus habitantes, milhares de pessoas sofrem os efeitos das decisões sobre investimentos.

Na Tijuca, por exemplo, bairro de classe média na Zona Setentrião do Rio de Janeiro em que as primeiras linhas desse texto surgem, pessoas trabalhadoras, envolvidas em suas atividades diárias, enfrentam as mazelas de uma grande cidade, marcada pelas desigualdades, circulando em transportes públicos lotados, paradas em engarrafamentos, sofrendo os efeitos das chuvas, que alagam ruas ou das ondas de calor que castigam pedestres de paisagens em que árvores são incessantemente substituídas pelos concretos da especulação imobiliária. Esse cotidiano, a vida real do trabalhador, pouco aparece nos relatórios de investimentos, esse drama humano não entra nas planilhas dos fundos internacionais. De indumento, o que domina as negociações e o sobe e desce das bolsas é a lógica do lucro global e a especulação.

Uma prova visceral disso aconteceu há poucas semanas: um incêndio de grandes proporções atingiu o Shopping Tijuca, na noite de 2 de janeiro de 2026. O queima começou no subsolo e acabou deixando duas pessoas mortas e outras feridas, enquanto partes do shopping tiveram de ser isoladas depois do combate às chamas. Um mês posteriormente o incêndio, os visitantes do Shopping, que foi reaberto duas semanas posteriormente o “incidente”, eram recebidos não por promoções, mas pelo cheiro de imundície e da fumaça de plástico queimado; lembranças físicas de um traumatismo coletivo que ainda se reflete nas paredes e na atmosfera do lugar, mesmo posteriormente a reabertura.

Em um tempo histórico marcado pela globalização e pela produção de um mundo pasteurizado, os Shoppings Centers são um dos signos do progresso no imaginário dessas cidades monocromáticas, e na Tijuca não é dissemelhante, a despeito da presença de tantos outros signos, incessantemente invisibilizados, uma vez que por exemplo, a Floresta da Tijuca ou o Rio Maracanã. Em tempos em que o consumo povoa o nosso imaginário, esse incidente brutal marcou de forma profunda a história do bairro.  Trabalhadores, moradores e frequentadores hoje carregam na pele, no cabelo com cheiro de shampoo e fumaça, na nublada e esfumaçada memória, a experiência de um sinistro que, longe de ser um indumento solitário, revela alguma coisa maior: a invisibilidade dos impactos humanos diante dos juros, mercados e interesses internacionais. Enfim, uma vez que foi dito pelos que governavam o país durante a pandemia de COVID, “a economia não pode parar”

No mundo dos números financeiros, zero disso aparece nas planilhas: a SELIC permanece subida, alimentando rentabilidades em renda fixa e atraindo capital estrangeiro em procura de juros maiores; enquanto isso, o investidor lugar, muitas vezes pessoa física, é empurrado para ativos de menor lucro, perdendo espaço no mercado acionário. E, a grande tamanho trabalhadora, é colocada às margens desse mundo dos lucros e dividendos, sendo alijados de sua humanidade e transformados somente em consumidores e consumidoras, necessários ao funcionamento da máquina de fazer lucros do atual rentismo.

O Brasil tem se mostrado um dos países mais atrativos para investidores estrangeiros em procura de rentabilidade elevada justamente por culpa da taxa de juros. Mesmo sem desabar ainda de forma significativa, a expectativa de redução da SELIC já tem sido motivo suficiente para movimentar esses fluxos de capital. No entanto, o que os gráficos e os relatórios não capturam, mas e que é provável sentir circulando pelos espaços urbanos, é o preço humano dessa dinâmica. A SELIC pode ser a taxa que move mercados, mas o verdadeiro ativo do século XXI não são números, índices ou capitais internacionais: é a vida das pessoas invisibilizadas por esses mesmos mercados, a terreno e seus minérios, os rios e a chuva, as florestas e o próprio ar que respiramos. Isso que alguns economistas chamam de externalidades, são os ativos não contabilizados de valor incalculável, sobretudo a médio e longo prazo.

Enquanto as taxas de juros e as expectativas de golpe ditam onde o moeda vai entrar ou transpor, o cotidiano de milhares de brasileiros – trabalhadores, moradores de bairros uma vez que a Tijuca e outros subúrbios ou outras periferias – continua a ser atravessado pelas  decisões de uma escol político-econômica que valoriza o capital supra da vida, seja humana ou nao humana, uma vez que rios, florestas, ou uma vez que o próprio ar. Essa incoerência entre os dados frios das planilhas e as vidas quentes que se desenrolam, com múltiplos sons, cores e cheiros, que muitas vezes escapam aos nossos sentidos, vêm se constituindo uma vez que uma das marcas do neoliberalismo financeiro contemporâneo, um sistema que transforma tudo, inclusive a vida das pessoas que o sustentam no dia a dia, em mercadoria.

