No jardim da minha moradia, entre flores que insistem em decorrer apesar do imprevidência, aprendi a observar a vida de perto. Ali, borboletas pousam com delicadeza, formigas seguem seus caminhos, e os ciclos se revelam sem pressa. A semelhança entre o ciclo de vida das borboletas e os nossos próprios ciclos não é novidade; o que costuma passar despercebido é o papel das formigas nesse processo. Foi no meu jardim que entendi que nem mesmo a transmutação acontece sozinha, ainda que exija fases de pausa, silêncio e recolhimento. Passar os ciclos da vida pede presença, mas também depende das relações. E ter um jardim por perto, com flores, borboletas e formigas, pode mudar a forma uma vez que atravessamos nossos ciclos.
As borboletas são símbolos de leveza e de formosura. Com seu voo quebrável e suas cores magníficas, elas inspiram alegria e encantamento. Sempre que uma mariposa cruza meu caminho, sinto uma vez que se a Mãe Natureza me sussurrasse: seja bem-vinda, minha filha. Em mim, elas despertam sorrisos espontâneos que brotam direto do coração com um profundo siso de gratidão.
Mas, antes da leveza do voo e da formosura das asas, existe um caminho longo, sombrio e nem sempre glamouroso, que passa pelo ovo, pela lagarta e pela pupa. É um ciclo completo de transformação, no qual zero permanece igual ao que era antes. A transmutação não é um salto direto para a formosura, mas um processo lento, feito de etapas, perdas e riscos.
A vida humana não é dissemelhante. Também atravessamos fases, com ritmos próprios, altos e baixos, momentos de expansão e de recolhimento. Para além do ciclo que vai do promanação à morte, vivemos ciclos diários no corpo físico, na mente e nas emoções. Há períodos de excitação e alegria, e outros de exaustão, incerteza e dor. Para as mulheres, esses ciclos são ainda mais visíveis e intensos. Ciclos que pedem pausas e desvelo. A teoria de linearidade – crescer, produzir e render sempre- não encontra respaldo nem na biologia das borboletas, nem na nossa.

As lagartas, rastejantes e algumas vezes consideradas feias, alimentam-se vorazmente, deixam marcas nas vegetação e parecem excessivas, quase incômodas. Podem suscitar grandes impactos nos ecossistemas e nas lavouras, mas ao mesmo tempo são frágeis e vulneráveis. Há alguma coisa nelas que espelha nossos períodos mais difíceis, quando estamos para plebeu e sentimos que ainda não somos aquilo que “deveríamos” ser. A lagarta não é um erro no sistema; é uma temporada necessária.
Depois vem a pupa, um dos momentos mais misteriosos do ciclo das borboletas. Zero acontece por fora, mas tudo está acontecendo por dentro. Silêncio, imobilidade e reorganização. Para a mariposa, esse tempo de pausa é vital. Para nós humanos também. Parar pode assumir muitas formas, uma vez que repouso forçado, doença, luto, contemplação, reflexão. Em um mundo que valoriza o movimento regular, a pupa nos lembra que toda transformação exige quietação e espera.
Quando finalmente surge, a mariposa é celebração: livre, ligeiro e colorida. É a temporada que associamos à felicidade, à plenitude e à formosura. Em nós, esses momentos também existem – fases de expansão, excitação e potência. Mas são impermanentes. A maioria das borboletas vive dias ou semanas, e nossos estados de exaltação também são efêmeros. Apesar de toda a atenção que damos à temporada da mariposa adulta, a maior segmento da vida dela é vivida uma vez que lagarta e pupa.
E as formigas com isso?
Existem relações surpreendentes, e muito documentadas, entre lagartas e formigas. Mas, antes de falar delas, preciso voltar ao jardim da minha moradia. Foi ali que, há dez anos, vimos alguma coisa que para além de uma interação biológica trouxe um significado bastante profundo para mim. Levei uma dezena ensaiando oriente texto, e foi somente agora, nessa temporada do meu ciclo, durante uma pausa dedicada à restauração da minha própria saúde, que encontrei o tempo e o silêncio necessários para escrevê-lo.
Meus filhos ainda eram pequenos quando me chamaram para ver uma cena curiosa no galho de uma laranjeira: uma borboleta-coruja (Caligo illioneus) emergida da crisálida, estava no processo de lhaneza das asas, enquanto formigas (Camponotus arboreus) ajudavam a “limpar” seu corpo. Por horas, observamos e registramos aquele encontro: as asas ainda dobradas e úmidas, o corpo frágil e exposto, e as formigas removendo os fluidos, facilitando a lhaneza das asas. Esse é um momento de grande vulnerabilidade no ciclo de vida das borboletas, onde estão expostas aos predadores, e qualquer interferência pode interromper sua vida. Mas, nesse caso, a cooperação com as formigas tornou o voo provável. Ao buscar a literatura científica e falar com especialistas, não encontrei registros desse tipo de interação, o que deu origem ao nosso primeiro item científico em família.
