Mesmo com seguidas tragédias, ocupação de encostas cresce no litoral de SP
A poderoso chuva que cai nas cidades do litoral de São Paulo desde o último final de semana já deixou centenas de desabrigados, suspendeu aulas e bloqueou estradas. A situação é tão preocupante que a Resguardo Social do Estado emitiu alerta de risco severo para deslizamento e enxurradas e a população vive em clima de tensão. As áreas mais preocupantes são as encostas que, apesar da proibição por lei, têm sido ocupadas irregularmente, mesmo em seguida repetidas tragédias.
Segundo dados do MapBiomas, somente nas cidades que compõem o Litoral Setentrião Paulista – Bertioga, São Sebastião, Caraguatatuba, Ilhabela e Ubatuba – o progressão urbano sobre áreas altamente inclinadas aumentou 50,7% em uma dez.
Em 2014, 140 hectares de encostas com declividade superior a 30% estavam ocupados em tais cidades. Em 2024, esse número subiu para 211 hectares. Os dados mostram um prolongamento médio de 4,2% de ocupação ao ano.
Os dados fazem secção da coleção 10 do MapBiomas. Eles são publicados anualmente, sempre referentes ao ano anterior. Os dados sobre 2025 ainda estão sendo processados.
O parcelamento do solo em terrenos com declividade superior a 30% é proibido por lei (Lei Federalista 6.766/79), justamente pelo risco de deslizamentos. Na prática, não é muito isso que acontece.
Prelecção não aprendida
Entre a noite do dia 18 e madrugada do dia 19 de fevereiro de 2023, uma chuva torrencial caiu sobre a cidade de São Sebastião. Foram 682 milímetros em 24 horas, o maior reunido que se tem registro no país. Tanta chuva, associada a outros fatores, provocou deslizamentos que deixaram 65 mortos, na tragédia que marcou a história da região e que, agora, com as chuvas de 2026, poder público e população lutam para que não se repita.
Um dos fatores que aumentam o risco de deslizamento é justamente a ocupação irregular. Mas nem a tragédia registrada em 2023 freou levante processo.
Ainda de negócio com dados do MapBiomas, de 2023 a 2024, o prolongamento na ocupação de encostas com subida declividade nas cinco cidades do Litoral Setentrião paulista foi de 6,6% – de 198 hectares ocupados para 211 hectares.
| Dimensão ocupada em encostas com mais de 30% de declividade nos municípios de Bertioga, Caraguatatuba, São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba (em hectares) | |
| 2024 | 211 |
| 2023 | 198 |
| 2022 | 194 |
| 2021 | 185 |
| 2020 | 177 |
| 2019 | 169 |
| 2018 | 166 |
| 2017 | 160 |
| 2016 | 154 |
| 2015 | 146 |
| 2014 | 140 |
Somente na cidade de São Sebastião, onde aconteceu a tragédia, o progressão urbano em tais áreas foi de 2,4% entre 2023 e 2024 (de 55 hectares para 57 hectares).
“Se você olhar desde o início da série, você vai ver que a gente quase não tinha ocupação de encosta em São Sebastião, zero hectares em 1985, e isso foi crescendo ao longo dos anos”, ressalta Mayumi Hirye, Coordenadora de Áreas Urbanizadas do do MapBiomas, ao referir-se ao primeiro ano em que a organização tem dados de ocupação do solo.
Até a dez de 1950, os municípios do litoral paulista apresentavam baixa densidade demográfica, e sua população era formada, essencialmente, pelas comunidades tradicionais caiçaras, que residiam principalmente nas áreas mais planas.
A partir da dez de 1970, no entanto, o Litoral Setentrião registrou uma grande expansão do setor imobiliário. Houve um boom na construção de residências e condomínios de sobranceiro padrão para a estadia de veranistas, principalmente nas áreas mais planas, próximas das praias. Isso acabou levando as populações tradicionais em direção aos morros, na forma de ocupação irregular.
Atualmente, a especulação imobiliária continua sendo o fator principal da expansão urbana na região.
O que o MapBiomas mostra em números e mapas, a organização Instituto Conservação Costeira (ICC) – entidade socioambiental dedicada à conservação da Mata Atlântica – testemunha no dia a dia.
Responsável por um programa de monitoramento na Dimensão de Proteção Ambiental (APA) Baleia Sahy, em São Sebastião, e seus entornos, a organização tem reunido denúncias de crimes ambientais e grilagem de terras em áreas que deveriam se manter preservadas.
Segundo dados de um relatório da organização ainda em construção, ao qual ((o))repercussão teve aproximação, somente entre maio e dezembro de 2025, a organização protocolou 79 denúncias junto à Secretaria Municipal de Meio Envolvente de São Sebastião (SEMAM).
Elas foram relativas à supressão irregular de vegetação nativa da Mata Atlântica, incluindo áreas de preservação permanente, e parcelamento, aterramento e ocupação irregular do solo, entre outras infrações ambientais.
Segundo Fernanda Carbonelli, presidente do ICC, o desmatamento, seguido da ocupação, de veste tem se intensificado nos últimos anos na cidade, mesmo depois da tragédia de 2023.
Ela cita o exemplo da Vila Piavú, que fica no entorno subitâneo da APA Baleia Sahy. A espaço, por lei, está “congelada”, não podendo ter novas ocupações. A veras se mostra dissemelhante, diz.
Em 2019, quando foi criada a espaço protegida, havia 470 ocupações urbanas nesta Vila, em uma espaço de 39,7 milénio metros quadrados. Em fevereiro de 2023, logo em seguida a tragédia em São Sebastião, o número de ocupações era de 520, em uma espaço de 45,8 milénio m². Em janeiro de 2026, foram contabilizadas 620 ocupações, em espaço de 51,2 milénio m².


“Não é normal os núcleos, depois de um trágico acidente, crescerem. Ao contrário, a tendência é diminuir e as pessoas migrarem para outros lugares. Mas, talvez iludidas pela procura de que cá tem moradia fácil, está vindo muita gente”, diz.
Segundo ela, está em curso um esquema de grilagem de terras no litoral setentrião paulista, que não é coibido pelo poder público.
“O primeiro passo que demos foi lançar luz ao problema, chamando estado e município a assumirem suas responsabilidades. Mas precisamos de investigação policial, precisamos da identificação dos atores que estão facilitando o processo”, reforça a presidente do ICC.
Segundo a entidade, a estudo das respostas institucionais às denúncias feitas demonstram que, mesmo em casos em que houve retorno formal, as providências adotadas são “frequentemente pontuais, reativas e desarticuladas da veras observada em campo”.
((o))repercussão procurou a Secretaria de Meio Envolvente de São Sebastião questionando o órgão sobre as denúncias de ocupação irregular. Por email, a SEMAM solicitou que a demanda fosse encaminhada para a Secretaria de Governo (SEGOV).
Até o momento, a SEGOV não deu retorno sobre os questionamentos feitos pela reportagem. O espaço permanece desimpedido.

