As cores, vidas e luzes de Abrolhos

As cores, vidas e luzes de Abrolhos

Saber o Parque Vernáculo de Abrolhos pode ser um grande repto logístico. Atualmente as únicas empresas autorizadas pelo ICMBio a explorar os serviços de turismo, tanto de visitação quanto de mergulho, possuem embarcações partindo exclusivamente do cais de Caravelas, uma cidade do sul da Bahia com grande história, mas que hoje está longe do que foi em seu culminância econômico. Os dois aeroportos mais próximos e com voos comerciais regulares estão em Porto Seguro (BA) e em Vitória (ES), o que exige um deslocamento para Caravelas, de 300 ou 400 quilômetros respectivamente.

Soma-se ao trajecto uma navegação de no mínimo quatro horas para o arquipélago, em condições meteorológicas de vento e ondas nem sempre favoráveis e com mudanças bruscas que desafiam as previsões e planejamentos com maior antecedência.

 No último trimestre de 2024 tentamos montar esse quebra-cabeça em meio a inúmeras desventuras que foram se acumulando: voo cancelado, falta de coche para alugar no verão, estradas em péssimas  condições e motor de embarcação quebrando de última hora. Foi exclusivamente em janeiro de 2025, quando já estávamos desistindo, é que surgiram duas vagas junto a um grupo de mergulhadores, que saíram do  Rio de Janeiro e que enfrentaram mais de 15 horas de ônibus para chegar em Caravelas, onde nos encontramos para o embarque.

Ao final, vivenciamos quatro dias de chuva clara, quase sem vento e mergulhos até a noite. Há quem possa questionar se vale a pena diante de tantos percalços. Sim. A cor da chuva, o pôr do sol, as estrelas, as rochas, as aves, os naufrágios, as histórias, os corais e toda a vida marinha que lá habita. Abrolhos irá sequestrar o seu fôlego, repetidas vezes, recompensando cada esforço para chegar até lá.

Foto aérea do arqupélago. Crédito: Gualter Pedrini

O Parque Vernáculo Pelágico de Abrolhos (PNMA) foi criado em 1983 pelo Instituto Brasílio do Desenvolvimento Florestal (IBDF), a entidade federalista responsável pela proteção dos recursos naturais à idade. Naquele ano o país estava mergulhado em um caldo de ditadura militar, inflação, desemprego e protestos populares que estampavam a envoltório dos jornais naquele mês de abril. Minúsculas foram as matérias noticiando a geração do primeiro parque pelágico do Brasil. (Iremos abordar mais da história da geração do parque em um texto porvir).

Ao contrário do imaginário popular, a superfície do Parque não compreende exclusivamente o entorno das ilhas do arquipélago de Abrolhos. Atualmente o Parque possui mais de 91 milénio hectares, abrangendo o Recife de Timbebas ao setentrião de Caravelas, o Parcel dos Abrolhos e o famoso arquipélago formado pelas ilhas Redonda, Siriba, Sueste e Guarita. A Ilhéu de Santa Bárbara também faz segmento do arquipélago, mas está sob jurisdição da Marinha e oficialmente não faz segmento do Parque, mesmo sendo de vital influência para as ações de monitoramento, pesquisa, aferição de dados meteorológicos e segurança da navegação por conta do farol que nela existe.

Localização de Abrolhos. Manancial: ICMBio, Instituto Socioambiental/Dados cartográficos Google/Edição: Scribble Maps

Dentre os objetivos específicos do parque uma vez que Unidade de Conservação estão a preservação da mais extensa superfície de recifes de corais do Brasil e de todo o Atlântico Sul, com espécies de corais que não existem em mais nenhum lugar do planeta muito uma vez que construções coralíneas em forma de cogumelo, chamados de “chapeirões”, que só existem naquelas águas.

Algumas pesquisas de levantamento de biodiversidade já registraram mais de 1300 espécies no parque, 45 delas consideradas ameaçadas de alguma forma pela lista da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais). Mas desde 1969, muito antes dos primeiros estudos faunísticos na região, pesquisadores brasileiros destacavam a singularidade desse ecossistema e a urgência de se gerar uma suplente para protegê-lo da pesca sem fiscalização que ocorria na região.  Naquela idade ainda eram embrionários os conhecimentos sobre a influência da região para a reprodução da baleia jubarte, tartarugas marinhas, fragatas, atobás e o mergulho autônomo ainda era privilégio de poucos brasileiros que aprenderam a reprofundar no exterior.

Atualmente, além do Parque Vernáculo Pelágico de Abrolhos, existe na região um mosaico de áreas protegidas, que englobam outros ecossistemas, tanto no mar quanto em terreno:

  • Suplente Extrativista de Cassurubá
  • Suplente Extrativista de Corumbau
  • Parque Vernáculo do Pau Brasil
  • Parque Vernáculo do Monte Pascoal
  • Parque Vernáculo do Descobrimento
  • APA Estadual da Ponta da Baleia
Planta com as Unidades de Conservação próximas. Manancial: ICMBio, Instituto Socioambiental/Dados cartográficos Google/Edição: Scribble Maps

Nos próximos textos iremos abordar mais detalhes sobre a história, as aves, vida marinha e também os desafios daquele que é o primeiro parque pelágico do país, mas que  continua sendo incógnito pela maioria dos brasileiros.

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