Já as relações entre lagartas e formigas são muito conhecidas pela ciência. Na maioria dos casos, são parcerias mutualísticas em que ambas se beneficiam: as lagartas oferecem secreções ricas em açúcares e nutrientes que atraem e alimentam as formigas, e recebem em troca proteção contra parasitas e predadores uma vez que verdadeiras sentinelas – uma relação que pode ser altamente específica. Essas associações variam de encontros ocasionais a dependências profundas, onde nem sempre o estabilidade se mantém. Em alguns casos, as formigas podem se tornar parasitas ou predadoras, em outros as borboletas podem induzir a obediência das formigas por meio de sinais químicos, manipulando o comportamento delas de modo análogo a uma drogadição.
A vida em comunidade envolve relações de desvelo, mas também conflitos, riscos e ambiguidades. A cooperação é fundamental, mas não significa simetria perfeita. E, essa lógica não é exclusiva para o mundo dos insetos.



As borboletas não são seres sociais no sentido ecológico do termo. Embora algumas lagartas sejam temporariamente gregárias, alimentando-se juntas e compartilhando abrigos, na temporada adulta as borboletas apresentam comportamento predominantemente solitário – com algumas exceções, uma vez que as espécies migratórias, que sazonalmente voam juntas por grandes distâncias, atravessando fronteiras. Por isso, tornaram-se símbolos de resistência e esperança nas narrativas humanas sobre transmigração.
Já as formigas são seres sociais, vivem em sociedades altamente organizadas, com separação de tarefas, cooperação e interdependência estrutural. Borboletas, formigas e suas interações são componentes essenciais do funcionamento dos ecossistemas. Na natureza, diferentes espécies se encontram nos limites entre o tipo e o coletivo, e é justamente nesses encontros que emergem algumas das interações mais fascinantes.
Uma vez que as borboletas, vivemos ciclos individuais, feitos de transformação e efemeridade. Uma vez que as formigas, somos seres sociais e dependemos uns dos outros para transpor nossos ciclos, sobretudo nos momentos de transição e reorganização interna. Evoluímos na interdependência. Sofreguidão, depressão e esgotamento emocional não são falhas individuais, mas sinais de um sistema que exige voo contínuo sem cuidar das lagartas nem respeitar as pupas, enquanto sobrecarrega o esforço coletivo das formigas.
O mundo moderno exalta a juventude, a força e a ilusão de uma resistência infinita. O individualismo, vendido nas redes sociais uma vez que virtude, produz isolamento e adoecimento nos corpos, nas relações e nos ecossistemas. A fragmentação que destrói florestas é a mesma que fragiliza os vínculos sociais e a saúde mental.
A experiência me ensinou que muitos ciclos se repetem até que a prelecção seja aprendida, às vezes pelo paixão, muitas pela dor. Essa aprendizagem nasce da escuta silenciosa na pupa, das relações de desvelo que tecemos em comunidade e dos jardins que nos rodeiam e nos chamam, sempre, de volta para o soalho.
Nos últimos anos, por razões físicas e mentais, descuidei do jardim da minha moradia. Mesmo esquecido por mim, ele permaneceu florido, cromatizado e pleno de formigas e borboletas. No meu processo de trato e restauração, libido me reconectar com esse espaço: pisar mais na terreno e plantar mais flores. Sei que nem todas as pessoas têm o privilégio de ter um jardim, mas mesmo um pequeno vaso pode trazer a natureza para dentro das casas. Há, também, muitos espaços públicos à espera de desvelo. Nas cidades, cultivar jardins nas praças, ruas e escolas cria refúgios não somente para vegetação e animais, mas principalmente para as pessoas.
Aproximar as pessoas da natureza fortalece a saúde de forma integral, mormente na puerícia. Tocar o solo, observar os ciclos e conviver com outros seres vivos -como borboletas e formigas- desperta encantamento e curiosidade, criando oportunidades de reconexão humana. Talvez a restauração ecológica integral comece assim: no cotidiano, no afeto, no gesto simples de cuidar de um pedaço de soalho. Cultivar um jardim extrínseco é também cuidar do jardim interno, transformando não só o entorno, mas a maneira uma vez que atravessamos nossos próprios ciclos. Onde a vida recebe desvelo, a esperança insiste em florescer.
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