O que não podemos perder de vista é que a reabertura do Shopping Tijuca, com segmento dos trabalhadores e trabalhadoras das lojas revivendo o uso das máscaras, que deixou marcas profundas na população em virtude da gestão criminosa da Pandemia de COVID-19,  se conecta diretamente com a centralidade dada na mídia hegemônica aos juros e a SELIC, que se constituem em dispositivos de exploração, de exclusão e de desumanização do outro. Enquanto os juros seguem em subida nas timelines e jornais diários, alguns fatos deste início de 2026 são praticamente ignorados, quase sem repercussão nos canais de notícias ou nas redes.

Povos indígenas e ribeirinhos, tal qual os invisíveis trabalhadores que sentem o cheiro da imundície do shopping na Tijuca ou os moradores de ruas cujas árvores são substituídas por concreto, vivem exatamente o mesmo processo de sufocamento que os pescadores e quilombolas que habitam a Foz do Amazonas, amaldiçoada pela invenção de petróleo, cujas ações de empresas responsáveis pela extração do “ouro preto” costumam remunerar bons dividendos. Configuram-se velhas e novas “zonas de sacrifício”.

Todas essas notícias, tornadas invisíveis, se conectam diretamente com o destaque oferecido aos juros e a SELIC, pois tem uma vez que tecido de fundo uma lógica desenvolvimentista, que reflete e conforma os processos de exclusão em curso e que são sustentados pela desinformação socioambiental. Emergem discursos que, em alguma medida, não negam a urgência de ações em prol do “Meio Envolvente“ e da “Natureza“, mas que atualizam as estratégias do negacionismo socioambiental. São os novos “Mercadores da incerteza”[2]. Diante da dificuldade, cada vez maior, de negação do colapso ambiental, busca-se sobresair os benefícios para a economia e para o desenvolvimento econômico, da perpetuidade de determinadas práticas, uma vez que por exemplo, a extração de petróleo, que seria indispensável para financiar e prometer uma suposta transição energética, conforme a justificativa fluente. No entanto, os já constatados danos ambientais destas atividades extrativistas são totalmente ocultados.

Apesar da passagem do tempo no calendário, não estamos longe do ano de 1492 ou do mais próximo 1992, em que Enrique Dussel, por ocasião da efeméride que marcou a invasão dos europeus ao continente americano, nos alertou que mais que descobrimento, deveríamos notar para a permanência do “encobrimento do outro” e da materialização da colonialidade, em que as notícias e pautas escolhidas uma vez que centrais zero mais são do que a sentença de uma matriz colonial do poder, em que a natureza, e as relações com ela estabelecidas são vistas uma vez que “recurso” e uma vez que “mercadoria”.

Em tempos de ebulição global, quando nossa atenção é incessantemente capturada pela avalanche de teor, de tal modo que ficamos sufocados e embotados, torna-se urgente a retomada da autonomia na escolha das direções em que focamos os nossos olhares. Erigir ecossistemas de informação que convergem para os interesses das comunidades, dialogando com interlocutores de nossa escolha, sem a intermediação dos algoritmos ou da perceptibilidade sintético, constitui-se um passo necessário. Nesta perspectiva, em um planeta já em colapso ambiental, é preciso edificar estratégias de mitigação ao embotamento produzido pela atual economia da atenção. E, nesse sentido, voltar nossos sentidos para os territórios, constitui-se em passo forçoso.

O ar fresco a chuva pura e terreno para todos é a melhor aposta de rendimentos futuros e de longo prazo. E é essa veras que precisamos visibilizar, porque não há gráfico ou planilha que substitua a experiência real de quem vive, trabalha e sente cada decisão econômica na pele.


Notas

[1] Uma vez que exemplos citamos o estudo de Brans, Hal, intitulado Third World Politics in an Age of Global Turmoil: The Latin American Challenge to U.S. and Western Hegemony, 1965–1975 (https://doi.org/10.1111/j.1467-7709.2007.00669.x) que aponta a dez de 1960 e de 1970 uma vez que um desses momentos de ebulição global no cenário geopolítico ou o cláusula de Liz Shchepetylnykova and Sevgi Kaya-Kaşıkcı, intitulado Embracing Complexities: Transformations of International Student Mobility amid Global Turmoil, que analisam aspectos relacionados à mobilidade internacional de estudantes em tempos de ebulição global posteriormente as crises da dez de 2020, no período pós-pandemia de COVID (https://ihe.bc.edu/pub/nv29of05/release/1)

[9] Título de estudo realizado por Naomi Oreskes e Erik M. Conway, em que demonstram as estratégias de desinformação adotadas para descredibilizar os consensos científicos em torno do malefícios do tabagismo e das mudanças climáticas. ORESKES, Naomi; CONWY, Erik M. Mercadores da incerteza. São Paulo : Quina, 2025.

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