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Brasil: o país mais biodiverso e mais ansioso do mundo

Brasil: o país mais biodiverso e mais ansioso do mundo

Entre 2021 e 2024, vivi uma jornada ininterrupta ao lado do meu marido, Dennis Hyde: juntos percorremos, documentamos e habitamos todos os 75 Parques Nacionais do Brasil na expedição Entre Parques. Antes dessa travessia, que durou três anos e meio, eu trabalhava uma vez que psicóloga clínica. Pausar o consultório para viver o Entre Parques foi uma decisão radical, mas não uma ruptura. Levei comigo o olhar analítico que me acompanha em qualquer lugar. Esse olhar, que antes se voltava ao íntimo das pessoas, passou a se penetrar também para os territórios, os parques e as comunidades que os habitam. 

Foi nessa vivência que se tornou impossível ignorar um paradoxo profundo: uma vez que podemos ser o país mais biodiverso do planeta e, ao mesmo tempo, estar entre os que apresentam as maiores prevalências de sofreguidão no mundo? Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil figura entre os países com taxas mais elevadas de transtornos de sofreguidão. Estudos mostram que o contato com a natureza reduz o cortisol, fortalece o sistema imunológico e favorece a saúde mental. Mas, nos últimos dois séculos, estamos nos afastando justamente daquilo que garante nossa saúde. Um estudo recente liderado pelo psicólogo Miles Richardson mostra que a conexão humana com a natureza caiu mais de 60% desde 1800, um declínio cultural profundo que se manifesta tanto na linguagem quanto nos hábitos cotidianos.

Por milhões de anos, vivemos em profunda conexão com os ciclos da terreno e do firmamento. As estações nos ofereciam maná, os astros inspiravam nossos mitos de origem. Esse compasso está inscrito em nós: nossa saúde psicossomática depende desse vínculo. Mas em poucas décadas nos tornamos majoritariamente urbanos, cercados por luzes artificiais, ruídos constantes e rotinas que já não seguem o nascer nem o pôr do sol. Biologicamente, seguimos os mesmos de centenas de milhares de anos detrás, mas o mundo mudou em velocidade vertiginosa. É nesse desencontro que se instala o adoecimento: enquanto nossa biologia ainda pulsa em sintonia com florestas e rios, nossa vida cotidiana se organiza uma vez que se esse gavinha não existisse.

A biofilia, noção descrito por Erich Fromm e desenvolvido por Edward O. Wilson, nos lembra que evoluímos em relação íntima com o mundo originário. Essa afinidade é secção do que nos constitui. Quando a rompemos, um tanto em nós também adoece.

Não à toa, muitos afirmam que não há uma vez que ser saudável em um planeta doente. Nesse sentido, falar de Unidades de Conservação não é somente falar de biodiversidade ou de proteção ambiental: é falar de saúde pública. Políticas de conservação são, ao mesmo tempo, políticas de saúde preventiva. 

De certa forma, percebo que a psicologia e a conservação compartilham uma mesma tarefa: a construção de pontes. No consultório, trabalhamos para aproximar consciente e inconsciente, pretérito e presente. Na conservação, precisamos aproximar mundos – urbano e originário, sociedade e áreas protegidas, cidadãos e guardiões da floresta. Porque, por fim de contas, a nossa sobrevivência está entrelaçada: nós dependemos dos parques, e os parques dependem de nós. 

De onde vem a chuva que chega à minha moradia em São Paulo? Ela brota em nascentes que só existem porque estão protegidas dentro de parques e outras Unidades de Conservação espalhadas pelo Brasil. Sem esses territórios, não há chuva, não há clima equilibrado, não há vida. Mas esses lugares não se sustentam sozinhos. Eles existem porque há pessoas de mesocarpo e osso que, muitas vezes de forma invisível, colocam seus corpos e suas vidas para que esses territórios continuem de pé: brigadistas, analistas ambientais, beiradeiros, comunitários, voluntários e indígenas. Essa é uma tarefa marcada por riscos constantes.

Em graduação global, segundo dados da Global Witness em parceria com a IUCN, 212 pessoas foram assassinadas em 2019 por tutelar a natureza – uma média de mais de quatro mortes por semana. Já dentro das áreas protegidas, um levantamento publicado no PARKS Journal, em colaboração com a IUCN, registrou 2.351 mortes de guardas em serviço em 82 países entre 2006 e 2021 — o equivalente a quase duas por semana. Dessas, 42% foram homicídios, em grande secção durante confrontos armados com caçadores e grupos criminosos. Mesmo esses números já alarmantes são considerados subestimados, pois muitas ocorrências sequer são reportadas. A violência enfrentada por defensores da natureza é, portanto, ainda maior do que os dados conseguem revelar.

Recentemente estive com dezenas desses defensores em um curso na Colorado State University, uma vez que bolsista do Instituto Semeia. A formação reuniu durante um mês gestores e profissionais da conservação de sete países da América Latina e também colegas dos Estados Unidos. Foi uma convívio intensa, em que pude escutar e compartilhar as realidades de quem está na traço de frente. E os desafios são incrivelmente semelhantes. Não importa se no Brasil, no Panamá, no Peru ou nos Estados Unidos – quem trabalha com conservação enfrenta isolamento, sobrecarga, hostilidade e, muitas vezes, a sensação de invisibilidade.

No término das contas, cuidar da natureza é também cuidar de quem cuida dela. O que está em jogo não é somente a formosura das paisagens ou a variedade das espécies, mas a chance de um país adoecido encontrar um caminho de desvelo. A biodiversidade brasileira não é um luxo – é uma premência vital, um contraveneno contra a sofreguidão e o colapso. Cuidar dos parques é, portanto, uma forma de cuidar de nós mesmos. Talvez ainda possamos transformar essa incoerência em potência: que o país mais biodiverso do mundo seja também aquele que reencontrou, em sua natureza, a sua própria saúde. Quanto mais diversas forem as vozes, mais fortes seremos na resguardo da vida. E você, me acompanha nessa novidade expedição?!

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