“Quem para a vasa da morte?”
Eram muro de 11h30 da manhã do dia 28 de janeiro quando uma vasa avermelhada ocupou o leito do rio Paraopeba, em Esmeraldas, na região medial de Minas Gerais. Trabalhadores de areais às margens do rio registraram, com preocupação, a chegada dos rejeitos provenientes do transbordamento das minas de Fábrica e Viga, da mineradora Vale, ocorrido entre domingo e segunda-feira (25 e 26). O incidente reacende o temor de comunidades ribeirinhas que ainda lidam com os impactos do rompimento da barragem de Brumadinho e expõe novos danos ambientais e sociais ao longo da bacia.
Na quinta-feira (29), o governo de Minas Gerais autuou a Vale em R$ 1,7 milhão pelos danos ambientais causados e por não ter expedido o ocorrido em até duas horas em seguida o início do veste. Antes, na segunda-feira (26), o governo mineiro já havia suspendido os alvarás de funcionamento das atividades associadas.
As comunidades atingidas acham que as punições são brandas demais, considerando o impacto que esta novidade contaminação trará ao meio envolvente e aos seus modos de vida e subsistência.
“Isso é troco de projéctil para a Vale. Com esse novo rompimento, a esperança que a gente tinha de um dia voltar a ter a nossa vida de volta acabou. Acabou!”, diz Patrícia Passarela, moradora da comunidade Taquaras/Riacho, no município de Esmeraldas.

Membro de uma comunidade ribeirinha – que até 2019 tinha a pesca e o turismo associado uma vez que modo de subsistência – Patrícia luta por reparação desde o delito de Brumadinho e vê esta novidade contaminação uma vez que um novo golpe.
“Se com o primeiro rompimento [de 2019] o rio ia demorar 700 anos para ser limpo, agora vai ser mais 700 anos? Qual das minhas gerações viverá para poder ver esse rio limpo de novo? Isso é atropelar nossas memórias, nossa cultura, é atropelar tudo o que a gente um dia planejou viver”, diz.
A previsão do tempo necessário para a limpeza do Paraopeba vem de um estudo feito no início de 2025 pelo Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (NACAB) que projetou diferentes cenários de recuperação ambiental: no mais otimista, seriam necessários 44 anos de dragagem para a retirada totalidade dos resíduos. O cenário mais pessimista coloca esse prazo em 741 anos.
De veste, o processo de limpeza do Paraopeba acontece de forma muito lenta. Na prática, a dragagem do rio para retirada dos sedimentos do delito de Brumadinho ainda está restrita a unicamente três quilômetros do curso do rio, em um primeiro trecho.
Pelo entendimento judicial feito com a Vale, a previsão era de limpeza de 54 quilômetros até 2024, meta que não foi cumprida. Para o segundo trecho (entre três e seis quilômetros), os trabalhos de dragagem ainda estão em processo de licenciamento. Nos trechos 3 (6 a 38 km) e 4 (39 a 46 km) os trabalhos estão em temporada de definição de estratégias e metodologias. Para o trecho 5 previsto no entendimento judicial (a jusante da Usina Hidrelétrica de Igarapé, próxima a Juatuba), ainda não há zero definido.
“Até dezembro de 2025, a retirada de rejeitos da calha havia apanhado unicamente 17% do volume estimado de rejeitos depositados no Rio Paraopeba”, estima o Instituto Guacuy, que faz assessoria técnica independente de comunidades atingidas pela mineração em Minas Gerais.
Essa lentidão na limpeza faz com que, a cada novo incidente de enxurrada do rio, os sedimentos se movimentem e espalhem. Estudo publicado na última segunda-feira (26) pela NACAB, a primeira assessoria citada, mostrou que em seguida as grandes cheias de 2020 e 2022, uma espaço de muro de 24 milhões de m² apresentou aumento da concentração de material ferroso, intensa perda de vegetação e aumento da concentração de barro.
“Os índices são equivalentes aos da região diretamente atingida pelo rompimento, em Brumadinho, o que evidencia que o rejeito foi redistribuído no território, anos em seguida o desastre-crime”, diz o estudo publicado esta semana.
Entenda o que aconteceu
Entre domingo e segunda-feira (25 e 26) foram registrados rompimentos de estruturas vinculadas a sumps – reservatórios pequenos no fundo da fosso de uma mina – nas Minas Fábrica e Mina Viga, entre as cidades mineiras de Ouro Preto e Congonhas.
Segundo a prefeitura de Congonhas, somente o extravasamento da Mina Fábrica despejou muro de 300 milénio metros cúbicos de sedimentos nos rios da região. O volume do segundo transbordamento ainda não foi divulgado. Os rios Goiabeiras, Maranhão e Paraopeba já foram atingidos.
Em ambas as minas, foram constatadas falhas no sistema de drenagem, agravadas pelo ressaltado índice de chuvas em Minas Gerais. “Foi um dano ambiental incrível, nunca antes registrado cá no município de Congonhas”, disse o prefeito de Congonhas Anderson Cabido, em seguida o ocorrido.
Além da multa de R$ 1,7 milhão – que pode ser ampliada, conforme novos danos forem registrados – e da suspensão cautelar das atividades da Mina de Viga e Mina de Fábrica, a Vale foi obrigada a apresentar um Projecto de Recuperação de Dimensão Degradada (Prad) em até 10 dias e medidas emergenciais em até 48 horas.
Contaminação
O município de Esmeraldas fica a 150 km do foco do vazamento nas minas da Vale ocorridos nesta semana. A líder ribeirinha Patrícia Passarela sabe, no entanto, que uma vez que os rejeitos caem nos rios e córregos, os impactos ambientais e sociais se espalham com a força das águas.
“Você acha que esse lamaçal não chegou no [rio] São Francisco? Quem para o barro? Quem para o rejeito de minério? Quem para a vasa da morte?”, questiona Patrícia, ao lembrar que o Paraopeba é um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco.
Desde 2019 sua comunidade e dezenas de outras ao longo do rio Paraopeba estão proibidas de pescar ou consumir a chuva do rio, mesmo para dessedentação de animais. Segundo a líder ribeirinha, as atividades de turismo acabaram, pessoas foram deslocadas, famílias destituídas de seus lares e do convívio com a terreno e o rio que ocupavam.
Agora, o ocorrido nas Minas de Fábrica e Viga leste final de semana fez com que Patrícia e outros tantos afetados revivessem o traumatismo. “Estamos diante de mais um delito da Vale, e não é o delito de Brumadinho, é o delito de Congonhas”, diz a ribeirinha.

